Tristeza
“Se foi porque ela se foi,
Ou se foi por meu pesar,
Minha pena é a mesma
Não se cansa de penar...”
Valério estava triste, mas não sabia porque estava triste. Entristecia, e
não entendia porque escorriam de seus olhos tantas lágrimas puras, genuínas,
gemas puras de sua pena profunda. Uma pena, sentia, que não era de si, nem
de outra pessoa. Se dissesse que doía pela humanidade, apesar do exagero,
faria mais sentido, mas ainda não era aquilo, não era essa a dor que lhe
carcomia as entranhas. Desgraçada. Pegara Valério desde o despertar, e
agora, enquanto a lua soterrava o mar de pedras, não conseguia dormir
pensando nela.
Pandora, a cadela, lambia sua mão desabrochada sobre o braço
da poltrona solitária. À televisão, o mesmo moço vestido do mesmo paletó da
mesma cor, decretava palavras confusas, esquecíveis, desmanchadas pelos ares
ao lado de partículas da tosse de Valério. Uma tosse crônica que o mantinha
reconhecido a distâncias desde que cumprira vinte anos de idade. Presente de
aniversário.
Mas Valério não estava acostumado a pensar em tragédias, no
azar ou em suas desventuras. Era até um sujeito otimista, se me perguntarem.
Votava e não sabia por quê. Comprava e não calculava por quê. Agora
procurava alguma verdade? Ao bem da verdade ou ao mal da mentira – pensem
nesse dito, bem da verdade – mesmo tendo já entristecido, aquele momento
continha uma miséria especial, algo jamais antes experimentado. Não era luto.
Não sentia falta de ninguém. Não era saudade. Não era raiva, ódio ou
misericórdia. Não era amor, certamente não seria amor. Era o quê, então?
Pandora, a cadela, roía o osso de peru abocanhado do lixo
destampado. Vomitaria, certamente, mas seu dono não estava tão presente
quanto seu corpo. Esquecera o latão de lixo assim, destampado. Enquanto a
bicha pulava, Valério pensava em outras coisas. Seus pensamentos eram
longínquos. O refúgio de seu país fora o refúgio de sua cerne. Fora uma fuga
aventurosa, entusiasmada, repleta de oportunidades descomunais, mas as
consequências mais fortes agregaram-se a seu sangue contaminado dos ares
estrangeiros, quando do corte de suas raízes. Pensava nos ditadores, e no
que eles e elas ditaram.
Mas Valério não estava acostumado a pensar em ditadores,
muito menos em palavras ditadas. Mal prestava a menor atenção – mas toda sua
desconfiança era prestável – no que regorjitava o moço tagarela projetado à
tela da TV. Aliás, não sabia exatamente por que fugira de seu país, por que
procurara tantas oportunidades, por que deixara para trás as suas raízes.
Quando procurava motivos, encontrava justificativas, mas não era aquilo o
que o afetava, não era culpa patriótica, ou nostalgia de suas raízes. Não
era juízo nem vaidade, nem ganância nem aversão.
O que era então? A tristeza que o consumia, que reinava em
sua vida repentinamente, como se ali sempre estivesse espreitando, esperando
a mordida certa, o momento certo para desandar. Ora, uma tristeza tão
cristalina, tão imaculada, que sua pele se enrugava e sua vista envelhecia a
cada ínfima batida de seu coração estufado. Lembranças, sem saudades.
Desejos, sem vontades. Não era ausência de felicidade. Não era presença de
patrimônio. Não era a injustiça, ou a burguesia. Não eram os pobres, não
eram os justos nem os criminosos. Não era ninguém, Valério entendia. Aquilo
não era ninguém.
A lua aquecia a noite mais do que o esplendor do sol
tremendo de suas terras anfitriãs. Abafava aquela noite. Estrelas
desapareciam, Pandora adormecia, e a mão de Valério repousava sobre a aba da
orelha de sua cadela. Pesados, os olhos úmidos mergulhavam entre si. O sal
secava infiltrado nas bochechas de quem o produzira. Os músculos relaxavam.
“A manhã pode ser outra...” Dizia Valério. “A manhã pode ser outra.”
Roy Frenkiel, taurino filho de taurino, intenso por
natureza. Nasceu em Israel em 1980, cresceu nos bairros de Higienópolis e
Bom Retiro, em São Paulo. Freqüentou colégios judaicos e em 1996 se mudou
para os EUA. Ciudadano del Mundo, cosmopolita, judeu errante, sendo que é
cidadão de três países.
relimelech@hotmail.com