Acontecendo
Roda a cadeira ao relento movendo-se vazia. Sobre seu forro, um deserto
empoeirado preenche os póros do vácuo. Ares artificiais planam em curtos
sôpros, rebatem às paredes, soltam seu reboque e desgrudam as dobras das
páginas informativas.
Unidas, frases perfeccionistas diagramam-se dislexas. Grunhem ruídos
silenciosos invocados por quem as lia. Ali, a história era descrita em
majestosos detalhes. Ali, quem a contava tornou-se, por escolha, magistral.
A quem soubesse pouco ou quase nada, era um antro do conhecimento. A quem
soubesse muito ou quase tudo, era um centro de correções.
Silêncio, luzes, câmeras e ações conjeturadas e analisadas pelos maestros
condutores d’uma sinfonia peculiar. Interessante aos vigilantes da verdade,
aos cínicos e aos desinteressados da nação. Interessante aos reis de suas
altas torres e largas panças, e aos plebeus de baixo bisbilhotando pela
passagem secreta à nobre escalada.
Sobre o peso que suportava folhas serelepes, a impressão digital
impressionava quem conhecia seu dono. Fazia-se abraço e carinho às notas,
aos dados, à matemática impossível contida nas folhas. Marcadas, todas elas
em voz única diziam adeus.
Era-se a era que cimentou a estrada futurística fundada nas tradições e nas
boas morais jornalísticas, mesmo as mais arcaicas, como conchas marítmas em
asfalto moderno. Desse escritório, onde palavras soltas acertavam seus alvos,
eleva-se ao resto d’um pedaço do mundo a memória de alguém que, um dia,
derrubou imperadores e riu de suas leis.
Rodopia desse vazio espaço, obviamente já repleto de substitutos ainda
confusos, ainda chocados, o furacão ultra natural da vivacidade, astúcia e
honestidade. O coração parado, chorado e enterrado, ainda bate às esquinas,
entusiasmado: “Toque-toque-toque.”
Tempestades jorram seguidas de arcos-da-velha, um sobre o outro, não um, mas
dois. Sete cores, quatorze, capturadas pelas armadilhas estrategicamente
instaladas no fundo dos olhos do luto. Todos que vinham, tiravam seus
chapéus por respeito próprio. Ninguém queria parecer ridículo disputando a
altura da brisa a vagar embora.
Tórridas lágrimas vencidas pelos corajosos sorrisos. O mérito, todo dele. Um
herói nacional, guerreiro pela verdade, personagem favorito de algumas
gerações.
Imerso seu corpo, sua mente não segue o mesmo caminho e se expande
sorrateira e vigária à pele de quem religiosamente o assistia. O milênio
ainda acompanha seus curtos anos. A polêmica não só não morre, como continua
sempre a mesma, inquieta, imprecisa, pedindo novo domador. Os discípulos
entendem a responsabilidade e o chamado. “Agora é conosco,” pensam.
Mas o que o mito mais amava eram as perguntas e seus mais profundos
significados.
“Quem?” “Como?” “Quando?” “Por quê?” “Onde?” “E então?” “Não sabe?”
E, não poderia deixar de mencionar sua favorita e última frase:
“O que está acontecendo?”
(Em homenagem a Tim Russert.)
Roy Frenkiel, taurino filho de taurino, intenso por
natureza. Nasceu em Israel em 1980, cresceu nos bairros de Higienópolis e
Bom Retiro, em São Paulo. Freqüentou colégios judaicos e em 1996 se mudou
para os EUA. Ciudadano del Mundo, cosmopolita, judeu errante, sendo que é
cidadão de três países.
relimelech@hotmail.com