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Ano 9 - Edição 219

Entrevistas

Por Neusa Martinez                                          

A Primeira Vez de Miguel Falabella

Fotos: Ismar Ingber, Jefferson Simizu e Heloisa Hipskind

Depois de se destacar no cenário artístico brasileiro como ator, dramaturgo e roteirista, Miguel Falabella vai para atrás das câmeras e dirige, pela primeira vez, um longa-metragem. Trata-se do filme “Polaróides Urbanas”, uma adaptação de sua peça “Como Encher um Biquíni Selvagem”.

Ele estreou na Sétima Arte com o pé direito! Sua película, que ainda nem foi lançada no Brasil, já recebeu um prêmio no exterior. No começo deste mês, o “Polaróides Urbanas” participou do 11º Brazilian Film Festival of Miami e abocanhou o prêmio de Melhor Filme do Júri Popular. 

A exibição aconteceu no dia 3 de junho no Colony Theatre e em seu pronunciamento, antes da sessão, Miguel estava visivelmente ansioso e emocionado porque seria a primeira vez que seu filme seria visto por uma platéia pagante. Platéia esta formada não só por brasileiros residentes na Flórida como também por americanos, europeus e hispânicos.  

Leia a cobertura completa no AcheiUSA  e acesse também o BRTV Online para assistir aos vídeos diários que revelaram os bastidores do festival. 

Horas antes da premiação, às três da tarde, Miguel Falabella nos concedeu entrevista exclusiva no saguão do hotel que estava hospedado. Conversamos sobre a sua estréia como cineasta, ele revelou se gostaria de trabalhar em Hollywood e contou uma história engraçada que aconteceu em Nova York com ele e Ney Latorraca.

Naquela tarde, ele havia almoçado no Piola e voltou para o hotel caminhando pelas ruas de South Beach com o Ney Latorraca, que foi o grande homenageado do festival, e Gláucia Camargos, presidente do júri. O dia estava lindo, ensolarado e com brisa do mar. Tudo perfeito para entrevistar um “carioca da gema”! Ele estava à vontade, vestindo camiseta, shorts e tênis, e muito feliz com a repercussão do seu filme na cidade.  

Os 30 minutos passaram bem rápidos... A entrevista só foi interrompida quando ele mesmo a encerrou, esquivando-se de responder como foi a sua vida de imigrante na França. Confira agora!

AcheiUSA - Miguel, como está sendo este festival para você?
Miguel Falabella
- Para mim, muito importante, pois é o famoso “amor primeiro não tem companheiro” – é o meu primeiro filme, é a primeira vez que ele foi visto aqui em Miami para uma platéia mista de brasileiros e norte americanos. Fiquei muito feliz com a reação da platéia, com o entendimento que eles tiveram do meu filme, que apesar de ser uma comédia, é uma comédia com alguma profundidade. Que fala desse mítico desejo do ser humano atrás da felicidade. Vai ser sempre muito importante e inesquecível. 

AcheiUSA – Ali, sentado no Colony, ao lado de sua primeira platéia, qual foi a emoção?
Miguel -
Fiquei muito emocionado, primeiro porque a dificuldade de se fazer cinema no Brasil é muito grande, como todo mundo sabe. Eu demorei praticamente oito anos desde que escrevi o roteiro até até a finalização do filme. Então 8 anos é uma vida, quase uma década. E quando você finalmente consegue apresentar o produto, a emoção é muito grande. Eu estava ao lado da Arlete Salles que é uma grande amiga e foi um momento muito feliz da minha vida.

 

AcheiUSA - Teve algum momento em que a platéia não reagiu à cena como você esperava?
Miguel –
Não. A platéia reagiu mais do que eu esperava, reagiu muito bem na comédia, riram de todos os momentos em que eu acreditei que eles iriam rir e fizeram o silêncio que eu esperava quando efetivamente a coisa se debruça no ser humano e nesses pequenos desejos que todos nós temos. É a dona de casa em que tudo que ela quer é dar uma voltinha de carro, a psicanalista que não consegue gerir a vida da própria filha, a crioula que cria aquela menina e a ama mais do que a mãe na verdade, a atendente de um centro de suicidas anônimos cuja a filha matou-se. Enfim, essas pequenas tragédias do cotidiano chegaram de alguma forma no coração das pessoas. 

AcheiUSA - E isso não toca somente os brasileiros, eu acho que também toca outros povos. Você não sente isso?
Miguel -
Quando você fala de humanidade, você é universal, porque os sentimentos são universais. Eu me lembro de quando eu escrevi “A Partilha”, foi talvez meu maior sucesso no teatro, uma amiga minha foi ver e ela disse: “essa peça vai ser um sucesso estrondoso. Você vai fazer essa peça no mundo a fora.” E efetivamente eu montei essa peça em 12 países. Ela falava de uma coisa absolutamente humana, e por ser humana, ela é universal. 

AcheiUSA - Falando sobre “A Partilha”, você não ficou com vontade de dirigir no cinema?
Miguel -
É… mas na época o Daniel Filho comprou os direitos. Enfim, era dele, não era meu. Eu não brigo com o destino não. Eu aprendi que eu deixo a vida me levar. 

AcheiUSA - Como foi o seu processo para dirigir o “Polaróides Urbanas”?
Miguel –
O meu processo é trabalhar sempre com atores que eu conheço. Tenho a minha turma, literalmente. Gente que gosto de trabalhar,  gente que entende o que eu escrevo e gente que entende de que maneira eu olho o mundo. A única pessoa que chegou nova foi a Marília, 15 dias antes de começar as gravações, mas mesmo assim quem me dirigiu na minha estréia no teatro foi ela.  Eu estreei em teatro com a Marília Pêra então é lindo que agora, neste momento, ela esteja estrelando o meu primeiro filme. 

AcheiUSA - Nossa, então no set de filmagem deve ter sido uma “brincadeira”, não foi?
Miguel –
Foi maravilhoso! Fico emocionado em poder dizer isso, em poder ver que a vida, quando você sabe conduzi-la, os ciclos vão se fechando. Você vai reencontrando as pessoas e a vida vai em círculos. É muito interessante isso.  

AcheiUSA - Porque a peça, na versão cinematográfica, ganhou um novo título?
Miguel -
Achei que “Como Encher um Biquíni Selvagem” estava muito ligado à Claudia Jimenez, que era a atriz que fez no palco, era gorda e usava um biquíni de onça. Então o título foi uma brincadeira em cima dela e achei que não cabia mais para a versão cinematográfica. 

AcheiUSA - Eu senti falta dela no filme. Por que ela não participou?
Miguel -
Na última hora ela achou que não era exatamente isso que queria fazer e eu respeitei a opinião dela. Nós somos amigos, ela até vai fazer uma nova peça minha agora A vida é assim: cada qual tem a sua história e o que é do homem o bicho não come. Então, não era dela, era da Marília Pêra e que faz brilhantemente. 

AcheiUSA - Qual a maior dificuldade que você encontrou para dirigir este filme?
Miguel -
Conseguir a produção. Mas, na verdade, acho que me saí melhor do que esperava até, em comandar uma crew, comandar a equipe de filmagem e os atores. Porque nada mais é do que um teatro imediatista, e isso eu já faço a vida inteira dirigindo teatro. No cinema tem a preparação, a pre-production é que é o X do problema, você deixar tudo preparado para que na hora de rodar, não falte nada, e você poder efetivamente fazer aquilo que acredita. 

AcheiUSA - O que você acha desses atores brasileiros que estão traçando uma oportunidade de fazer filmes em Hollywood? Você já tentou? Tem essa intenção na sua vida?
Miguel -
Não, nenhuma. Eu amo o Brasil. Não conseguiria morar fora de lá. Meus personagens são brasileiros. Eu preciso do Brasil para me alimentar, para me reinventar. Não tenho essa pretensão mesmo. Honestamente! Tenho uma carreira muito bem sucedida no Brasil, amo o publico brasileiro e vejo o quanto é importante eu estar lá para continuar falando a língua do dia-a-dia, a língua do cotidiano brasileiro. Mas não tenho portas fechadas, não planejo a minha vida. Eu já te falei, eu deixo a vida me levar. O que vier é lucro! 

AcheiUSA - A nossa produtora, a Heloisa, nos pediu para perguntar quando você vai voltar com o Caco Antibes?
Miguel -
Bom, Caco Antibes… acho que já encerrei esse ciclo. Estou estreando um programa novo no dia 29 de julho, também aos domingos a noite, um novo Siticom, que chama-se “Toma lá, dá cá”, que é um programa meu, com Marisa Orth, Diogo Vilela, Adriana Esteves, Arlete Salles, muito engraçado.  
 

AcheiUSA - Gostaria que você falasse do homenageado do BRAFF, o Ney Latorraca.
Miguel –
Que o Ney Latorraca é um grande ator, isso todos nós sabemos, mas o que talvez as pessoas não saibam é que ele é um dos colegas mais generosos, mais dadivosos que a nossa classe tem. Não só é um amigo querido, presente, como é uma pessoa preocupada com o bem-estar da classe. Então essa homenagem é mais do que justa, ela é necessária. Sou apaixonado por ele, então eu sou suspeito, mas ele é uma pessoa rara. 

AcheiUSA - Você poderia contar alguma coisa que vocês dois tenham vivenciado e que você não esquece até hoje?
Miguel -
Tem a história famosa de nós em Nova York, na Victoria’s Secret, e a mulher começou a berrar conosco, começou a gritar porque nós estávamos mexendo nas gavetas de calcinhas e não se podia mexer nas gavetas, e ela veio berrando: “What’s going on? What’s going on?” E ele virou-se para ela e disse: “Tom Cruise is dead!” (risos). Aí a mulher falou: “Oh my God!” O Ney parou a Victoria’s Secret! (risos). No final ele falou: “Agora eu vou acabar com essa mulher, quer ver? Aí ele falou assim: “terrific millennium for you!” E ela disse “Thank you, sir” (risos). 

AcheiUSA -  O que você acha desses filmes brasileiros que retratam no cinema a violência, a desigualdade social, tráfico de drogas no Brasil e o mundo inteiro ver e constatar esses problemas?
Miguel -
Eu acho que isso é uma temática a mais, isso virou um filão, porque é o zoológico humano. Para o primeiro mundo, como no Brasil há aqueles jipes que levam turistas para visitar a Rocinha... Eu acho que isso é o zoológico humano. Eu fui a Índia e me perguntaram se eu queria visitar a maior favela da Índia. E eu disse, “não querido, eu já tenho favela que chegue na minha vida”. Mas eu acho que é uma temática. Acho que há bons filmes e há maus filmes. No meu filme, por exemplo, não é uma temática social, é uma temática humana.

AcheiUSA - Eu sei que você assistiu quase todos os filmes do festival. Fala um pouco do que você viu.
Miguel -
Não posso falar, pois eu também estou competindo e não posso falar dos trabalhos dos colegas. Não vou falar disso.


Horas depois o “Polaróides Urbanas” ganhou
o prêmio de Melhor Filme do Júri Popular

AcheiUSA - Promete que se ganhar, você vai trazer a peça também?
Miguel -
A peça, eu não sei. A minha vida é muito complicada. Eu trabalho muito. A minha vida é muito difícil. Hoje um cara falou “Vamos para o Canadá, pois tem colônias de portugueses lá.” Você acha que eu tenho tempo de fazer turnê no Canadá? Eu mal tenho tempo de me coçar! Vou para o inverno no Canadá, para fazer o que? Para sentir frio? Você tá doido?!  

AcheiUSA - Há uma estatística de que cinco milhões de brasileiros moram no exterior e a maior parte saiu por falta de oportunidade no Brasil. Você sabe dessa problemática?
Miguel -
Sei, claro, a Gloria Perez fez uma novela sobre isso. Mas, acho que é uma opção de vida. Eu, por exemplo, houve um momento que pensei seriamente em ir embora do Brasil. Eu era jovem, quando achava que as portas não se abririam para mim… Depois pensei que seria muito mais difícil eu fazer o que quero fora do Brasil, mesmo porque sou muito saudoso, eu gosto muito do Brasil, eu sou brasileiro demais... Sou carioca demais!!! Morei dois anos na França e tinha depressões contínuas. No inverno, ia entrando numa depressão sem fim. Eu preciso da luz do Rio de Janeiro, gosto daquela luz do fim de tarde, quando o céu fica laranja, eu gosto daquela bagunça, vou fazer o quê? Gosto daquela falta de respeito, daquela civilização torta, que é minha, que é nossa, na verdade. Mas entendo que as pessoas precisem, às vezes, trilhar outros caminhos para conseguir alguma coisa. Entendo, respeito e sou solidário. É por isso que acho lindo poder ter um festival para que as pessoas se vejam e tenham contato com os seus artistas, além da televisão.  

AcheiUSA - No tempo que você morou na França, foi para fazer algum trabalho?
Miguel -
Não, fui para tentar a vida. Fui como todo mundo, correr atrás... 

AcheiUSA – Bem, agora você vai ter que contar pra gente…
Miguel -
Não vou contar nada... Um beijo. Foi ótima a entrevista. Adorei. Felicidades para todos os brasileiros daqui. Love you all!

 


Neusa MartinezNeusa Martinez é paulistana, atriz, jornalista e apresentadora de TV. Nos EUA desde 1997, apresentou e produziu os programas de TV “Zoando nos EUA” e “Backstage Brazil”, transmitidos no sul da Flórida.
Sua entrada na imprensa escrita aconteceu em 1999 e desde 2002 assina a coluna de entrevistas do jornal AcheiUSA, impresso e online.
Em 2006, Neusa retornou à mídia televisiva, mas desta vez lançando um canal de tevê transmitido pela Internet, o www.brtvonline.com.

neusa@brtvonline.com


 

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