Cuidado com o Pré-Natal
Após “receber” a encomenda do editor deste quinzenário para escrever um
texto sobre o Natal, prefiro começar falando sobre o pré-Natal. Ao ver
uma matéria na TV sobre como se comportar nas indefectíveis festinhas de
fim de ano, me vieram à lembrança algumas de que eu participei, ora como
empregado, ora como músico. E, sempre a mesma coisa, todo mundo querendo
aparecer, todo mundo soltando a franga depois de tomar três ou quatro
doses, gente que parecia ser tímida todo o ano, de repente sai se
“esbaldando” à vontade.
Na hora dessa enjoação que é o amigo oculto, seja discreto, não queime o
filme, se é que você tirou aquela pessoa que você esta a fim. Se tirou
alguém que você odeia, essa não é a melhor hora de se vingar. Esse ano
teve, na festinha dos funcionários da organização para qual eu toco, uma
coisa muito divertida, parecida com o amigo oculto: mandaram todo mundo
pegar em casa alguma coisa que tenha ganho de presente no passado, que
além de cafona não serve pra nada (que no Brasil a gente chama de
presente PA – passe adiante), e embrulhar cuidadosamente no papel de
presente mais bonito e levar pra festa. Daí em diante, dá para imaginar
como foi divertido.
Em poucas festas se celebra o verdadeiro espírito do Natal, a maioria,
depois da metade, acaba em esbórnia. Infelizmente, já não se faz mais
Natal como antigamente. Os papéis se invertem, Papai Noel já não é o
mesmo, as crianças já não são as mesmas. Já vi criança passar a mão na
bunda de Papai Noel e sair correndo. Hoje, ao parar o carro em um sinal
da 79th Street (a da migra), veio uma mendiga e se debruçou na janela
pedindo esmola, e o saco da esmola era um gorro do Papai Noel, todo sujo
e rasgado.
Apesar desse tipo de coisa, o mês de dezembro para mim, e penso que para
muitas outras pessoas, foi e é o mês mais lindo do ano. Parece que rola
uma magia no ar, as pessoas, me parece, ficam mais tolerantes. E a
decoração nas ruas, nas casas, mesmo que não haja uma alma ao redor? O
que dizer das musicas, que os americanos sabem fazer como ninguém?
Gosto de todas, canto umas seis ou sete com muito prazer. Todo mundo
fazendo compras nos shoppings, os fil-mes sobre o Natal que passam na
TV, sentar em um Starbucks da vida e ficar vendo o movimento, tomando um
cappucino... são coisas que ainda me dão grande prazer.
Como me dá muito prazer, e para isso não meço sacrifícios, mando para o
Brasil presentes para a família, principalmente para os dez sobrinhos
que tenho. Não dá pra explicar a alegria que eles sentem quando recebem
os presentes. Só pra tes-tar, eu pergunto o que eles querem, e, os mais
grandinhos, em vez de pedir brinquedos, pedem roupas e tênis, porque na
cabeça deles e, diga-se de passagem, de muito marmanjo, qualquer coisa
que saia daqui, mesmo que feito na China, dá o maior ibope por lá, tiram
a maior onda. Ah, além de mandar os tênis e roupas, mando também
brinquedos – esses sim fazem diferença.
Se me perguntarem o que foi que eu comi ontem no almoço, não vou me
lembrar, mas se me perguntarem sobre a minha infância, tudo aparece na
tela da minha cabeça, na mesma hora.
De cinco aos sete ou oito anos, me lembro de tudo, principalmente da
época do Natal.
Naquele tempo, as crianças colocavam os sapatos na janela, porque era
ali que o velhinho dei-xava os presentes. A excitação era tanta, que eu
ficava brigando com o sono, na esperança de ver Papai Noel deixando os
presentes. Invariavelmente o sono me dominava e de manhã, vendo os
presentes, era só alegria.
Tinha um brinquedo que eu adorava, chamado autogiro, que constava de uma
hélice de plástico com um círculo em volta e um cordão que ficava
enrolado em um cabo. Quando você puxava o cordão, a hélice saía zunindo
e eu corria atrás até ela cair. Hoje, você tem o helicóptero inteiro,
comandado por controle remoto, sem sair do lugar. Isso sem falar nas
maravilhas que eles sempre inventam a cada ano que passa.
Depois, quando mudamos de um bairro para um subúrbio, tudo melhorou.
Passei a ter contato com a terra, os brinquedos passaram a ser feitos
por nós mesmos, tínhamos uma criatividade incrível para isso. Os
carrinhos rolimãs, precursores dos skates de hoje, já usávamos desde
essa época, feitos por nós, com freio e o escambau. Usávamos todos os
materiais de oficinas de carros, muitos pneus, latas, madeira, alumínio
etc. Mas sem nunca perder de vista aquela magia do Natal.
Me lembro que quando meu avô me deu de presente uma bicicleta: foi como
se, hoje, eu ganhasse um BMW zero. Ninguém ganhava um presente como esse
naquela época, mas eu deixava os colegas tirar uma casquinha. Cedo você
descobre que não existe Papai Noel nenhum, mas a magia continua,
alimentada pela mídia e pelo cinema. Os personagens que criaram para
ajudar Papai Noel na fábrica e na distribuição de brinquedos, os elfos,
me encantam até hoje.
Recordo-me de poucos anos atrás, quando Frank Sinatra estava doente,
perguntaram a ele o que queria ganhar de presente de Natal. Ele
respondeu que queria passar mais um Natal com a família, e isso não foi
possível, pois morreu antes. Papai Noel, ou Santa Claus, como dizem os
americanos, ou Sent Clo, como dizem os cubanos, apesar de ser
representado de várias formas, até com certo mau-gosto, continua
exercendo um grande fascínio entre grandes e pequenos.
Tem um cartão de Natal, muito engraçado, à venda noa Walgreen’s, que
mostra o Papai Noel da Flórida, de sunga, na praia, terminando de
construir um boneco de areia, igual aos bonecos de neve, muito original
e verdadeiro. Penso que o Natal deveria ser comemorado de acordo com o
clima e a disponibilidade de cada família. É ridículo comer nozes e
avelãs sob um ca-lor de rachar. O importante é estar com a família,
coisa que para nós, imigrantes, nem sempre é possível: o trabalho, as
dificuldades para conseguir passagens, tudo isso contribui para a
felicidade não ser completa. Mas se olharmos pra trás, ainda teremos que
agradecer a Deus por vivermos livremente e em paz. Como deve ser o Natal
e o Reveillon desse pobre povo iraquiano, morrendo às dezenas, sem saber
o porquê, sem ter um minuto de sossego, com as bombas explodindo a
qualquer hora do dia ou da noite?
Se me perguntassem o que eu queria ganhar nesse Natal, eu diria que já
ganhei antecipadamente. Minha filha querida, que agora vive na Austrália,
veio me visitar no mês passado e ficou oito dias comigo. Isso foi o
maior presente que eu poderia ganhar nesse Natal.
Essas coisas de pedir paz para o mundo é pura utopia. O que eu poderia
pedir para o mundo seria uma trégua de paz pelo menos dia 24 e 25 de
dezembro. Peça a Papai Noel, como diz comovida aquela garota no anúncio
da Total Help, que nos dê saúde aqui nesse país que nos acolheu, para
trabalharmos e continuarmos ajudando nossas famílias, de uma forma ou de
outra, ou enviando as centenas de milhões de dólares ou trazendo todos
eles para o nosso convívio. Para vocês, de lá e daqui, o melhor Natal do
mundo.

Pedro
Paulo é carioca, flamenguista, músico radicado nos EUA.
pedrão1@netzero.net