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Entregar-se à Justiça
pode ser opção para ilegais
Por Iara Carnauba
Atravessar a fronteira e se apresentar no tribunal parecem decisões bem
distintas, mas fazem parte do plano de muitos imigrantes ilegais. Nossa
entrevistada desta quinzena conta como foi correr em direção à polícia
americana para ser presa e ter a oportunidade de tentar uma vida melhor nos
Estados Unidos.
Motivos para se aventurar - Cansada de concursos públicos, convicta
de que não queria terminar o curso de letras e continuar dando aulas com
baixos salários, D.A. deixou o Brasil rumo ao México em dezembro de 2003
para tentar a travessia da fronteira depois de ter o visto negado por duas
vezes.
Embarcou em Brasília sabendo dos riscos que correria e chegou ao aeroporto
da Cidade do México. Já no desembarque, foi abordada pela imigração local
sendo obrigada a pagar os primeiros US$500,00 para seguir viagem com destino
a Guadalajara, ainda em avião.
As condições da viagem começariam a piorar e as propinas também. Trinta e
oito horas de ônibus e diversas paradas a aguardavam. A polícia rodoviária
parecia saber exatamente quem tinha a intenção de chegar aos Estados Unidos
e sempre pedia dinheiro para liberá-la.
Em Hermosillo, pegaria um táxi para Sonoita, uma pequena cidade no Estado de
Sonora que faz fronteira com a cidade de Lukeville, Arizona, onde foi presa.
O delegado não aceitou suborno, alegando que aquele era um dos invernos mais
rigoros do México e ela não chegaria viva aos Estados Unidos.
Depois de dez dias na delegacia teve de fazer a mesma viagem, mas, desta
vez, em um ônibus escoltado pela polícia. Estava sendo deportada. Conheceu
pessoas que aguardavam a deportação por mais de cinco meses. Chegou
novamente à cidade do México onde ainda teve de aguardar mais 17 dias em um
presídio para embarcar em um avião de volta ao Brasil.
“A idéia de me entregar à polícia parecia loucura” - Exatamente um
ano depois, faltando uma semana para o Natal, D.A. partiu em sua segunda
tentativa. Desta feita, com planos bem diferentes. O destino era a Cidade de
Monterrey, capital do estado de Nuevo Leon, no México. Lá, ficaria numa casa
aguardando a hora da travessia do Rio Grande. Sua maior preocupação era a
polícia mexicana. Orientada a nadar e depois correr em uma espécie de mangue
em direção a uma luz amarela, D.A. deixou para trás o grupo de 20 pessoas.
Foi a única a chegar ao destino. “Ouvia pessoas pedindo ajuda e gritando por
socorro, mas não podia fazer nada. Nessa travessia é cada um por si.
Quando vi as armas apontadas para mim e os cachorros latindo duvidei que
aquele local fosse mesmo aonde eu teria de chegar”.
D.A ficou presa na cidade de Harlingen, no Texas, por três dias. Com a roupa
ainda molhada e em uma sala toda de vidro com câmeras.
Conta que não a deixaram dormir durante estes dias. O intuito é desencorajar
os aventureiros a tentarem novamente. Depois destes três longos dias no
presídio a soltaram com uma ordem para comparecer ao tribunal em seis meses.
Ficaram com seu passaporte, fotos e digitais.
- A opção de se ‘entregar’ parece ser uma boa saída para os que optaram por
uma entrada ilegal aos Estados Unidos. Vivi um filme de terror e não podia
parar para pensar nos fatos e detalhes sobre o que estava acontecendo ao meu
redor. Lembro-me que o “coiote” (intermediário que deve guiar os ilegais do
México para os EUA) que nos levaria até certo ponto da travessia era um
menino de apenas 13 anos e estava completamente drogado. O outro parecia ser
mais novo ainda e estava todo sujo de sangue quando foi nos buscar. Quem
seria irresponsável de se atirar num rio com esses meninos? Não aconselho
isso para ninguém.
Mais um ano nos EUA - A nossa entrevistada procurou vários advogados
e ouviu diferentes opiniões. Mas optou pela única que lhe daria oportunidade
de se legalizar. Compareceu ao tribunal pedindo asilo social. Sua próxima
apresentação no tribunal será em julho de 2006 e com os documentos do seu
processo pode até tirar a carteira de motorista. Até lá, D.A. poderá
aguardar alguma nova lei que regularize a situação dos indocumentados ou a
aprovação do seu pedido de asilo. Ou, quem sabe, se apaixonar por algum
americano e se casar.
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