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Jean Charles e o PT
Por Jorge Moreira Nunes
jorge@acheiusa.com
“A morte dele pode servir para que o
Brasil se movimente para impedir que mais brasileiros tenham de sair de lá
por falta de oportunidade, e correr os riscos que nós corremos.”
“Ora, direis, ouvir estrelas”, dizia o poeta Bilac.
Apurei o ouvido e as tentei ouvir também, mas infelizmente não tenho a
sensibilidade de Angela Nunes, minha irmã, que não só as ouve com clareza
mas também relata com sabedoria o que elas dizem aos leitores do AcheiUSA,
todas as quinzenas, em sua coluna.
Ora, direis, digo a mim mesmo, ouvirei então o Zeitgeist – o espírito do
tempo -, para tentar compreender o que está acontecendo no planeta neste
começo de milênio. Ouço o Zeitgeist e me chegam aos ouvidos sons de
lamentos, gritos de agonia e dor, gemidos dos milhares que sofrem
diariamente, vítimas de horrores inimagináveis. Em julho, estes sons ficaram
mais altos, porque ataques terroristas em Londres, no Egito e no Iraque
mataram centenas e feriram outras centenas de pessoas inocentes. São
sofrimentos que nada têm de novo, diga-se de passagem. A humanidade se mata
desde que ela existe, e na maioria das vezes em nome de alguma causa que o
assassino sempre considera como merecedora da vida alheia. Tristes
tristezas, como diz o escritor português João Barreiros.
Nada, mas nada mesmo, justifica o assassinato de inocentes. Nenhuma causa,
nenhuma religião, nenhuma vingança, nenhum lema pode justificar a chantagem
covarde de usar o sofrimento alheio como moeda para extorquir vantagens do
adversário, seja ele qual for.
Mas essa prática infame é o instrumento preferido dos terroristas que atacam
pelo mundo, espalhando o horror por onde passam seus pobres homens-bomba,
iludidas marionetes manipuladas pelas mãos sórdidas de quem os conduz para
matar em nome de Deus.
Para nós, brasileiros, este mês triste marcou de forma insólita a entrada do
Brasil no palco macabro onde o terrorismo monta seu teatro de horror. Em
Londres, Jean Charles de Menezes, brasileiro de 27 anos, foi alvejado na
cabeça por policiais ingleses que julgaram seu comportamento como suspeito.
Jean Charles morreu na hora, e sua morte comoveu o mundo. A polícia e o
governo ingleses apressaram-se em apresentar desculpas e isentar Jean
Charles de qualquer relação com o terrorismo, como se o simples fato dele
ser brasileiro fosse prova suficiente para isentá-lo da suspeita.
E é. Apesar dos seus tradicionais problemas, como violência, corrupção e má
distribuição de renda, o Brasil ainda é um verdadeiro oásis quando se fala
em terrorismo. É um mundo à parte num planeta literalmente aterrorizado,
onde pessoas inocentes podem estar sujeitas a serem despedaçadas por bombas
de uma hora para outra, além de correr o risco de serem confundidas com
terrroristas e fuziladas à queima-roupa, como Jean Charles o foi. Claro que
se cometem atrocidades no Brasil também - e por razões tão fúteis quanto as
de qualquer fanático -, mas a mim me parece que os crimes no Brasil são
produtos instintivos de uma crueldade, digamos, menos profunda - se é que
isso é possível -, quase como travessuras de criança mal-educada, se
comparadas ao êxtase de morte e horror dos terroristas.
Jean
Charles, a primeira vítima brasileira do terrorismo, pode ter sido um
mártir. O pronto reconhecimento de que sua morte foi um erro, na certeza de
que um brasileiro jamais teria qualquer conexão com o terrorismo, pode nos
fazer lembrar de que nós, brasileiros, estamos ainda preservados desse
flagelo, e que só somos vítimas do terrorismo por engano. Sua morte pode ser
um aviso para que nos lembremos sempre de que temos uma vantagem no mundo.
Nossos problemas são bem mais simples, se comparados às mazelas causadas
pelo terrorismo fundamentalista e fanático no resto do mundo. Nossos
problemas não são produtos de disputas milenares, não são baseados na crença
de que nosso deus é melhor do que o do vizinho. Eles foram criados por nós
mesmos, depois de décadas de erros cometidos pelos nossos governantes, e já
está na hora de corrigir esses erros.
Uma oportunidade de corrigir erros e rever comportamentos pode surgir depois
de apurado o lamentável episódio de irregularidades dentro do PT, partido
que arrogantemente sempre se arvorou como arauto da ética e do bom-mocismo.
A lavagem da roupa suja no partido do presidente Lula pode ser o começo de
um expurgo de canalhices, onde venham à tona para a exibição pública todas
as práticas imundas que o governo, em todos os níveis, utiliza para a
manutenção do seu poder e dos privilégios de seus escolhidos. A exibição
pública das falcatruas federais pode indignar a nação de tal forma que
possibilite a geração de um comportamento mais responsável no eleitor, que
precisa ir do cuidado na escolha do candidato ao cargo público à vigilância
do dirigente que o cidadão elegeu.
Precisamos nos dar conta de que esse início de milênio pode trazer para os
brasileiros uma oportunidade única, se a nação conseguir se livrar da
locupletação da riqueza do país pelos sucessivos governos desastrosos.
Poupado da loucura terrorista, o Brasil será um dos portos mais seguros para
a salvação da civilização no milênio que começa, e a comoção mundial com a
morte de Jean Charles pode ser um alerta para essa missão. Nas palavras de
um brasileiro, amigo de Jean Charles, em Londres: “A morte dele pode servir
para que o Brasil se movimente para impedir que mais brasileiros tenham de
sair de lá por falta de oportunidade, e correr os riscos que nós corremos”.
Se liga, Brasil.
Assim me contou o Zeitgeist.
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