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Chuva batiza o primeiro Brazilian
Day Miami

Finalmente aconteceu o Brazilian Day Miami, e debaixo do
maior toró. Ainda assim, milhares de brasileiros de todas as partes dos EUA
foram ao Bayside para a super festa que culminou com o show de Claudia
Leitte. Foi um começo promissor, que deu bem a medida das possibilidades do
BDM daqui para frente. E quantas pessoas havia por lá, afinal de contas? No
corredor principal do parque, que vai do palco ao chafariz, cabem 30 mil
pessoas, segundo a prefeitura de Miami, e ele estava lotado. Contando todo o
espaço restante do parque, calcula-se que tenham passado pelo BDM cerca de
75 mil pessoas durante o dia todo do evento. A prefeitura garante que foi
recorde de público em eventos no local.
A chuva lavou a alma dos brasileiros da parte de cá
dos EUA, que já estavam ansiosos para ter o seu próprio Brazilian
Day, numa cidade que tem muito mais em comum com o clima e o jeito
de ser brasileiros que qualquer outra fora do Brasil. Depois do
sucesso, é analisar os resultados e ver o que pode ser melhorado
para o próximo ano. Mas, desde já, André Martins e Debora Christina,
organizadores da festa, estão de parabéns pelo sucesso e merecem
umas boas férias até o aquecimento das turbinas para 2011.
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Brasileiros no mundo
O Ministério das Relações Exteriores confirmou a realização
de eleições para escolher os representantes das comunidades brasileiras no
Exterior. Na América do Norte, quatro representantes serão eleitos pelos
brasileiros que residam no continente. À parte a discussão em si sobre a
necessidade ou não de se ter esse tipo de representação, a perspectiva de
ganhar com ela alguma notoriedade oficial tem atraído alguns. O cargo não é
remunerado, mas mesmo assim apresentaram-se diversos candidatos. Tanto os
seriamente comprometidos com a causa comunitária, quanto os oportunistas de
última hora, que veem talvez no título uma boa possibilidade de ascensão
política e pessoal - os famigerados social climbers. A virtude da democracia
é ao mesmo tempo o seu defeito: enquanto ela teoricamente divide as
possibilidades entre todos que se habilitarem ao debate, também permite que
os menos preparados eventualmente conquistem um poder para o qual não têm a
mínima qualificação. Por essa razão, é imprescindível que os brasileiros
tradicionalmente mais envolvidos com a causa comunitária, e com passado
comprovado de participação social, assumam a responsabilidade e
apresentem-se para a eleição. De outro modo, abre-se o caminho para
aproveitadores de última hora, cujo compromisso com a comunidade resume-se
naquilo que prometem fazer se eleitos. As eleições estavam previstas para o
próximo mês de maio, mas uma reunião de última hora adiou o pleito para o
segundo semestre. Até lá, só vai faltar o horário político gratuito na TV,
porque a campanha vai ser acirrada.
Alvíssaras
O fim de semana passado, que marcou a estreia do primeiro
Brazilian Day, foi dos mais agitados nos últimos anos. Dois outros eventos
também movimentaram os brasileiros aqui na Flórida, o Press Award e o Focus
Brazil, ambos organizados pela PMM, agência de marketing comandada por
Carlos Borges, e realizados no Broward Center for the Performing Arts. Os
resultados de uma premiação como o Press Award, que mexe com vaidades
pessoais, sempre causam polêmica, principalmente pela forma pouco clara da
apuração de seus votos em edições passadas e de um certo protecionismo a
determinada “panela” na concessão dos prêmios. Não há como negar, contudo, o
amadurecimento do evento, em grande parte devido à projeção que ele tomou e
que de certa forma impede aquele jeitinho na hora de privilegiar esse ou
outro concorrente. O Focus Brazil, da mesma forma, ganhou uma dimensão
notável, e também não há como negar que os debates e palestras promovidos
por lá não sejam um estímulo para a construção de uma comunidade afinada com
seus objetivos. Parabéns à equipe da PMM.
Entre
as várias palestras que aconteceram no Broward Center, duas merecem
destaque, pela importância dos profissionais que as proferiram. O papa da
publicidade brasileira, Washington Olivetto, veio a convite da BAAA
(Brazilian-American Advertising Association), de Lineu Vitale, e atraiu uma
excitada plateia para uma longa e informativa palestra. Olivetto falou de
sua experiência profissional e de como sua agência lida com os diversos
“cases” que são apresentados a ela. Disse que não gosta de clichês como
“ruptura de conceito”, ou “mudança de paradigma”, mas foi exatamente isso
que sua agência fez no caso dos dois exemplos apresentados por ele na
palestra, da cerveja Nobel e dos chocolates Garoto. Em outra palestra, o
jornalista Caco Barcelos, da TV Globo, deu uma aula de jornalismo
investigativo à platéia, defendeu o jornalismo ético e ressaltou que a
notícia tem sempre dois lados. Barcelos demonstrou na prática a teoria,
exibindo em telão algumas de suas reportagens mais marcantes. A palestra foi
promovida em conjunto com a ABI-Inter, que no final homenageou Barcelos com
uma placa, entregue a ele por Al Sousa, pioneiro do jornalismo brasileiro
nos EUA.
Também foi homenageado o jornalista Edilberto Mendes, decano
editor do The Brasilians, de New York.
Qual é o futuro da ABI-Inter?
E por falar em ABI-Inter (Associação Brasileira de Imprensa Internacional),
a entidade que pretende reunir em associação os profissionais do jornalismo
em português fora do Brasil está de presidente novo. Foi escolhido, numa
assembléia realizada durante o Focus Brazil, Zigomar Vuelma, candidato único
e com as bênçãos do agora ex-presidente, Roberto Lima. Vuelma foi empossado
tendo como credenciais o fato de ser sócio de uma publicação, o jornal
“Gazeta”, da Flórida. O vice-presidente é o competente Breno da Matta,
jornalista de Connecticut, sócio e editor de outra publicação, o “Comunidade
News”. É sempre bom lembrar que a ABI-Inter foi criada para se encaixar nos
moldes da venerável ABI brasileira, centenária associação de jornalistas
criada para defender a classe e zelar pela ética na atividade e até mesmo na
sociedade como um todo. A ABI é, em sua essência, uma associação de
jornalistas, e não de proprietários de veículos, como a ABI-Inter parece
estar se tornando. Participei de algumas das primeiras reuniões da
ABI-Inter, tornando-me membro e um dos seus conselheiros de ética, até a
hora em que meus conselhos não foram mais ouvidos e deixei de ser membro e
conselheiro. Ainda assim, insisto num último conselho: a ABI-Inter tem que
privilegiar e defender a classe que representa - os jornalistas - e ganhar
independência para adquirir uma certa dignidade que ainda lhe falta, e que
de outra forma não lhe virá tão cedo.
Pequena aula de engenharia civil
É comum entre alguns de nós na comunidade assumir atividades completamente
estranhas à nossa formação profissional no Brasil. Assim, vemos
profissionais liberais bem qualificados dirigindo táxis, entregando pizzas,
lavando pratos, limpando casas etc. O oposto disso também é verdade, e temos
muitos exemplos de novos empresários que assumiram atividades que não têm
nada a ver com a sua formação profissional (ou falta de). Há por aí uma
legião de pedreiros, donas-de-casa, lavradores e jardineiros que se tornaram
empresários em ramos de atividades tão diversos como seguros, viagens,
transportes, restaurantes, varejo, jornais etc. Nada contra, isso dá bem a
ideia do que seja a realização do famoso “sonho americano”, e muitos
conquistaram merecidamente o seu posto à custa de trabalho duro. O problema
está na hora em que alguns desses empresários pouco qualificados, meio
deslumbrados e desavisados, resolvem posar de autoridade na atividade que
por acaso exercem aqui.
Como eu sou publicitário, e não engenheiro, resolvi entrar
na dança e dar uma aula de construção civil, mesmo não entendendo nada do
assunto. Aí vai ela:
Durante os anos 60 e 70, o maior jornal do Rio de Janeiro, e provavelmente o
mais importante do país, era o Jornal do Brasil. Tinha uma paginação ousada,
fruto de uma reforma editorial radical no final dos anos 50, que fez surgir
o famoso Caderno B, suplemento referencial no jornalismo brasileiro. O JB
era impecável na sua postura editorial, e foi um dos poucos na época a
desafiar a ditadura militar, que então descia com mão de ferro sobre as
redações, impondo a censura prévia, o AI-5 e outras aberrações contra as
liberdades civis. Pois bem, não por acaso, o JB detinha também a maior seção
de classificados do Estado, chegando mesmo a ter os pequenos anúncios
listados em sua primeira página até boa parte da década de 70. Isso porque o
JB, no início do século 20, era basicamente um jornal de classificados, e
cresceu sustentando-se nesses pequenos tijolos publicitários, que formaram
mais tarde uma das maiores estruturas jornalísticas do País.
A virada começou com a concessão, pela ditadura, de alguns
privilégios a um de seus concorrentes, o jornal O Globo, até então a quarta
ou quinta força jornalística no Rio de Janeiro, mas que crescia rapidamente
graças ao sucesso de sua contrapartida eletrônica, a TV Globo, aberta em
1965, com o apoio do novo governo golpista de 1964. Pouco a pouco, a verba
publicitária do governo transferiu-se do JB para O Globo, e com ela este
tomou o lugar do JB como o maior do Rio. Não por acaso, migraram também para
O Globo os preciosos tijolos dos anúncios classificados, que ao abandonar o
JB abalaram a estrutura do velho e venerável jornal dos Pereira Carneiro. No
final do século, o JB já era uma ruína de sua glória, e O Globo o novo líder
absoluto no Rio, com a maior seção de anúncios classificados do Estado,
evidentemente. Quanto maior o jornal, maior a sua seção de classificados,
como sabe qualquer estagiário obtuso ou foca de redação.
Guardadas as devidas proporções, o AcheiUSA começou da mesma
forma que o Jornal do Brasil - como um jornal de classificados, erguendo-se
alicerçado nessa base. Graças à solidez desses “tijolinhos” é que ele
cresceu forte, e tornou-se o que é hoje. Não por acaso, todos os nossos
concorrentes copiaram a nossa fórmula, abrindo improvisadas seções de
classificados em suas páginas, na tentativa de manter-se na esteira do
sucesso do AcheiUSA. Vã tentativa, porque pelo menos numa coisa acho que
estamos todos de acordo: experiência não se copia.
E aqui não há ditaduras para conceder privilégios à incompetência.
Moral da história: para manter uma casa de pé é preciso
cuidar muito bem dos tijolos que a sustentam.
Caetano caetaneou
Caetano
Veloso (foto) lotou o Jackie Gleason na terça passada, em Miami, encerrando
a turnê de lançamento do seu último CD, “Zii e Zie”. O show pode ser
definido como uma expressão bem fiel do significado do título do CD, se é
que alguém sabe qual é. Se eu tivesse que escolher uma outra palavra para
definir o show, diria que “insólito” seria uma boa. As opiniões se
dividiram: uns gostaram (eu, por exemplo) e outros não. Alguns nem mesmo
tiveram opinião formada, e estavam meio perplexos no final, sem saber dizer
se gostaram ou não.
Caetano apresentou-se com uma banda enxutíssima (guitarra,
baixo e bateria) e bem jovem, o que revigorou o seu trabalho, trazendo uma
modernidade indefinível e meio experimental às canções. No palco, uma asa
delta montada e imagens frias projetadas num telão davam mais estranheza ao
espetáculo. Diria que é muito difícil para artistas como Caetano, com uma
longa carreira de sucessos, criar algo original e ao mesmo tempo à altura do
que já foi feito. Não diria, no entanto, que “Zii e Zie” está nesse nível,
mas não há dúvida de que é um trabalho muito interessante, onde são reunidas
diferentes tendências musicais, desde o mais simples forró até o
experimentalismo atonal, tudo centralizado e processado pelo talento do
cantor e compositor.
Caetano, definitivamente, caetaneou.