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Agruras de uma imigrante vítima de preconceito

Vítima de preconceito revolta-se contra maus-tratos e alerta os brasileiros para não se curvarem diante das injustiças

Isto aconteceu numa tarde quente de sábado, há cerca de um mês, num certo car wash de Pompano Beach. Um cidadão americano dirigiu-se à “Lídia” e pediu a ela alguns mimos extras para completar a lavagem de seu automóvel. A supervisora explicou-lhe educadamente que isto não seria possível porque o serviço pelo qual ele pagara não contemplava estes benefícios extras.

O homem, então, tomado de fúria, partiu para cima de “Lídia”* e a agrediu com um soco no pescoço, fazendo com que ela cambaleasse.

Ao ver a moça sendo agredida, o gerente do estabelecimento partiu para cima do agressor e lhe deu um safanão.

Logo, a turma do deixa disso apareceu e serenou os ânimos. A polícia, porém, foi chamada para registrar a ocorrência. Aí, diante dos policiais, o agressor defendeu-se dizendo ser idoso e estar arrependido do que havia feito. A decisão, portanto, ficou a cargo de “Lídia”. Se ela concordasse em apresentar queixa, os policiais deixaram implícito que seu defensor também seria intimado e poderia ser preso por ter agredido uma pessoa com mais de 65 anos de idade, de acordo com as leis da Flórida.

A moça ficou num dilema. Seguiria em frente para punir o agressor ou recuaria para proteger seu defensor? Ela optou por evitar colocar a pessoa que a defendeu em uma má situação e desistiu de registrar a queixa.

Por dentro, porém, sentiu-se impotente, por ter sido vítima de uma agressão e também de preconceito – “É comum falarmos para voltarmos para o México”, queixa-se a brasileira – e não poder fazer nada porque a lei do idoso (o agressor tem 67 anos de idade) prevaleceu sobre a lei que protege a mulher.

Ferida física e emocionalmente, “Lídia” foi para sua casa, sentou-se em frente a um computador e registrou (brilhantemente) sua indignação. Como mulher, como imigrante e como ser humano. Vale a pena ler seu texto que resume, com emoção, sua frustração.

Vidas mudas (Autoria de "Lídia*", nome fictício)

Diante de tanta riqueza, de tanto sorriso, pude observar a face mais obscura de um silêncio, de um medo, que faz com que pessoas deixem de ser humanos, pessoas que deixam de olhar a vida como ela poderia ser.
Você passa a acreditar que o normal é o certo, e o certo é ser sempre mudo.
Mudo de voz,
Mudo de olhar,
Mudo de encarar a vida, que antes parecia normal e hoje apenas se vive...
Sentir na pele cada suor, cada queimar do sol, e poder ainda contemplar a vida, sonhando com a esperança...
Esperança...
Não teria sentido nada neste mundo mudo, viver sem ela, não teria sentido, perdê-la por um sonho...
Hoje, infelizmente pude sentir na pele, na alma a dor de nada poder, de nada ser nesta riqueza que sonha, mas que te quer muda...
A dor de cada músculo contraído, pela vergonha, pela indignação, pela veracidade de como estes sorridentes se transformam em monstros covardes, em monstros capazes de tudo para impor a vontade de um império de raça.
Império de raça de pessoas como nós, império de suor, império de dor.
Enquanto damos, somos...
E quando freamos, nos chocamos com o maior iceberg de hipocrisia, de uma terra onde liberdade não foi feita para todos.
Hoje foi arrancada de mim a minha integridade, minha dignidade, meu amor próprio.
Mas, mesmo saindo de um mundo de muita luta, não deixei arrancar de mim o respeito e o amor pela amizade.
Que nada vale a vida sem pessoas dignas ao seu redor, de que nada vale a sua vida sem amigos de verdade.
Fui agredida da maneira mais covarde.
O medo.
O medo de não poder proteger a todos,
O medo de perder meu direito de ir e vir,
O medo de ser mulher.
Hoje eu sinto dor.
Dói minha alma,
Dói meu corpo...
Não só pelo trabalho de um dia que se acabou...
Mas, pela selvageria de um ser abominável.
Que se vale de pertencer a este mundo de riqueza, que se vale de viver pelo medo dos outros.
Dos outros que têm medo.
Hoje meu corpo dói.
Fui agredida e nada posso fazer, porque ao mesmo tempo em que sonhamos aqui, pagamos um preço também alto.
Quem disse que aqui a mulher é agredida e tudo ocorre com perfeição no grito de socorro?
Mas este grito é mudo...
Como posso mandar embora uma amizade verdadeira?
Como vou trair a quem me defendeu?
Porque neste mundo de liberdade vigiada temos escolhas difíceis.
Escolher fazer justiça, por um ato de covardia...
Ou proteger a amizade sincera, cuja intenção era apenas te defender deste mundo?
Melhor não parar pra pensar.


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