Na segunda parte da série sobre o Facebook, nos concentraremos em sua
transformação e migração dos blogs às redes sociais. Para a análise, usamos
de duas séries de Halém Souza em seu Sinistras Bibliotecas. O amante e
esperto em literatura, em duas séries (Procura-se* e Blog: Uma Chatice?**)
invoca algumas considerações importantes e pertinentes ao nosso texto sobre
as redes sociais eletrônicas.
Souza levanta a questão do obsoletismo dos blogs, já que, conforme cita,
“estes sites pessoais simplificados, diários virtuais, páginas de opinião
(ou qualquer outra definição que queiram dar) estão perdendo terreno para
novas formas de comunicação via computador, tornando-se cada vez mais
impopulares.”
Na sequência, o bloguista recorre a algumas críticas e análises da rede
virtual e de seus acessos sociais contemporâneos, como os ditos de Juca
Kfouri (“”Nada me surpreendeu tanto na minha vida de mais de 40 anos na
profissão do que o tal de blog. Mais: se eu soubesse, não teria feito um”) e
Antonio Prata (de seu texto Quem Precisa de Opinião).
Souza menciona a preocupação de Prata sobre o “niilismo de salão”
decorrente da pronta e ágil acessibilidade a espaços sociais opinativos e de
opiniões alheias, cada vez menos pensadas, portanto, cada vez mais rápidas e
de credibilidade mais tênue. Desse texto de Souza, podemos concluir, em
parte, que o formato do blog, mais arrojado, de maior espaço para aprofundar
ideias e opiniões, e que em seu tempo de origem foi mal usado pela
juventude, que agora encontra melhores ferramentas sociais para formatar
seus “diários” e “páginas de interesses”, está tornando-se uma chatice para
essa geração de jovens imediatistas e “niilistas”.
Em outras palavras, os “twits” (e assim o método de hiper-atualização do
Facebook) são mais fáceis para grunhir besteiras do que uma página em branco
de tamanho ilimitado.
Continuando, Souza fala sobre o filósofo Pierre Levy e sua afirmação a
respeito da blogoesfera: “a ‘emergência do ciberespaço, de fato,
provavelmente terá – ou já tem hoje – um efeito tão radical sobre a
pragmática das comunicações quanto teve, em seu tempo, a invenção da
escrita’”. Somada a essa frase, Souza também copila a seguinte afirmação,
ditando que o mundo virtual “atinge de fato uma forma de universal, mas não
é o mesmo da escrita estática. Aqui, o universal não se articula mais sobre
o fechamento semântico exigido pela descontextualização, muito pelo
contrário. Esse universal não totaliza mais pelo sentido, ele conecta pelo
contato, pela interação geral.”
O bloguista, enfim, diz-se preocupado com esse estilo de comunicação e
busca de sabedorias populares, de normas cognitivas comuns, de opiniões
diferenciadas, mas independentemente de suas conclusões, o que parece mais
importante é que esse estilo de comunicação está em expansão e, como Souza
mesmo diz em resposta a este que vos escreve, ainda não chegou à sua
totalidade.
Conforme diz Jon Sobel***, mencionado por Souza, os objetivos de se
manter um blog, “para alguns, são as mesmas razões de quando eles começaram:
comunicação, ficar em contato com conhecidos ou manter um arquivo pessoal.
Para outros é ambição: eles enxergam o blog como um caminho para as coisas
maiores. Também tem gente que tem paixão pelo que faz, um interesse
continuado e até uma obsessão pelo assunto do qual trata”, lembrando que “as
pessoas são preguiçosas e [ao mesmo tempo] ambiciosas demais. É possível que
elas estejam mais realistas sobre as chances de permanecer em um projeto
como um blog”.
O Facebook tornou-se, ao lado do Twitter (ambos com características
diferenciadas na era da hiper-atualização, ou hipercomunicação entre tudo e
todos), em um espaço aos despreparados e preparados igualmente. No contexto
atualmente vivido pela maioria de meus conhecidos e eu, essa ferramenta
social serve como vitrine de artigos, artes (incluindo vídeos e música), e
textos da blogoesfera refletidos por pessoas que, por algum ou outro motivo,
estão ligadas ao dado perfil.
Mesmo que nem todos possam providenciar algo que justifique o encontro
com a “sua tribo” (referência à outra série de Souza, sobre a tribo dos
leitores e, nesse caso, de bloguistas), vocês, leitores e usuários das redes
sociais, adquirem ao longo da vida o senso para discernir o que mais lhes
vale. Se Souza procura “sabedoria”, tanto quanto eu ou você, precisa saber
discernir qual sabedoria quer ler, e usa seus métodos, adquiridos ao longo
de sua vida, para chegar a esse objetivo.
Portanto, talvez o desconforto de Souza (“Infelizmente, porém, minha
trajetória na educação formal, minha formação profissional e minha
construção como leitor [para além de “consumidor” de informação] foram
baseadas no “fechamento semântico”, na busca pela “totalidade” [uma parte da
aspiração, explícita ou implícita, das obras literárias - como, aliás, de
todas as obras de arte - é estabelecer ou simular uma totalidade, ainda que
provisória]”) já está resolvido no fechamento não semântico, que inclui, em
sua falta de rigorosidade, a possibilidade da rigorosidade em si.
O fato de que exista a necessidade de discernir entre opiniões, no nosso
contexto, não significa que o acesso a mais opiniões, mesmo as mais
niilistas, não seja bem vindo com todos seus defeitos. Os defeitos da falta
de acesso parecem muito mais graves, conforme veremos no próximo texto,
sobre as redes sociais e a política internacional.