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Ano 5 - Edição 108
10/maio a 31/maio
Deerfield Beach, FL USA
Cotações e Bolsas.

Um escritor acima de qualquer suspeita

Por Antonio Tozzi

Como personagem de uma de suas histórias, Luis Fernando Veríssimo chegou discretamente ao local do encontro (1100 Coconut Creek Blvd., em Coconut Creek), às 2h15 da tarde de sábado, dia 7 de maio, acompanhado da esposa Lúcia e de convidados.

Quem não o conhece pode confundi-lo com um respeitável professor de inglês. O que não seria absurdo, levando-se em conta que ele foi alfabetizado neste idioma, no período em que morou nos Estados Unidos – na verdade, nas duas vezes: a primeira, aos seis anos de idade, e a segunda, dos 16 aos 20 anos de idade, quando fez o High School em Washington. Explica-se: o pai de Luis Fernando, o também escritor Érico Veríssimo, era diplomata.

Mas a exemplo de Ed Mort, um de seus personagens, tentei me fingir de repórter arguto (bem, vá lá, Ed Mort é um detetive particular, arguto?). E comecei a perguntar, ao lado da loura, concorrente do outro jornal, com olhos claros, sorriso franco e sotaque gaúcho, assim como nosso entrevistado. Pelo menos, eu tinha algo belo para admirar.

E a repórter loura – que, na verdade, é ou era advogada e se descobriu jornalista aqui – veio com tudo preparado. Perguntas datilografadas para não perder nenhum detalhe. E eu, ali, ouvindo e anotando, e também perguntando, é claro. Afinal, é para isto que serve um repórter. Os mais arrojados chegam a desvendar crimes e levantar histórias mirabolantes sobre como os corruptos desviam dinheiro público.

Mas eu estava ali, ao lado da loura e do grande Luis Fernando Veríssimo. Aqui está uma seção de perguntas e respostas que vocês, leitores, querem ler para saber mais sobre nosso entrevistado.
Pergunta: Você acha que o livro tende a continuar ou pode ser extinto?

Luis Fernando Veríssimo: Acredito que o livro não vai desaparecer, apesar do avanço tecnológico. Mesmo se for editado eletronicamente ainda continua sendo um livro. Portanto, seria uma adaptação ao tempo atual.

P: A repercussão internacional do teu trabalho te surpreende?
LFV: Surpreende um pouco, sim. Porque produzo muitas crônicas da vida cotidiana brasileira. Mas, celebridade na literatura brasileira, há apenas o Paulo Coelho, sem entrar no mérito da qualidade de seu trabalho.

P: Qual o livro preferido do público e qual o que você mais gosta?
LFV: Sem dúvida, “O Analista de Bagé” foi o mais vendido. E, no geral, todos meus livros são parecidos, porque são coletâneas de crônicas. O que mais gosto é o romance “Clube dos Anjos”, da série Pecados Capitais, da Editora Objetiva. Fiquei com o capítulo Gula.

P: Como é escrever para outros veículos como televisão, cinema etc?
LFV: Gostei da experiência de participar da equipe de redatores, como foi feito em “Comédias da Vida Privada”, um trabalho muito bem feito pelo Guel Arraes e seu pessoal.

P: Como você analisa o interesse dos brasileiros que vivem no Exterior na literatura feita no Brasil?
LFV: Considero muito importante para os brasileiros que moram fora continuar a manter sua identificação com as coisas do Brasil.

P: Quem você considera um bom escritor desta nova geração?
LFV: Estou um pouco desatualizado, mas, entre os mais novos, gosto mais do José Roberto Torero.

Novos planos incluem Shakespeare
Depois de garantir que “O Analista de Bagé” já encerrou seu ciclo, após uma série de edições que nem ele mesmo sabe dizer quantas, Veríssimo revelou que a Editora Objetiva teve a idéia de lançar uma série de comédias, baseada na obra de Shakespeare. Ele escolheu “A Noite de Reis” e já está concentrado neste novo trabalho.

Mais tarde, sentado à mesa juntamente com o cônsul geral do Brasil em Miami, João Almino (que também é escritor), e com o autor infantil James Misse, Veríssimo respondeu às perguntas do público. Voltando ao passado, comparou a viagem de oito horas entre São Paulo e Miami com a primeira vez em que veio para os EUA. Na ocasião, foram quatro dias de viagem de Porto Alegre a Miami.

A pergunta do publisher do AcheiUSA, Jorge Nunes sobre textos que circulam na Internet aos quais se imputam sua autoria motivou um esclarecimento do escritor. “Não dá para controlar a Internet. É terra de ninguém. Encontro muita gente que me elogia por textos que não são meus. Um deles, o Quase, chegou até a ser traduzido para o francês e constou do convite de formatura de uma turma de formando em Minas Gerais, onde fui paraninfo”, contou Veríssimo.

“Outro texto atribuído a mim dizia que eu execrava os cantores sertanejos e sugeria que as pessoas não deveriam ir a Goiás. Recebi uma série de e-mails desaforados por causa disto. Não tenho nada contra os sertanejos nem contra os goianos”, completou.

Apesar da precariedade cultural no Brasil, Veríssimo admite estar sendo feito um trabalho de base nas escolas, a fim de incentivar o gosto pela leitura nas crianças. Não esperem, porém, vê-lo vestido com o fardão de imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL). “Não tenho nada contra, mas não me vejo usando o fardão”, sorriu o autor.

Perguntado de onde vem a inspiração para seus livros, Veríssimo afirmou que elas surgem de situações corriqueiras, captadas por ele.

Luis Fernando Veríssimo confirmou ser um escritor tão transparente como seus livros. Ao lado, a reprodução da capa de  “O Clube dos Anjos”, um de seus romances preferidos“Às vezes, uma frase ou uma situação servem para detonar o processo criativo”, comentou. Interessante é o fato dele não se considerar um humorista, apesar de escrever com bastante humor, em razão de uma técnica desenvolvida por ele.

Veríssimo gostou muito de ter vindo aos Estados Unidos, país com o qual tem fortes ligações e de quem sofreu bastante influência, assim como Érico Veríssimo: “Meu pai foi o primeiro escritor brasileiro a sofrer a influência anglo-saxônica. A maioria seguia a escola européia, sobretudo a francesa. E eu sigo pela mesma trilha”.

Se você vive aqui e quer adquirir algum livro de Luis Fernando Veríssimo pode entrar no site www.brazilianbooks.com ou visitar qualquer das 14 bibliotecas pública de Broward ou 10 de Miami-Dade que mantêm os livros de Veríssimo no catálogo.

 

 


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