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Seu Nen - Parte II
Por Maria Fernanda
(...continuação)
O meu terceiro choque do dia foi a parede-destaque propriamente
dita, onde iria fazer a tal da pintura especial. Parecia que a
parede tinha crescido... Estava particularmente grande, imensa.
Tinha que desenhar quadrados do mesmo tamanho em toda a sua
extensão, para só depois começar a pintura metálica.
Quantos quadrados ao todo teria de desenhar afinal? Em meio ao
meu dilema, arrisquei um olhar para a sacada. Lá estava Seu Nen,
calmamente dando umas baforadas no seu cigarro de tabaco
natural.
- Seu Nen, vamos começar. Temos muito trabalho pela frente.
Quanto mais cedo começarmos, mais cedo estaremos liberados.
- Menina, você precisa relaxar. Por que tanto estresse? Vem pra
cá descansar um pouco. Você já reparou como o dia hoje está
maravilhoso?
Seu Nen é a personificação do anti-americanismo. A noção que tem
do tempo é muito diferente da que impera por aqui. Fiquei firme
e acabei fazendo com que Seu Nen começasse a fazer a sua parte.
Comecei a traçar os quadrados na parede-destaque e logo logo
percebi que teria de traçar um total de noventa quadrados. Minha
Nossa! Olhei para a paisagem lá fora... Pensei em todas as
contas que iria pagar com o di-nheiro ganho naquele trabalho...
E aí, o quarto choque: olhei para o outro lado da sala e vi Seu
Nen pintando devagarinho, completamente desajeitado.
- Seu Nen, o que está acontecendo, perguntei alarmada. O senhor
não disse que sabia pintar paredes?
- Menina, estou meio fora de forma e os meus olhos não estão
ajudando muito. E, de mais a mais, preciso de um intervalo para
uma baforada. Umazinha só? Preciso parar de fumar, mas tá
difícil, menina.
Com menos de cinco minutos de trabalho, Seu Nen tinha largado
tudo para fumar na varanda. Olhei para a parede principal,
pensei nos quadrados todos que teria de desenhar, vi as horas
avançando, Seu Nen fumando, e eu começando a desistir. Iria
abrir mão do meu convicto esforço de fazer as coisas da maneira
“certa”. Não tinha mais forças. Fui para a varanda me juntar a
ele.
- Menina, relaxe. Você está com os olhos irritados. Pode ser a
tinta. Essas tintas são um perigo, sabia? Têm muita química.
Precisamos fazer alguma coisa. Literalmente num abrir e piscar
de olhos, Seu Nen estava debruçado em cima de mim colocando um
super colírio natural para descongestionar os meus olhos. Estava
pronta para sucumbir, mas os noventa quadrados me chamaram de
volta à realidade. Coitada da minha cliente. Não tinha culpa de
tantos desacertos. Não podia decepcioná-la. Não era justo.
- Seu Nen, precisamos voltar ao trabalho, falei com o pouco que
restava da minha integridade. O tempo está voando. Temos ainda
tanto o que fazer...
- Tudo bem, mas antes vamos tomar um chá verde bem forte, menina.
Isso é tudo o que você precisa agora.
- Ah, Seu Nen... Como gostaria de ser assim que nem o senhor...
Cuca fresca... Mas o problema é que eu não sou... Estamos na
América. O trabalho vem em primeiro lugar. O senhor deveria
saber disso. Afinal, está aqui há mais tempo que eu.
Com um sorriso de quem sabia mais do que aquilo, falou:
- Vamos comprar um lanche na lojinha lá de baixo? Está passando
da hora do almoço. A gente volta em seguida - propôs ele.
Por mais que quisesse ser caxias, estava com muita fome. Desci
com Seu Nen. Chegando à lojinha, escolhi rapidamente um
sanduíche e um refresco. Tinha pressa para voltar. Quando me
encaminhava para a porta, procurei Seu Nen com os olhos. Lá
estava ele numa conversa animadíssima com a dona da loja.
- Seu Nen, vamos embora, implorei disfarçadamente.
- Menina, já estou indo. Não se preocupe.
Muito tempo depois, às voltas com os tais quadrados, pensando no
estranho desenrolar daquele lindo dia e que talvez Seu Nen não
voltasse mais, voltou ele, belo e faceiro. Seus olhos brilhavam.
Provavelmente havia descortinado toda a vida da simpática dona
da lojinha. Acho que sentia um estranho prazer em pescar a
história de vida das pessoas. Engraçado, o Seu Nen.
Retornamos ao trabalho, mas não consegui cumprir nem a metade do
que havia planejado. Não tive como me dedicar à parede-destaque,
porque precisei ajudar o meu ajudante. Depois de um certo ponto,
ele simplesmente parou. Não registrou nada mais do que lhe pedia
pra fazer.
- Seu Nen, tem os rodapés e as portas pra pintar. Já separei as
tintas pro senhor.
Seu Nen me olhou com um o-lhar vago e foi para a varanda dar
mais uma baforada. Acho que havia esgotado a sua cota de
trabalho daquele dia.
O sol começava a se despedir, colorindo o céu num espetáculo de
indizível beleza. Insisti por mais algum tempo, mas logo em
seguida acabei parando. O ambiente já estava deficiente da luz
do dia.
Na saída, precisávamos achar a lixeira do prédio, para
descarregarmos um saco cheio de lixo. Perguntamos para um, para
outro... Até que um rapazinho latino piscou os olhos e mostrou
uma caixa de lixo, que não era exatamente para aquele tipo de
lixo, mas quem sabe com um jei-tinho... Seu Nen, olhando para um
lado e para o outro a cada segundo, tentou colocar o saco dentro
da caixa da forma menos discreta possível. Decidi ficar num
cantinho assistindo à cena. Fiquei com vergonha, com medo de ser
chamada à atenção. Seu Nen continuou a tentar socar o saco
imenso dentro da caixa pequena, como se aquilo fosse uma missão.
Não sa-tisfeito, tirou a tampa da caixa abruptamente, olhando
incessantemente para os lados, como se aquilo pudesse esconder
os seus quase dois metros de movimentos não muito sutis. Como
ainda não havia conseguido lograr seu objetivo, Seu Nen deu um
pulo, e com as duas mãos tentou amassar o saco dentro da caixa.
Senti-me num daqueles momentos que você não sabe se chora ou se
ri.
Seu Nen resolveu ficar parado na frente do edíficio para ver as
pessoas indo e vindo. Como ele mesmo diz, ficou assistindo ao
show. Seu Nen é feliz. Vive a vida da maneira que lhe dá prazer.
Já havia morado em vários países, mas nenhuma cultura conseguiu
sufocar a sua maneira autêntica de ser. Talvez essa seja uma de
suas melhores qualidades.
Dirigindo de volta pra casa, vi as primeiras estrelas, que se
ajei-tavam para enfeitar o céu de uma noite morna e agradável.
Pensei na eterna luta entre o “eu quero” e o “eu devo”, que
aquele dia tumultuado havia refletido. Que dia! Parada num sinal
de trânsito, embarquei em mais um flash-back e pensei: essa
grande aventura que é ser imigrante se desdobra a cada dia
diante dos nossos olhos. Recheada de experiências de todos os
tipos, se desenrola como um filme repleto de personagens. Cada
personagem nos traz uma lição de presente. Querer receber o
presente é uma questão de escolha como tudo mais. Como teria
sido esse mesmo dia se tivesse tido a coragem de fazer o que
realmente tinha vontade? Sem medir as conseqüências, assim como
o Seu Nen. Em vez de trilhar o caminho dos certos, talvez
estivesse trilhando o caminho dos felizes. O sinal abriu e eu
continuei em frente. A noite havia caído, trazendo a lua, que
desfilava com seu traje prateado, no seu melhor estilo.
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