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Ano 5 - Edição 99
de 12/janeiro a 26/janeiro
Deerfield Beach, FL USA
Cotações e Bolsas.

A dor de uma perda: Dannyel Passeto

Dirigir embriagado é a receita para tragédias. A irresponsabilidade de um motorista deixou duas famílias devastadas e interrompeu a vida de dois jovens: um está morto e outro, preso.

“Se beber, não dirija. Se estiver dirigindo, não beba.” Estas duas frases martelam as consciências dos motoristas de todo o mundo. De maneira racional, todos sabem que bebida e direção não combinam. Excesso de álcool pode provocar uma multa pesada, em conseqüência do DUI (Dirigir Sobre Influência de Substância Tóxicas, de acordo com sua sigla em inglês), ou causar tragédias, como a que ceifou a vida de Dannyel Passeto, um jovem de apenas 20 anos, que morreu entre as ferragens do automóvel após ser atingido por um veículo dirigido por outro jovem bêbado, que estava 30 milhas acima do limite permitido e atravessou sinal vermelho.

Sabemos que jornalisticamente falando a sentença proferida pelo juiz é o fato mais importante. Mas, caro leitor, permita-nos narrar o desenrolar deste caso de maneira cronológica para que vocês saibam a importância de evitar o álcool quando se está atrás do volante de um veículo.

O acidente – A tragédia ocorreu na madrugada do dia 25 de julho de 2002, na esquina da Palmetto Avenue com a Powerline Road. William Derek Jorden, com um Mazda RX 7, ano 1985, colidiu com o Kia Rio, dirigido por Dennys Passeto, irmão mais velho de Dannyel, que estava sentado no banco do passageiro. No banco traseiro, estava o amigo Daniel Rodrigues.

Segundo testemunhas, o rapaz cruzou semáforo vermelho e veio com tudo em direção ao veículo onde estavam. Além do mais, ele dirigia a 80 milhas por hora (120 quilômetros por hora) num local onde o limite máximo apontava 50 milhas por hora (80 quilômetros por hora). Ainda hoje, Dennys relembra as cenas trágicas, com uma das pernas de seu irmão sobre seus ombros.

Levados às pressas para o hospital, Dennys sofreu fratura de clavícula, foi medicado e dispensado, Daniel Rodrigues sofreu apenas escoriações, mas Dannyel Passeto, não resistiu aos ferimentos e faleceu. Emocionado, o irmão mais velho recorda as palavras mais tristes ouvidas naquela fatídica madrugada de julho de 2002, pronunciadas pelo médico: “Ele não conseguiu sobreviver”.

A partir daí, começou a luta da família Passeto para que o responsável fosse punido. Quase dois anos e meio depois da tragédia, finalmente foi realizado o julgamento, na Corte de West Palm Beach, no último dia 7 de janeiro. Durante este período, tentou-se uma compensação financeira para evitar que o jovem fosse para a prisão. A família, no entanto, rechaçou a generosa oferta.

Os depoimentos – Dentro da sala 11E da Corte, a emoção tomou conta do local. De um lado, familiares e amigos de Derek demonstrando apoio e testemunhando a seu favor como uma pessoa que nunca fez mal a ninguém e está sendo vítima de sua própria irresponsabilidade e de uma fatalidade.

De outro, os familiares e amigos de Dannyel revelando seu bom caráter e o ser humano afetuoso e feliz que ele era. Todos vestiam uma camiseta estampada com uma foto sua, seu nome e o dizeres: “Morto por um motorista bêbado”.

Michael Salnick, advogado de defesa do réu, chamou Greg Jorden, irmão do acusado. Com voz embargada, ele afirmou que Derek “sempre foi um sujeito feliz, que esteve ao lado das pessoas e foi vítima de circunstâncias infelizes”. Sobre a punição, Greg disse: “Ele já vem sendo punido todos os dias, ao acordar de manhã e lembrar o que ocorreu naquela noite. Nada pode ser pior do que a punição interna”.

A mãe Kathy lembrou a infância de seu filho, uma criança ativa, um bom estudante, “enfim, um sujeito normal”. Kathy, porém, enfatizou que ele foi criado para aceitar as conseqüências de seus atos. “É desalentador o que ocorreu, conversamos sobre o julgamento, sobre o significado do Dia das Mães, Dia dos Pais e sobre a necessidade dele se engajar num Programa para Educação de Jovens Motoristas Bêbados, é um sentimento indescritível.”

George Jorden, o pai de Derek, também não escondeu a decepção com a situação. A exemplo da esposa, reforçou: “Ele tem de aceitar a responsabilidade completa pelo que aconteceu. Ele ainda tentando entender uma situação que causou dor e tristeza para duas famílias”. O pai revelou que está casado com Kathy há 26 anos, tem quatro filhos (entre eles, Derek) e o casal, apesar de ambos terem carreiras bem-sucedidas, sempre esteve voltado para a família. Eles sempre orientaram os filhos a respeitar as leis, a não beber quando estiver dirigindo. “Sei que nada que possa ser dito ou feito pode aliviar a dor de ver um jovem perder a vida por causa de um erro. Disse a ele: ‘Você errou e tem de pagar, mas ainda continua sendo meu filho, e sempre estaremos ao seu lado’.”

O mea culpa – Derek Jorden, 23 anos, fez um mea culpa perante todos na Corte, questionado pela promotora Ellen Roberts. Ele afirmou ter cooperado com a polícia, e nunca tentou evadir-se. Entregou-se espontaneamente à polícia e forneceu todos os detalhes sobre o acidente. “A tragédia afetou minha vida de várias maneiras, e a culpa nunca me abandonou. Foi uma má decisão."

Depois Derek leu uma mensagem onde disse sempre ter sido um cara normal, que gosta de coisas normais e nunca desejou destruir nada. “É duro reconhecer que talvez devesse passar o resto dos meus dias numa prisão, porque matei alguém”.

Os testemunhos – Gabryella Passeto, irmã gêmea de Dannyel, foi a primeira depor em favor da vítima. Extremamente emocionada, Gabryella não conseguia conter o choro. “Perdi meu irmão querido. Sinto falta dele todos os dias. Tive de entrar em uma terapia por causa disto e sei que nenhuma pena vai trazê-lo de volta. Você tem de pagar pelas conseqüências”, encerrou, olhando para Derek.

William Goldman também depôs. "Ele era uma pessoa alegre, sempre sorrindo, e que procurava evitar problemas. Além disso, criticava aqueles que bebiam e pegavam o carro para dirigir”, contou
Alexander foi ainda mais pungente. “Ele era meu super amigo. Era um tipo que criava problemas, porque andava com más companhias. Quando comecei a sair com ele, recebi boas influências. Ele não bebia, não aprontava. Gostava do Super Homem, como super herói. Era uma grande inspiração para mim. Nada pode mudar, ninguém pode trazê-lo de volta.”

O irmão Dennys foi o último a dar depoimento. Muito emocionado, lembrou que sua família é muito próxima, tanto o núcleo familiar como tios, avós etc, que vivem no Brasil. “Dannyel era um cara solidário, feliz, risonho. Tinha o dom de agregar as pessoas. Agora ele está morto. (Dirigindo-se a Derek) Você não matou apenas Dannyel, matou todos nós. Minha vida mudou. Se recebo uma boa notícia, sinto-me culpado por isto. Sinto-me culpado por estar dirigindo o carro. Tive de fazer terapia. Minha família nunca será a mesma. Você terá filhos, netos, ele nunca. (Fitando o réu). Você tem de pagar, cara.”

Os arrazoados – O advogado do acusado, Michael Salnick, disse que este é um caso muito difícil. Seu cliente estava bêbado, acima do limite de velocidade e passou o sinal vermelho. Por isto, entendia a reação da família de Dannyel. No entanto, ele propugnou por uma pena alternativa, mais justa e produtiva, porque mandar Derek para a prisão não resolveria o problema.

A promotora pública, Ellen Roberts, considera o contrário. Só a punição exemplar pode diminuir os abusos e evitar novas mortes. “Jovens nas universidades bebem muito. E matam pessoas. Além do mais, Derek mentiu quando lhe perguntei se o semáforo estava vermelho. Evidente que ele está com remorso. Matou alguém. Por isto, queremos a pena máxima. Para nós, punição é prisão”, argüiu a promotora.

A sentença – Depois de sete horas de julgamento, o juiz Richard Oftedall deu seu veredito. Antes, porém, ele fez alguns comentários, dizendo que esta era uma situação difícil, onde não há vencedores.

“Como ele aceitou responsabilidade por seus atos e mostrou-se com remorsos, a Corte decidiu condená-lo a seis anos de prisão, mais oito anos de probation (onde a pessoa tem de se reportar a um oficial do judiciário), dois quais dois referem-se à prisão domiciliar, mais 150 horas de trabalho comunitário (palestras sobre os riscos de se dirigir bêbado ou plantão numa sala de emergência de um hospital), além de ter tido sua carteira de motorista confiscada por toda a vida.”

Uma pena dura, mas exemplar. Os pais de Dannyel, Jacintho (Duno) e Eliana, e o irmão Dennys consideraram a pena justa: “É o que esperávamos. Agora, Dannyel pode descansar em paz”.

E você, caro leitor, ainda pensa em dirigir depois de beber?


Reflexões de Jacintho (Duno) Passeto sobre seu filho querido

Jacintho (Duno) Passeto redigiu uma carta para ser lida na Corte, mas a forte emoção impediu que ele a lesse. O amigo Marcos Gomes, então, fez a leitura:

“À procura de palavras apropriadas para expressar minha tristeza, descubro-me exausto e escolhi as mais simples e as mais humildes palavras. Hoje, minha esposa e eu temos apenas um filho e uma filha queridos, Dennys e Gabryella. Eles precisam do nosso amor e do nosso apoio e pretendemos estar aqui para eles, a fim de tentar poupá-los da dor e do sofrimento que esta vida terrena nos castiga de vez em quando. Amo-os tanto quanto amava Dannyel, nem mais nem menos. Sinto-me privilegiado e orgulhoso por ter sido abençoado com o amor deles.

Gostaria de dividir com você estas palavras pungentes, cultivadas dentro do amor mais puro, o amor por um filho.

No dia 25 de julho de 2002, às 3 horas da madrugada, recebi um telefonema de um hospital requisitando minha presença naquele hospital, porque meu filho Dennys envolveu-se em um acidente de carro e estava na sala de emergência.

Como Dennys e Dannyel saíram juntos, perguntei sobre Dannyel. A resposta é que não tinham nenhuma informação sobre ele. Senti que algo de ruim havia acontecido a Dannyel. No hospital, encontrei Dennys, que me disse não saber onde estava seu irmão, talvez em outro hospital. Trinta minutos depois, o policial Random me deu a má notícia sobre meu filho Dannyel: ‘Infelizmente, ele teve sérios ferimentos na cabeça e faleceu’. Estas foram exatamente suas palavras. Atônito, contei a Dennys o que acontecera com seu irmão e liguei para minha esposa.

Todos que foram ao funeral do meu filho sabem o quanto foi dolorido ver meu querido filho num caixão, pouco antes de ser cremado. Foi o momento mais difícil de minha vida... mas não o único. Houve outros, como o dia seguinte ao acidente, quando estava lendo o relatório do médico-legista, no qual estava escrito o seguinte: ‘Dannyel teve seu órgãos internos removidos e pesados’. Seu coração pesava cerca de um quilo, o mesmo coração que era cheio de toneladas de amor.

No seu funeral, fechei meus olhos e e revivi a inesquecível imagem de seu sorriso. Através da pequena e indiferente janela do tempo, pude vê-lo claramente segurando minhas mãos, ouvindo meus ensinamentos, aprendendo como dirigir um carro com câmbio. Depois de terminar o curso colegial (high school), Dannyel e eu vivíamos juntos na Flórida. Foi a melhor época de minha vida. Dannyel era mais do que um filho, era meu melhor amigo, um menino gentil, sempre cercado por amigos, que o chamavam de Superman, porque ele protegia a todos. Estes momentos maravilhosos, que sempre ficarão na minha mente, admito, ainda hoje me atormentam e me dilaceram. Cada vez que revivo aqueles momentos, sinto como me senti na primeira vez quando soube que foi tirada a vida de meu filho! Minha criança linda, a quem tantas vezes segurei em meus braços e para quem murmurei histórias e músicas...Amo meu filho Dannyel...Amo demais!

Todas as noites, quando me deito para dormir, com as memórias adoráveis de meu filho em minha mente, em meu coração e em minha alma, descubro outra vez e outra vez que nunca mais o verei... Tenho apenas suas cinzas e nada mais...Não ter mais Natais juntos, ou aniversários, ou Dia dos Pais para desfrutar de sua companhia...nunca mais sentir usa presença alegre novamente...é com certeza a a pior dor que um ser humano pode sentir.”


           
A
família de Dannyel (Duno, o pai; Eliana Mello e Silva, a mãe; Gabryella, a irmã gêmea, e Dennys, o irmão mais velho). Na outra foto, os amigos de Dannyel na frente do Tribunal de Justiça de West Palm Beach, durante o julgamento realizado no dia 7 de janeiro de 2005
 

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