O 14º Festival de Cinema Brasileiro em Miami nos presenteou
novamente com uma estrela explodindo no Sul da Flórida, Maria Gadú, que
trouxe consigo o frescor de suas novas canções e a interpretação singular de
velhos sucessos. Entre esses se sobressaltaram “A História de Lily Braun” de
Chico Buarque e Edu Lobo, e “Ne Me Quittes Pas”, interpretada por Jacques
Brel pela primeira vez em 1959. Ainda somou sucessos modernos de modo
magistral ao repertório eclético, incluindo “Who Knew” , de Pink, e “Fast as
You can” de Fiona Apple, apesar de que a interpretação de Gadú não só não
deve nada à versão original como contribui.
Seu tipo moleca aos 23 anos lembra Cássia Eller em seus primeiros momentos,
apesar do estilo diferente sem perder a versatilidade e a qualidade sonoras.
Uma voz elástica, flexível, grave e ao mesmo tempo feminina e sedutora
atravessa a plateia partindo de uma artista modesta e copiosamente grata em
palco. O espetáculo para imigrantes que às vezes mal estão a par das
novidades artísticas no país de origem encantou e conquistou mesmo quem não
sabia cantar os maiores sucessos. Fosse com “Shimbalaiê”, composto pela
cantora nascida em São Paulo ainda em infância ao regozijar um por do sol,
“Altar Particular”, “Tudo Diferente” ou “Linda Rosa”, esta geralmente ao
lado de Leandro Léo, que por motivos pessoais faltou ao compromisso, Gadu
hipnotizou uma plateia que praticamente preencheu os poros do Lincoln
Theater.
Mayra Aygadoux – nome de nascença – despertou cedo o
interesse dos grandes cantores da MPB e de um dos “descendentes” de Maysa, o
cineasta, diretor e produtor Jayme Monjardim Matarazzo, e não à toa. Sua
versão de “Ne Me Quittes Pas” também interpretada pela diva dos anos 50
encantou Monjardim, o que rendeu uma ponta na minissérie “Maysa” à
intérprete, bem como a inclusão de sua versão na trilha sonora da obra. Na
noite de Sábado 21, a alguns meses de seu vigésimo-quarto aniversário, Gadú
surrupiou o coração brasileiro-floridiano assim como faria uma verdadeira
diva em formação.
Antes disso, com o percussionista e amigo Doga, conquistou a
Europa, em 2007, logo o Brasil e agora a América. Faz parte, curiosamente,
do caminho inverso de muitos artistas brasileiros que se consolidam de
dentro para fora do Brasil e vice-versa em um mundo cada vez mais
globalizado e interdependente. Assim Gadú percorreu sua trilha e se deparou
conosco. Espero que “todos os caminhos” a tragam de volta.
É importante reconhecer esse privilégio que ganhamos através de organizações
como a Inffinito Foundation e graças à produção incansável do evento
cinematográfico brasileiro em seu décimo-quarto ano. Para tanto, agradecemos
o trabalho de Viviane B. Spinelli, Cláudia Dutra e Adriana L. Dutra pela
décima-quarta vez.
Em festivais passados e ao redor do mundo artistas como Gadú, Lenine, Seu
Jorge e muitos outros são chamados pela produção para trazer a arte, o gosto,
o cheiro e a visão brasileiros à comunidade em Miami, New York, Vancouver,
Roma, Buenos Aires, Montevideo, Madrid, Barcelona e Londres. O décimo-quarto
não foi diferente, e ainda bem.