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Ano 9 - Edição 251

Crônicas

Por Roy Frenkiel                                          

Tristeza

“Se foi porque ela se foi,
Ou se foi por meu pesar,
Minha pena é a mesma
Não se cansa de penar...”



Valério estava triste, mas não sabia porque estava triste. Entristecia, e não entendia porque escorriam de seus olhos tantas lágrimas puras, genuínas, gemas puras de sua pena profunda. Uma pena, sentia, que não era de si, nem de outra pessoa. Se dissesse que doía pela humanidade, apesar do exagero, faria mais sentido, mas ainda não era aquilo, não era essa a dor que lhe carcomia as entranhas. Desgraçada. Pegara Valério desde o despertar, e agora, enquanto a lua soterrava o mar de pedras, não conseguia dormir pensando nela.

Pandora, a cadela, lambia sua mão desabrochada sobre o braço da poltrona solitária. À televisão, o mesmo moço vestido do mesmo paletó da mesma cor, decretava palavras confusas, esquecíveis, desmanchadas pelos ares ao lado de partículas da tosse de Valério. Uma tosse crônica que o mantinha reconhecido a distâncias desde que cumprira vinte anos de idade. Presente de aniversário.

Mas Valério não estava acostumado a pensar em tragédias, no azar ou em suas desventuras. Era até um sujeito otimista, se me perguntarem. Votava e não sabia por quê. Comprava e não calculava por quê. Agora procurava alguma verdade? Ao bem da verdade ou ao mal da mentira – pensem nesse dito, bem da verdade – mesmo tendo já entristecido, aquele momento continha uma miséria especial, algo jamais antes experimentado. Não era luto. Não sentia falta de ninguém. Não era saudade. Não era raiva, ódio ou misericórdia. Não era amor, certamente não seria amor. Era o quê, então?

Pandora, a cadela, roía o osso de peru abocanhado do lixo destampado. Vomitaria, certamente, mas seu dono não estava tão presente quanto seu corpo. Esquecera o latão de lixo assim, destampado. Enquanto a bicha pulava, Valério pensava em outras coisas. Seus pensamentos eram longínquos. O refúgio de seu país fora o refúgio de sua cerne. Fora uma fuga aventurosa, entusiasmada, repleta de oportunidades descomunais, mas as consequências mais fortes agregaram-se a seu sangue contaminado dos ares estrangeiros, quando do corte de suas raízes. Pensava nos ditadores, e no que eles e elas ditaram.

Mas Valério não estava acostumado a pensar em ditadores, muito menos em palavras ditadas. Mal prestava a menor atenção – mas toda sua desconfiança era prestável – no que regorjitava o moço tagarela projetado à tela da TV. Aliás, não sabia exatamente por que fugira de seu país, por que procurara tantas oportunidades, por que deixara para trás as suas raízes. Quando procurava motivos, encontrava justificativas, mas não era aquilo o que o afetava, não era culpa patriótica, ou nostalgia de suas raízes. Não era juízo nem vaidade, nem ganância nem aversão.

O que era então? A tristeza que o consumia, que reinava em sua vida repentinamente, como se ali sempre estivesse espreitando, esperando a mordida certa, o momento certo para desandar. Ora, uma tristeza tão cristalina, tão imaculada, que sua pele se enrugava e sua vista envelhecia a cada ínfima batida de seu coração estufado. Lembranças, sem saudades. Desejos, sem vontades. Não era ausência de felicidade. Não era presença de patrimônio. Não era a injustiça, ou a burguesia. Não eram os pobres, não eram os justos nem os criminosos. Não era ninguém, Valério entendia. Aquilo não era ninguém.

A lua aquecia a noite mais do que o esplendor do sol tremendo de suas terras anfitriãs. Abafava aquela noite. Estrelas desapareciam, Pandora adormecia, e a mão de Valério repousava sobre a aba da orelha de sua cadela. Pesados, os olhos úmidos mergulhavam entre si. O sal secava infiltrado nas bochechas de quem o produzira. Os músculos relaxavam. “A manhã pode ser outra...” Dizia Valério. “A manhã pode ser outra.”


Roy FrenkielRoy Frenkiel, taurino filho de taurino, intenso por natureza. Nasceu em Israel em 1980, cresceu nos bairros de Higienópolis e Bom Retiro, em São Paulo. Freqüentou colégios judaicos e em 1996 se mudou para os EUA. Ciudadano del Mundo, cosmopolita, judeu errante, sendo que é cidadão de três países. relimelech@hotmail.com


 

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