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Ano 10 - Edição 287

Opinião

Cuidado com os estereótipos

Por Antonio Tozzi *

Recentemente, recebi um e-mail com um texto atribuído a Nizan Guanaes, intitulado “Baianidade”, no qual ele exalta a força de trabalho e a luta dos baianos em contraposição ao famoso estereótipo de que o baiano é um povo folgado e não gosta de trabalhar. No texto, o publicitário demonstra que os baianos são injustiçados porque eles são dedicados e, sim, muito trabalhadores.
Em termos de Brasil, muita gente também aponta os cariocas como folgados, a exemplo dos baianos. E regionalmente, os pernambucanos e paulistas são os contrapontos aos baianos e cariocas, como povos diligentes e trabalhadores. Na verdade, tudo isto não passa mesmo de estereótipo, que, a meu ver, é o primeiro patamar de algo maior: o preconceito.

E o preconceito se manifesta de várias maneiras e indistintamente contra todos os povos, raças e etnias. Vivendo aqui nos Estados Unidos, é comum ouvir de brasileiros e hispânicos que o americano é um povo frio e pouco comunicativo. O detalhe é que, na maioria das vezes, os comentários são feitos por estrangeiros que não falam inglês, portanto, fica muito difícil fazer um juízo de valor sobre comunicação, uma vez que eles não conseguem comunicar-se com os nativos.

O oposto também se verifica. Diversos americanos julgam os estrangeiros, sobretudo os hispânicos, pela aparência e concluem tratar-se de pessoas preguiçosas e, para os mais radicais, até mesmo seres inferiores, em razão de sua descendência. Nos dois casos, brotam os estereótipos que servem como fermento do preconceito.

Exemplos não faltam: brasileiros taxam portugueses de burros; italianos de porcos; judeus de sovinas; negros de vagabundos; argentinos de arrogantes; alemães de frios e insensíveis, e por aí vai. Todos querem julgar e não admitem ser julgados. A colega de site, Leila Cordeiro, abordou em uma de suas colunas o preconceito que muita gente – estrangeiros e até mesmo brasileiros - tem contra as mulheres brasileiras, que recebem a alcunha de prostitutas sem uma base científica. O julgamento é feito apenas por puro preconceito.

Evidentemente, ninguém pode desconsiderar o meio ambiente no qual vivem determinados grupos sociais, que colaboram para moldar certas catacterísticas coletivas. Entretanto, ninguém também pode desprezar a individualidade, exatamente o que faz a diferença no ser humano. Ora, se as pessoas aprendessem a controlar os desejos de colocar rótulos nos outros, haveria menos estereótipos sobre povos e, por conseguinte, menos possibilidades de se germinar o ódio e o preconceito.

A intolerância e o preconceito, aliás, são correias de transmissão de conflitos, brigas e guerras. E elas podem manifestar-se de várias maneiras: por aparência estética (as pessoas bonitas sempre têm mais vantagens do que as feias), por classe social (os ricos predominam sobre os pobres), por reconhecimento (os famosos são melhores tratados do que os anônimos) e até mesmo por posição ideológica – conservadores e progressistas não se toleram.

Só mesmo rezando para ver se a humanidade pode chegar a um consenso e diminuir o estereótipo e o preconceito para que o mundo possa viver melhor. Mas, aqui surge outro problema: rezar para o Deus dos cristãos? Para o Alá dos muçulmanos? Para o Jeová dos judeus? Para o Brahma dos hindus? Para o Buda dos budistas? Para Oxum dos umbandistas? Pensando bem, se não há consenso nem mesmo na religião como podemos esperar que haja entre os homens que as seguem?




* Originalmente publicado no site diretodaredacao.com


 


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