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Ano 8 - Edição 198

Crônicas

Por Roy Frenkiel                                          

Acontecendo

Roda a cadeira ao relento movendo-se vazia. Sobre seu forro, um deserto empoeirado preenche os póros do vácuo. Ares artificiais planam em curtos sôpros, rebatem às paredes, soltam seu reboque e desgrudam as dobras das páginas informativas.

Unidas, frases perfeccionistas diagramam-se dislexas. Grunhem ruídos silenciosos invocados por quem as lia. Ali, a história era descrita em majestosos detalhes. Ali, quem a contava tornou-se, por escolha, magistral. A quem soubesse pouco ou quase nada, era um antro do conhecimento. A quem soubesse muito ou quase tudo, era um centro de correções.

Silêncio, luzes, câmeras e ações conjeturadas e analisadas pelos maestros condutores d’uma sinfonia peculiar. Interessante aos vigilantes da verdade, aos cínicos e aos desinteressados da nação. Interessante aos reis de suas altas torres e largas panças, e aos plebeus de baixo bisbilhotando pela passagem secreta à nobre escalada.

Sobre o peso que suportava folhas serelepes, a impressão digital impressionava quem conhecia seu dono. Fazia-se abraço e carinho às notas, aos dados, à matemática impossível contida nas folhas. Marcadas, todas elas em voz única diziam adeus.

Era-se a era que cimentou a estrada futurística fundada nas tradições e nas boas morais jornalísticas, mesmo as mais arcaicas, como conchas marítmas em asfalto moderno. Desse escritório, onde palavras soltas acertavam seus alvos, eleva-se ao resto d’um pedaço do mundo a memória de alguém que, um dia, derrubou imperadores e riu de suas leis.

Rodopia desse vazio espaço, obviamente já repleto de substitutos ainda confusos, ainda chocados, o furacão ultra natural da vivacidade, astúcia e honestidade. O coração parado, chorado e enterrado, ainda bate às esquinas, entusiasmado: “Toque-toque-toque.”

Tempestades jorram seguidas de arcos-da-velha, um sobre o outro, não um, mas dois. Sete cores, quatorze, capturadas pelas armadilhas estrategicamente instaladas no fundo dos olhos do luto. Todos que vinham, tiravam seus chapéus por respeito próprio. Ninguém queria parecer ridículo disputando a altura da brisa a vagar embora.

Tórridas lágrimas vencidas pelos corajosos sorrisos. O mérito, todo dele. Um herói nacional, guerreiro pela verdade, personagem favorito de algumas gerações.

Imerso seu corpo, sua mente não segue o mesmo caminho e se expande sorrateira e vigária à pele de quem religiosamente o assistia. O milênio ainda acompanha seus curtos anos. A polêmica não só não morre, como continua sempre a mesma, inquieta, imprecisa, pedindo novo domador. Os discípulos entendem a responsabilidade e o chamado. “Agora é conosco,” pensam.

Mas o que o mito mais amava eram as perguntas e seus mais profundos significados.
“Quem?” “Como?” “Quando?” “Por quê?” “Onde?” “E então?” “Não sabe?”

E, não poderia deixar de mencionar sua favorita e última frase:
“O que está acontecendo?” 

(Em homenagem a Tim Russert.)
 


Roy FrenkielRoy Frenkiel, taurino filho de taurino, intenso por natureza. Nasceu em Israel em 1980, cresceu nos bairros de Higienópolis e Bom Retiro, em São Paulo. Freqüentou colégios judaicos e em 1996 se mudou para os EUA. Ciudadano del Mundo, cosmopolita, judeu errante, sendo que é cidadão de três países. relimelech@hotmail.com


 

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