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O Jornalista Que Viu o
Mundo
Por Heliana Deweese / Fotos: Quioshi Goto
(JC)
Luiz Carlos Azenha tem 30 anos de estrada em jornalismo. Conheceu o mundo.
Para ele, o estrangeiro tem uma visão mais positiva do Brasil do que o
próprio brasileiro. Otimista com a terrinha, o jornalista disse que o país
melhorou muito durante os anos em que esteve fora.
O jornalista brasileiro Luiz Carlos Azenha saiu de Bauru (SP) sua cidade
natal há mais de 20 anos para correr o mundo. Depois de passar por mais de
40 países cobrindo guerras, fatos importantes que marcaram o milênio e
produzir centenas de reportagens que milhares de telespectadores viram na
TV, ele está de volta ao Brasil pela Rede Globo de São Paulo. Passou por
quase todas as emissoras de TV, mas é de seu último posto em Nova York como
repórter especial na Globo Internacional, que o brasileiro que está fora de
casa, e portanto ligado na telinha da TV, deve lembrar-se bem da figura do
jornalista. Vai lembrar-se especialmente de suas entradas ao vivo para o Bom
Dia Brasil, Jornal Nacional ou o Jornal da Globo comentando a Guerra no
Iraque, as eleições presidenciais nos EUA ou sobre qualquer outro assunto de
igual relevância mundial que pedia a experiência de um jornalista como ele.
Para um profissional que passou tantos anos convivendo com culturas e
idiomas diferentes, entrevistou personalidades internacionais e testemunhou
ao vivo acontecimentos de suma importância para a humanidade, como a queda
do muro de Berlim e do regime de Saddam Hussein, Azenha tem muito para
contar.
O jornalista chega ao Brasil num momento político crítico, quando o governo
Lula vive uma de suas piores crises e o PT se esforça para tentar manter o
partido coeso apesar das acusações que pesam sobre as cabeças de alguns dos
seus. É exatamente este o assunto que Azenha está acompanhando com sua
imparcialidade e experiência profissional, para manter o telespectador bem
informado. Convidado para um bate-papo informal com jornalistas, estudantes
e políticos entre outros, Azenha esteve em Bauru recentemente e neste
encontro concedeu ao AcheiUSA esta entrevista.
HD - Como é voltar para casa depois de tantos anos?
AZ - É bom acordar de manhã e tomar café na padaria conversando sobre
futebol e política com um desconhecido. O Brasil tem isso de bom: a gente
conversa com o jornaleiro, com o taxista, com o porteiro do prédio. Todo
mundo se abre facilmente.
HD – Você acha que o Brasil mudou e como, enquanto você esteve fora?
AZ - O Brasil sofre de uma tremenda distorção. A mídia está toda na
costa. Existe um Brasil no litoral e outro, no interior. Este Brasil
costeiro está em crise: são as grandes cidades inchadas pelos que saíram do
campo em busca de oportunidades inexistentes. O Brasil do interior cresce
muito. Se você subir pelo interior do Brasil, saindo do Rio Grande do Sul,
passando por Santa Catarina, atravessando o Paraná (na altura de Maringá ou
Londrina), avançar pelo interior de São Paulo (Bauru, São José do Rio Preto,
Presidente Prudente) e seguir para Campo Grande e Cuiabá vai conhecer um
Brasil de primeiro mundo. O agronegócio produz muita riqueza. A manchete de
hoje no jornal paulista é de que o Brasil exportou 10 bilhões de dólares em
um mês - recorde na história. Mas no jornal esta notícia é pequena em
comparação com os títulos principais, todos falando da crise política.
HD – Apesar da crise do momento você ainda é otimista com relação ao
Brasil?
AZ – A crise está sendo supervalorizada pela mídia. É assunto
interminável, de ponta a ponta do jornal. O governo está em crise, lógico,
mas no calor da notícia falta quem recue três passos para ver que o País não
está caindo pelas tabelas, como parece. Quando o país teve tantos juízes e
promotores novos? Quando o Ministério Público foi tão respeitado quanto
agora? Quando é que a Polícia Federal botou gente rica na cadeia? Quando é
que tivemos um procurador geral da República que não engaveta processos
contra autoridades?
HD – Você acredita que o Lula consegue sair desta e tem chances de ser
reeleito?
AZ - O Lula vai sair bastante enfraquecido, refém do PMDB, e só se
reelege se a economia melhorar muito. Há alguns indícios disso no controle
da inflação, na melhora do emprego e no recorde de exportações. Hoje eu
diria que a chance de o Lula se reeleger é de 50%.
HD – Como você define a atuação da imprensa americana?
AZ- Acho que a imprensa americana está bastante enfraquecida depois da
atuação risível que ela teve antes da ocupação do Iraque. Jornais e
emissoras de tevê engoliram e reproduziram todas as mentiras propagadas pelo
governo sobre as terríveis armas de destruição em massa, que nunca
existiram. Publicaram todo o tipo de boato, fofoca e suposição como se
fossem notícias apuradas e verdadeiras.
HD- Você acha que a imprensa estrangeira trata de assuntos do Brasil com
a mesma relevância que a imprensa brasileira o faz com relação aos assuntos
internacionais?
AZ – É típico de todo país grande: a tendência é de olhar para o próprio
umbigo. Nós reclamamos que os jornais americanos pouco falam do Brasil. Eu
diria que nós pouco falamos de nossos vizinhos. Só falamos da Bolívia, do
Paraguai e do Peru, por exemplo, quando tem jogo de seleção ou quando os
países mergulham em alguma crise muito grave. São nossos vizinhos
desconhecidos.
HD - Como você vê os EUA hoje com a situação de guerra? A economia corre
perigo?
AZ - A guerra sangra aos poucos os Estados Unidos. São bilhões de
dólares despejados no Iraque, sem retorno à vista. A reconstrução do Iraque
está engatinhando e a produção de petróleo, idem. Só há uma saída, ainda que
a Casa Branca insista que está tudo bem: uma saída política que marque data
para o início da retirada das tropas americanas.
HD – Quando se fala em Brasil dar certo, tirando as questões de praxe,
como impunidade, violência, educação etc., a seu ver o quê o Brasil precisa
realmente para melhorar?
AZ – O Brasil tem a maior taxa de desigualdade de renda do mundo. Mas os
empresários pagam muito imposto. É preciso desonerar seletivamente a
produção. Fazer uma política agressiva para desenvolver alguns setores da
economia, acima de tudo aqueles que criem emprego. Criar bons empregos, com
carteira assinada, é a melhor forma de distribuir renda. O Brasil é campeão
de exportação de vários produtos agrícolas. Precisamos exportar soja, mas
também precisamos exportar leite de soja. A agricultura pode alavancar a
indústria. Ninguém faz milagre de uma hora para outra, mas esta é uma das
saídas.
HD – Você acha que a imprensa tem ajudado o Brasil a melhorar?
AZ – Não cabe à imprensa este papel. Acho que a imprensa brasileira tem
um papel fiscalizador importante. Comparando com outros países, a imprensa
brasileira é financeiramente sólida e livre, ainda que para errar de vez em
quando.
HD – E como o brasileiro que vive fora do Brasil pode ajudar?
AZ - Mandando dinheiro para o Brasil! Foram seis bilhões de dólares,
segundo o relatório mais recente do Banco Mundial. É este mundo que o Brasil
costeiro faz de conta que não existe... Há centenas de milhares de pessoas
beneficiadas pelos dólares, euros e ienes que chegam. É gente que compra
sítio, casa, faz reforma, monta empresa - tudo isso ajuda a economia.
HD – Algum recado a esses brasileiros que vivem fora de casa?
AZ – Falem bem do Brasil. Abandonem a síndrome do cachorro vira-latas
que, segundo o escritor Nélson Rodrigues, ataca todo brasileiro. É uma
espécie de complexo de inferioridade. Se algum americano botar banca, mostre
para ele fotos da Amazônia, da chapada Diamantina, do Pantanal, das praias
brasileiras. Fale da diversidade e do verdadeiro caldeirão cultural e racial
que é o Brasil. Nós, brasileiros, somos o máximo. Viajei por dezenas de
países. Constatei que os estrangeiros gostam mais da gente do que nós
mesmos.
O site do jornalista Luiz Carlos Azenha é: www.viomundo.com. Vale a pena
conferir!
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