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Ano 10 - Edição 286

Editorial

O caminho do limbo

Ogoverno americano continua sua cruzada anti-imigrante, com a promessa de elaborar uma lei que aplicaria pesadas multas e sanções para empresas que contratem imigrantes indocumentados. De acordo com este novo projeto de lei, ainda em discussão, as empresas seriam obrigadas a conferir o status legal do pretendente ao cargo oferecido para escapar às ameaças. Na Califórnia, algumas empresas estão se aproveitando da onda anti-imigrante e entrando na Justiça contra concorrentes que empregam indocumentados. Tudo muito correto, não fosse o fato de não ter sido dado nem mais um passo na direção de uma solução para os cerca de onze milhões de trabalhadores, aprisionados no limbo da cidadania desde a aprovação, em abril passado, do famigerado projeto de lei do Senado, que abriria caminho para uma legalização em massa. A bola está com a Câmara de Deputados, que cozinha as discussões para depois das eleições parlamentares deste ano. A Casa evita, assim, mexer em assunto polêmico, e resguarda-se do julgamento tanto dos eleitores que apóiam uma legalização quanto dos que se opõem à solução do problema através da legalização. No meio de tudo isso, uma situação dramática para quem vê de repente apertar-se cada vez mais o cerco à liberdade de buscar uma vida melhor, numa terra que tradicionalmente é acolhedora para imigrantes.

Sem carteira de motorista, social security, e com o mercado de trabalho cada vez mais restrito, restará ao imigrante brasileiro em apuros a volta ao Brasil, opção que muitos consideram e que alguns já puseram em prática, nem sempre depois de alcançados seus objetivos. O resultado desse êxodo ao contrário, agregado ao fato de que cada vez menos imigrantes conseguem entrar no país ilegalmente, é que a economia americana já sente a falta de trabalhadores para as ocupações já tradicionalmente realizadas por força de trabalho imigrante. Mas nem mesmo essa pressão econômica está sendo suficiente para colocar o assunto de novo na pauta de discussões do Congresso.

Na comunidade brasileira, contractors se queixam que não conseguem encontrar mais mão de obra tão facilmente, e que por conta do aperto na concessão de documentos eles são obrigados a dar completa assistência ao empregado, desde transporte até soluções de pagamento, o que acaba encarecendo o custo das obras. Em todas as áreas se reflete uma carência de mão de obra especializada, e por conta disso os negócios podem não ir tão bem.

Voltar ao país de origem, entretanto, pode não ser uma opção muito viável para muita gente. Os anos de tolerância pré-11 de Setembro trouxeram um certo relaxamento para boa parte dos imigrantes no que concerne a legalização. Tudo era mais fácil, e as oportunidades para legalizar-se apareciam periodicamente em cada governo que passava, fosse democrata ou republicano. Há gente, assim, que está nos EUA há vinte anos ilegalmente, totalmente enraizada com a vida os EUA, com pouco ou nenhum vínculo com o Brasil, e esses são casos em que uma volta ao Brasil seria traumática e inviável. Mais dramáticos, em especial, são os casos de filhos de imigrantes indocumentados que chegaram aos EUA ainda no colo dos pais, e que foram criados como americanos, inclusive tendo o inglês como primeira língua. Quando alcançam a maioridade, essas crianças não podem tirar carteiras de motorista, seguro social e nem podem freqüentar uma Universidade, por falta de documentos. Essa situação é propícia a criar sérios problemas psicológicos, porque muitos desses adolescentes não compreenderão porque são discriminados e não podem ser cidadãos comuns, como seus amigos e vizinhos.

Cada minuto que passa é crucial para a solução do problema imigratório nos Estados Unidos. A vida de milhões de famílias está em jogo, e a solução de seu problema se resume na boa vontade dos que fazem as leis neste país. Os Estados Unidos construíram sua hegemonia planetária através do braço de trabalhadores imigrantes, que durante séculos aportaram aqui e encontraram sua casa na América. Esses mesmos trabalhadores agora são rejeitados e execrados como sub-cidadãos, condenados a permanecer num limbo de legalidade, entre dois mundos aos quais não podem mais pertencer. Há que se dar uma solução.

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