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Um escritor acima de
qualquer suspeita
Por Antonio Tozzi
Como personagem de uma de suas histórias, Luis Fernando Veríssimo chegou
discretamente ao local do encontro (1100 Coconut Creek Blvd., em Coconut
Creek), às 2h15 da tarde de sábado, dia 7 de maio, acompanhado da esposa
Lúcia e de convidados.
Quem não o conhece pode confundi-lo com um respeitável professor de inglês.
O que não seria absurdo, levando-se em conta que ele foi alfabetizado neste
idioma, no período em que morou nos Estados Unidos – na verdade, nas duas
vezes: a primeira, aos seis anos de idade, e a segunda, dos 16 aos 20 anos
de idade, quando fez o High School em Washington. Explica-se: o pai de Luis
Fernando, o também escritor Érico Veríssimo, era diplomata.
Mas a exemplo de Ed Mort, um de seus personagens, tentei me fingir de
repórter arguto (bem, vá lá, Ed Mort é um detetive particular, arguto?). E
comecei a perguntar, ao lado da loura, concorrente do outro jornal, com
olhos claros, sorriso franco e sotaque gaúcho, assim como nosso
entrevistado. Pelo menos, eu tinha algo belo para admirar.
E a repórter loura – que, na verdade, é ou era advogada e se descobriu
jornalista aqui – veio com tudo preparado. Perguntas datilografadas para não
perder nenhum detalhe. E eu, ali, ouvindo e anotando, e também perguntando,
é claro. Afinal, é para isto que serve um repórter. Os mais arrojados chegam
a desvendar crimes e levantar histórias mirabolantes sobre como os corruptos
desviam dinheiro público.
Mas eu estava ali, ao lado da loura e do grande Luis Fernando Veríssimo.
Aqui está uma seção de perguntas e respostas que vocês, leitores, querem ler
para saber mais sobre nosso entrevistado.
Pergunta: Você acha que o livro tende a continuar ou pode ser extinto?
Luis Fernando Veríssimo: Acredito que o livro não vai desaparecer,
apesar do avanço tecnológico. Mesmo se for editado eletronicamente ainda
continua sendo um livro. Portanto, seria uma adaptação ao tempo atual.
P: A repercussão internacional do teu trabalho te surpreende?
LFV: Surpreende um pouco, sim. Porque produzo muitas crônicas da vida
cotidiana brasileira. Mas, celebridade na literatura brasileira, há apenas o
Paulo Coelho, sem entrar no mérito da qualidade de seu trabalho.
P: Qual o livro preferido do público e qual o que você mais gosta?
LFV: Sem dúvida, “O Analista de Bagé” foi o mais vendido. E, no
geral, todos meus livros são parecidos, porque são coletâneas de crônicas. O
que mais gosto é o romance “Clube dos Anjos”, da série Pecados Capitais, da
Editora Objetiva. Fiquei com o capítulo Gula.
P: Como é escrever para outros veículos como televisão, cinema etc?
LFV: Gostei da experiência de participar da equipe de redatores, como
foi feito em “Comédias da Vida Privada”, um trabalho muito bem feito pelo
Guel Arraes e seu pessoal.
P: Como você analisa o interesse dos brasileiros que vivem no
Exterior na literatura feita no Brasil?
LFV: Considero muito importante para os brasileiros que moram fora
continuar a manter sua identificação com as coisas do Brasil.
P: Quem você considera um bom escritor desta nova geração?
LFV: Estou um pouco desatualizado, mas, entre os mais novos, gosto mais do
José Roberto Torero.
Novos planos incluem Shakespeare
Depois de garantir que “O Analista de Bagé” já encerrou seu ciclo, após uma
série de edições que nem ele mesmo sabe dizer quantas, Veríssimo revelou que
a Editora Objetiva teve a idéia de lançar uma série de comédias, baseada na
obra de Shakespeare. Ele escolheu “A Noite de Reis” e já está concentrado
neste novo trabalho.
Mais tarde, sentado à mesa juntamente com o cônsul geral do Brasil em Miami,
João Almino (que também é escritor), e com o autor infantil James Misse,
Veríssimo respondeu às perguntas do público. Voltando ao passado, comparou a
viagem de oito horas entre São Paulo e Miami com a primeira vez em que veio
para os EUA. Na ocasião, foram quatro dias de viagem de Porto Alegre a
Miami.
A pergunta do publisher do AcheiUSA, Jorge Nunes sobre textos que circulam
na Internet aos quais se imputam sua autoria motivou um esclarecimento do
escritor. “Não dá para controlar a Internet. É terra de ninguém. Encontro
muita gente que me elogia por textos que não são meus. Um deles, o Quase,
chegou até a ser traduzido para o francês e constou do convite de formatura
de uma turma de formando em Minas Gerais, onde fui paraninfo”, contou
Veríssimo.
“Outro texto atribuído a mim dizia que eu execrava os cantores sertanejos e
sugeria que as pessoas não deveriam ir a Goiás. Recebi uma série de e-mails
desaforados por causa disto. Não tenho nada contra os sertanejos nem contra
os goianos”, completou.
Apesar da precariedade cultural no Brasil, Veríssimo admite estar sendo
feito um trabalho de base nas escolas, a fim de incentivar o gosto pela
leitura nas crianças. Não esperem, porém, vê-lo vestido com o fardão de
imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL). “Não tenho nada contra, mas
não me vejo usando o fardão”, sorriu o autor.
Perguntado de onde vem a inspiração para seus
livros, Veríssimo afirmou que elas surgem de situações corriqueiras,
captadas por ele.
“Às
vezes, uma frase ou uma situação servem para detonar o processo criativo”,
comentou. Interessante é o fato dele não se considerar um humorista, apesar
de escrever com bastante humor, em razão de uma técnica desenvolvida por
ele.
Veríssimo gostou muito de ter vindo aos Estados Unidos, país com o qual tem
fortes ligações e de quem sofreu bastante influência, assim como Érico
Veríssimo: “Meu pai foi o primeiro escritor brasileiro a sofrer a influência
anglo-saxônica. A maioria seguia a escola européia, sobretudo a francesa. E
eu sigo pela mesma trilha”.
Se você vive aqui e quer adquirir algum livro de Luis Fernando Veríssimo
pode entrar no site www.brazilianbooks.com ou visitar qualquer das 14
bibliotecas pública de Broward ou 10 de Miami-Dade que mantêm os livros de
Veríssimo no catálogo.
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