Fotos: Ismar Ingber, Jefferson Simizu e Heloisa
Hipskind
Depois de se destacar no cenário artístico brasileiro como
ator, dramaturgo e roteirista, Miguel Falabella vai para atrás das câmeras e
dirige, pela primeira vez, um longa-metragem. Trata-se do filme “Polaróides
Urbanas”, uma adaptação de sua peça “Como Encher um Biquíni Selvagem”.
Ele estreou na Sétima Arte com o pé direito! Sua película, que ainda nem foi
lançada no Brasil, já recebeu um prêmio no exterior. No começo deste mês, o
“Polaróides Urbanas” participou do 11º Brazilian Film Festival of Miami e
abocanhou o prêmio de Melhor Filme do Júri Popular.
A exibição aconteceu no dia 3 de junho no Colony Theatre e em
seu pronunciamento, antes da sessão, Miguel estava visivelmente ansioso e
emocionado porque seria a primeira vez que seu filme seria visto por uma
platéia pagante. Platéia esta formada não só por brasileiros residentes na
Flórida como também por americanos, europeus e hispânicos.
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AcheiUSA
e acesse também o BRTV
Online para assistir aos vídeos diários que revelaram os bastidores do
festival.
Horas antes da premiação, às três da tarde, Miguel Falabella
nos concedeu entrevista exclusiva no saguão do hotel que estava hospedado.
Conversamos sobre a sua estréia como cineasta, ele revelou se gostaria de
trabalhar em Hollywood e contou uma história engraçada que aconteceu em Nova
York com ele e Ney Latorraca.
Naquela tarde, ele havia almoçado no Piola e voltou para o
hotel caminhando pelas ruas de South Beach com o Ney Latorraca, que foi o
grande homenageado do festival, e Gláucia Camargos, presidente do júri. O
dia estava lindo, ensolarado e com brisa do mar. Tudo perfeito para
entrevistar um “carioca da gema”! Ele estava à vontade, vestindo camiseta,
shorts e tênis, e muito feliz com a repercussão do seu filme na cidade.
Os 30 minutos passaram bem rápidos... A entrevista só foi
interrompida quando ele mesmo a encerrou, esquivando-se de responder como
foi a sua vida de imigrante na França. Confira agora!
AcheiUSA - Miguel, como está sendo este festival para você? Miguel
Falabella
- Para mim, muito importante, pois é o famoso “amor primeiro não tem
companheiro” – é o meu primeiro filme, é a primeira vez que ele foi visto
aqui em Miami para uma platéia mista de brasileiros e norte americanos.
Fiquei muito feliz com a reação da platéia, com o entendimento que eles
tiveram do meu filme, que apesar de ser uma comédia, é uma comédia com
alguma profundidade. Que fala desse mítico desejo do ser humano atrás da
felicidade. Vai ser sempre muito importante e inesquecível.
AcheiUSA – Ali, sentado no Colony, ao lado de sua primeira
platéia, qual foi a emoção?
Miguel -
Fiquei muito emocionado, primeiro porque a dificuldade de se fazer cinema no
Brasil é muito grande, como todo mundo sabe. Eu demorei praticamente oito
anos desde que escrevi o roteiro até até a finalização do filme. Então 8
anos é uma vida, quase uma década. E quando você finalmente consegue
apresentar o produto, a emoção é muito grande. Eu estava ao lado da Arlete
Salles que é uma grande amiga e foi um momento muito feliz da minha vida.
AcheiUSA - Teve algum momento em que a platéia não reagiu à
cena como você esperava?
Miguel –
Não. A platéia reagiu mais do que eu esperava, reagiu muito bem na comédia,
riram de todos os momentos em que eu acreditei que eles iriam rir e fizeram
o silêncio que eu esperava quando efetivamente a coisa se debruça no ser
humano e nesses pequenos desejos que todos nós temos. É a dona de casa em
que tudo que ela quer é dar uma voltinha de carro, a psicanalista que não
consegue gerir a vida da própria filha, a crioula que cria aquela menina e a
ama mais do que a mãe na verdade, a atendente de um centro de suicidas
anônimos cuja a filha matou-se. Enfim, essas pequenas tragédias do cotidiano
chegaram de alguma forma no coração das pessoas.
AcheiUSA - E isso não toca somente os brasileiros, eu acho
que também toca outros povos. Você não sente isso?
Miguel -
Quando você fala de humanidade, você é universal, porque os sentimentos são
universais. Eu me lembro de quando eu escrevi “A Partilha”, foi talvez meu
maior sucesso no teatro, uma amiga minha foi ver e ela disse: “essa peça vai
ser um sucesso estrondoso. Você vai fazer essa peça no mundo a fora.” E
efetivamente eu montei essa peça em 12 países. Ela falava de uma coisa
absolutamente humana, e por ser humana, ela é universal.
AcheiUSA - Falando sobre “A Partilha”, você não ficou com
vontade de dirigir no cinema?
Miguel -
É… mas na época o Daniel Filho comprou os direitos. Enfim, era dele, não era
meu. Eu não brigo com o destino não. Eu aprendi que eu deixo a vida me
levar.
AcheiUSA - Como foi o seu processo para dirigir o “Polaróides
Urbanas”?
Miguel –
O meu processo é trabalhar sempre com atores que eu conheço. Tenho a minha
turma, literalmente. Gente que gosto de trabalhar, gente que entende o que
eu escrevo e gente que entende de que maneira eu olho o mundo. A única
pessoa que chegou nova foi a Marília, 15 dias antes de começar as gravações,
mas mesmo assim quem me dirigiu na minha estréia no teatro foi ela. Eu
estreei em teatro com a Marília Pêra então é lindo que agora, neste momento,
ela esteja estrelando o meu primeiro filme.
AcheiUSA - Nossa, então no set de filmagem deve ter sido uma
“brincadeira”, não foi?
Miguel –
Foi maravilhoso! Fico emocionado em poder dizer isso, em poder ver que a
vida, quando você sabe conduzi-la, os ciclos vão se fechando. Você vai
reencontrando as pessoas e a vida vai em círculos. É muito interessante
isso.
AcheiUSA - Porque a peça, na versão cinematográfica, ganhou
um novo título?
Miguel -
Achei que “Como Encher um Biquíni Selvagem” estava muito ligado à Claudia
Jimenez, que era a atriz que fez no palco, era gorda e usava um biquíni de
onça. Então o título foi uma brincadeira em cima dela e achei que não cabia
mais para a versão cinematográfica.
AcheiUSA - Eu senti falta dela no filme. Por que ela não
participou?
Miguel -
Na última hora ela achou que não era exatamente isso que
queria fazer e eu respeitei a opinião dela. Nós somos amigos, ela até vai
fazer uma nova peça minha agora A vida é assim: cada qual tem a sua história
e o que é do homem o bicho não come. Então, não era dela, era da Marília
Pêra e que faz brilhantemente.
AcheiUSA - Qual a maior dificuldade que você encontrou para
dirigir este filme?
Miguel -
Conseguir a produção. Mas, na verdade, acho que me saí melhor do que
esperava até, em comandar uma crew, comandar a equipe de filmagem e os
atores. Porque nada mais é do que um teatro imediatista, e isso eu já faço a
vida inteira dirigindo teatro. No cinema tem a preparação, a pre-production
é que é o X do problema, você deixar tudo preparado para que na hora de
rodar, não falte nada, e você poder efetivamente fazer aquilo que acredita.
AcheiUSA - O que você acha desses atores brasileiros que
estão traçando uma oportunidade de fazer filmes em Hollywood? Você já
tentou? Tem essa intenção na sua vida?
Miguel -
Não, nenhuma. Eu amo o Brasil. Não conseguiria morar fora de
lá. Meus personagens são brasileiros. Eu preciso do Brasil para me
alimentar, para me reinventar. Não tenho essa pretensão mesmo. Honestamente!
Tenho uma carreira muito bem sucedida no Brasil, amo o publico brasileiro e
vejo o quanto é importante eu estar lá para continuar falando a língua do
dia-a-dia, a língua do cotidiano brasileiro. Mas não tenho portas fechadas,
não planejo a minha vida. Eu já te falei, eu deixo a vida me levar. O que
vier é lucro!
AcheiUSA - A nossa produtora, a Heloisa, nos pediu para
perguntar quando você vai voltar com o Caco Antibes? Miguel
-
Bom, Caco Antibes… acho que já encerrei esse ciclo. Estou estreando um
programa novo no dia 29 de julho, também aos domingos a noite, um novo
Siticom, que chama-se “Toma lá, dá cá”, que é um programa meu, com Marisa
Orth, Diogo Vilela, Adriana Esteves, Arlete Salles, muito engraçado.
AcheiUSA - Gostaria que você falasse do homenageado do BRAFF,
o Ney Latorraca.
Miguel –
Que o Ney Latorraca é um grande ator, isso todos nós sabemos, mas o que
talvez as pessoas não saibam é que ele é um dos colegas mais generosos, mais
dadivosos que a nossa classe tem. Não só é um amigo querido, presente, como
é uma pessoa preocupada com o bem-estar da classe. Então essa homenagem é
mais do que justa, ela é necessária. Sou apaixonado por ele, então eu sou
suspeito, mas ele é uma pessoa rara.
AcheiUSA - Você poderia contar alguma coisa que vocês dois
tenham vivenciado e que você não esquece até hoje? Miguel
-
Tem a história famosa de nós em Nova York, na Victoria’s Secret, e a mulher
começou a berrar conosco, começou a gritar porque nós estávamos mexendo nas
gavetas de calcinhas e não se podia mexer nas gavetas, e ela veio berrando:
“What’s going on? What’s going on?” E ele virou-se para ela e disse: “Tom
Cruise is dead!” (risos). Aí a mulher falou: “Oh my God!” O Ney parou a
Victoria’s Secret! (risos). No final ele falou: “Agora eu vou acabar com
essa mulher, quer ver? Aí ele falou assim: “terrific millennium for you!” E
ela disse “Thank you, sir” (risos).
AcheiUSA - O que você acha desses filmes brasileiros que
retratam no cinema a violência, a desigualdade social, tráfico de drogas no
Brasil e o mundo inteiro ver e constatar esses problemas?
Miguel -
Eu acho que isso é uma temática a mais, isso virou um filão, porque é o
zoológico humano. Para o primeiro mundo, como no Brasil há aqueles jipes que
levam turistas para visitar a Rocinha... Eu acho que isso é o zoológico
humano. Eu fui a Índia e me perguntaram se eu queria visitar a maior favela
da Índia. E eu disse, “não querido, eu já tenho favela que chegue na minha
vida”. Mas eu acho que é uma temática. Acho que há bons filmes e há maus
filmes. No meu filme, por exemplo, não é uma temática social, é uma temática
humana.
AcheiUSA - Eu sei que você assistiu quase todos os filmes do
festival. Fala um pouco do que você viu.
Miguel -
Não posso falar, pois eu também estou competindo e não posso falar dos
trabalhos dos colegas. Não vou falar disso.
Horas depois o “Polaróides Urbanas” ganhou
o prêmio de Melhor Filme do Júri Popular
AcheiUSA - Promete que se ganhar, você vai trazer a peça
também?
Miguel -
A peça, eu não sei. A minha vida é muito complicada. Eu trabalho muito. A
minha vida é muito difícil. Hoje um cara falou “Vamos para o Canadá, pois
tem colônias de portugueses lá.” Você acha que eu tenho tempo de fazer turnê
no Canadá? Eu mal tenho tempo de me coçar! Vou para o inverno no Canadá,
para fazer o que? Para sentir frio? Você tá doido?!
AcheiUSA - Há uma estatística de que cinco milhões de
brasileiros moram no exterior e a maior parte saiu por falta de oportunidade
no Brasil. Você sabe dessa problemática?
Miguel -
Sei, claro, a Gloria Perez fez uma novela sobre isso. Mas, acho que é uma
opção de vida. Eu, por exemplo, houve um momento que pensei seriamente em ir
embora do Brasil. Eu era jovem, quando achava que as portas não se abririam
para mim… Depois pensei que seria muito mais difícil eu fazer o que quero
fora do Brasil, mesmo porque sou muito saudoso, eu gosto muito do Brasil, eu
sou brasileiro demais... Sou carioca demais!!! Morei dois anos na França e
tinha depressões contínuas. No inverno, ia entrando numa depressão sem fim.
Eu preciso da luz do Rio de Janeiro, gosto daquela luz do fim de tarde,
quando o céu fica laranja, eu gosto daquela bagunça, vou fazer o quê? Gosto
daquela falta de respeito, daquela civilização torta, que é minha, que é
nossa, na verdade. Mas entendo que as pessoas precisem, às vezes, trilhar
outros caminhos para conseguir alguma coisa. Entendo, respeito e sou
solidário. É por isso que acho lindo poder ter um festival para que as
pessoas se vejam e tenham contato com os seus artistas, além da televisão.
AcheiUSA - No tempo que você morou na França, foi para fazer
algum trabalho?
Miguel -
Não, fui para tentar a vida. Fui como todo mundo, correr
atrás...
AcheiUSA – Bem, agora você vai ter que contar pra gente…
Miguel -
Não vou contar nada... Um beijo. Foi ótima a entrevista. Adorei. Felicidades
para todos os brasileiros daqui. Love you all!
Neusa
Martinez é paulistana, atriz, jornalista e apresentadora de TV. Nos EUA
desde 1997, apresentou e produziu os programas de TV “Zoando nos EUA” e
“Backstage Brazil”, transmitidos no sul da Flórida.
Sua entrada na imprensa escrita aconteceu em 1999 e desde 2002 assina a
coluna de entrevistas do jornal AcheiUSA, impresso e online.
Em 2006, Neusa retornou à mídia televisiva, mas desta vez lançando um canal
de tevê transmitido pela Internet, o
www.brtvonline.com. neusa@brtvonline.com