Febre do vento
À febre do vento espalhados agouros
Os gritos restritos se esganam
Enganando a garganta lacrada,
Os olhos enxarcados de silêncio
Em pele enrugada de amargura,
À febre do vento espalhada a lástima
O ventre embriagado em nova vida
O betume amando as solas
O véu expondo expressões
A dor que, de sempre,
Mais intensa do que nunca, dói,
“O Haiti é aqui”, diz o corpo
Em relevos relevado
Braços estendidos, abraçando montanhas,
Tocando o celeste que o barro
Incapaz de mostrar afeto,
Esboça em horrores e penúrias,
À febre do vento espalhada a humanidade
Dos que morreram como animais
Dos que viviam como animais
Mortais no imaginário convencional,
Imortais ao sangue de seu sangue,
Que escorre, viscoso, pelas frestras do solo indomável,
À febre do vento o relâmpago se espalha
Pulsos recortados em súmulas,
Em papéis escritos aos noticiários internacionais,
Em mortuários embalsamados, fossem vivos,
De outrem, de ninguém,
De todos nós,
À febre do vento, a piada marcada
Sem risos,
Sem dentes
Sem molas,
Sem gargalo, o gole, a goela transbordada,
Ali, a morte, a vida, o temporal atemporal,
Espalham-se por todo o planeta
Repetindo-se aos versos
Enlutados,
À febre de nossos tempos.
Roy Frenkiel, taurino filho de taurino, intenso por
natureza. Nasceu em Israel em 1980, cresceu nos bairros de Higienópolis e
Bom Retiro, em São Paulo. Freqüentou colégios judaicos e em 1996 se mudou
para os EUA. Ciudadano del Mundo, cosmopolita, judeu errante, sendo que é
cidadão de três países.
relimelech@hotmail.com