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Ano 9 - Edição 219

Crônicas

Por Pedro Paulo                                          

Cuidado com o Pré-Natal

Após “receber” a encomenda do editor deste quinzenário para escrever um texto sobre o Natal, prefiro começar falando sobre o pré-Natal. Ao ver uma matéria na TV sobre como se comportar nas indefectíveis festinhas de fim de ano, me vieram à lembrança algumas de que eu participei, ora como empregado, ora como músico. E, sempre a mesma coisa, todo mundo querendo aparecer, todo mundo soltando a franga depois de tomar três ou quatro doses, gente que parecia ser tímida todo o ano, de repente sai se “esbaldando” à vontade.

Na hora dessa enjoação que é o amigo oculto, seja discreto, não queime o filme, se é que você tirou aquela pessoa que você esta a fim. Se tirou alguém que você odeia, essa não é a melhor hora de se vingar. Esse ano teve, na festinha dos funcionários da organização para qual eu toco, uma coisa muito divertida, parecida com o amigo oculto: mandaram todo mundo pegar em casa alguma coisa que tenha ganho de presente no passado, que além de cafona não serve pra nada (que no Brasil a gente chama de presente PA – passe adiante), e embrulhar cuidadosamente no papel de presente mais bonito e levar pra festa. Daí em diante, dá para imaginar como foi divertido.
Em poucas festas se celebra o verdadeiro espírito do Natal, a maioria, depois da metade, acaba em esbórnia. Infelizmente, já não se faz mais Natal como antigamente. Os papéis se invertem, Papai Noel já não é o mesmo, as crianças já não são as mesmas. Já vi criança passar a mão na bunda de Papai Noel e sair correndo. Hoje, ao parar o carro em um sinal da 79th Street (a da migra), veio uma mendiga e se debruçou na janela pedindo esmola, e o saco da esmola era um gorro do Papai Noel, todo sujo e rasgado.

Apesar desse tipo de coisa, o mês de dezembro para mim, e penso que para muitas outras pessoas, foi e é o mês mais lindo do ano. Parece que rola uma magia no ar, as pessoas, me parece, ficam mais tolerantes. E a decoração nas ruas, nas casas, mesmo que não haja uma alma ao redor? O que dizer das musicas, que os americanos sabem fazer como ninguém?

Gosto de todas, canto umas seis ou sete com muito prazer. Todo mundo fazendo compras nos shoppings, os fil-mes sobre o Natal que passam na TV, sentar em um Starbucks da vida e ficar vendo o movimento, tomando um cappucino... são coisas que ainda me dão grande prazer.

Como me dá muito prazer, e para isso não meço sacrifícios, mando para o Brasil presentes para a família, principalmente para os dez sobrinhos que tenho. Não dá pra explicar a alegria que eles sentem quando recebem os presentes. Só pra tes-tar, eu pergunto o que eles querem, e, os mais grandinhos, em vez de pedir brinquedos, pedem roupas e tênis, porque na cabeça deles e, diga-se de passagem, de muito marmanjo, qualquer coisa que saia daqui, mesmo que feito na China, dá o maior ibope por lá, tiram a maior onda. Ah, além de mandar os tênis e roupas, mando também brinquedos – esses sim fazem diferença.

Se me perguntarem o que foi que eu comi ontem no almoço, não vou me lembrar, mas se me perguntarem sobre a minha infância, tudo aparece na tela da minha cabeça, na mesma hora.
De cinco aos sete ou oito anos, me lembro de tudo, principalmente da época do Natal.
Naquele tempo, as crianças colocavam os sapatos na janela, porque era ali que o velhinho dei-xava os presentes. A excitação era tanta, que eu ficava brigando com o sono, na esperança de ver Papai Noel deixando os presentes. Invariavelmente o sono me dominava e de manhã, vendo os presentes, era só alegria.

Tinha um brinquedo que eu adorava, chamado autogiro, que constava de uma hélice de plástico com um círculo em volta e um cordão que ficava enrolado em um cabo. Quando você puxava o cordão, a hélice saía zunindo e eu corria atrás até ela cair. Hoje, você tem o helicóptero inteiro, comandado por controle remoto, sem sair do lugar. Isso sem falar nas maravilhas que eles sempre inventam a cada ano que passa.

Depois, quando mudamos de um bairro para um subúrbio, tudo melhorou. Passei a ter contato com a terra, os brinquedos passaram a ser feitos por nós mesmos, tínhamos uma criatividade incrível para isso. Os carrinhos rolimãs, precursores dos skates de hoje, já usávamos desde essa época, feitos por nós, com freio e o escambau. Usávamos todos os materiais de oficinas de carros, muitos pneus, latas, madeira, alumínio etc. Mas sem nunca perder de vista aquela magia do Natal.

Me lembro que quando meu avô me deu de presente uma bicicleta: foi como se, hoje, eu ganhasse um BMW zero. Ninguém ganhava um presente como esse naquela época, mas eu deixava os colegas tirar uma casquinha. Cedo você descobre que não existe Papai Noel nenhum, mas a magia continua, alimentada pela mídia e pelo cinema. Os personagens que criaram para ajudar Papai Noel na fábrica e na distribuição de brinquedos, os elfos, me encantam até hoje.

Recordo-me de poucos anos atrás, quando Frank Sinatra estava doente, perguntaram a ele o que queria ganhar de presente de Natal. Ele respondeu que queria passar mais um Natal com a família, e isso não foi possível, pois morreu antes. Papai Noel, ou Santa Claus, como dizem os americanos, ou Sent Clo, como dizem os cubanos, apesar de ser representado de várias formas, até com certo mau-gosto, continua exercendo um grande fascínio entre grandes e pequenos.

Tem um cartão de Natal, muito engraçado, à venda noa Walgreen’s, que mostra o Papai Noel da Flórida, de sunga, na praia, terminando de construir um boneco de areia, igual aos bonecos de neve, muito original e verdadeiro. Penso que o Natal deveria ser comemorado de acordo com o clima e a disponibilidade de cada família. É ridículo comer nozes e avelãs sob um ca-lor de rachar. O importante é estar com a família, coisa que para nós, imigrantes, nem sempre é possível: o trabalho, as dificuldades para conseguir passagens, tudo isso contribui para a felicidade não ser completa. Mas se olharmos pra trás, ainda teremos que agradecer a Deus por vivermos livremente e em paz. Como deve ser o Natal e o Reveillon desse pobre povo iraquiano, morrendo às dezenas, sem saber o porquê, sem ter um minuto de sossego, com as bombas explodindo a qualquer hora do dia ou da noite?

Se me perguntassem o que eu queria ganhar nesse Natal, eu diria que já ganhei antecipadamente. Minha filha querida, que agora vive na Austrália, veio me visitar no mês passado e ficou oito dias comigo. Isso foi o maior presente que eu poderia ganhar nesse Natal.

Essas coisas de pedir paz para o mundo é pura utopia. O que eu poderia pedir para o mundo seria uma trégua de paz pelo menos dia 24 e 25 de dezembro. Peça a Papai Noel, como diz comovida aquela garota no anúncio da Total Help, que nos dê saúde aqui nesse país que nos acolheu, para trabalharmos e continuarmos ajudando nossas famílias, de uma forma ou de outra, ou enviando as centenas de milhões de dólares ou trazendo todos eles para o nosso convívio. Para vocês, de lá e daqui, o melhor Natal do mundo.

 


Pedro PauloPedro Paulo é carioca, flamenguista, músico radicado nos EUA.  pedrão1@netzero.net




 

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