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É preciso ter asas, mas é necessário ter raízes
Por
Catia Dombrowski*
Diante de tantas possibilidades, Ana escolheu perder-se na América.
Do norte, pois na do sul ela já não se encontrava mais. Deixou-se
possuir, pois hoje vê dessa forma, do tal espírito do “American way
of life”. Possibilidades, sonhos e conquistas estavam na sua alma, e
no seu passaporte! Sim, o visto não lhe fora negado, seus sonhos
podiam caminhar junto à esperança (aliás, esse era o nome da
atendente do consulado, feliz coincidência, não é?)
Munida de tudo o que precisava, Ana despediu-se da tal terra na qual
tudo que se planta dá, porém era solo estéril para seus desejos.
Horas de vôo, coração na mão e uma enorme vontade de voar (e ela já
estava fazendo isso...) eis que, a América está ao alcance de duas
mãos.
Indescritível a sensação, Ana caminha como se já pertencesse àquele
lugar. Nada lhe parecia estranho, não fosse a necessidade de
informação... Tantos filmes vistos, quanto dinheiro aplicado em
cursos, todo o conhecimento de músicas americanas foram pro ralo
depois do primeiro: “Com licença...” Ops! “Não e tão fácil assim...Mas
dá pra entender um pouco...Devia ter estudado mais...” Não Ana,
ainda tem muita história pela frente, o inglês, em bom português, é
fichinha!
Perdida, apesar de achar tudo lindo e de ter a certeza de que agora
encontraria seu verdadeiro eu, conseguiu achar o tal-apartamento-
da-amiga-da-vizinha-da-sua-tia-avó. Outra brasileira, que como Ana,
decidiu e acreditou que a felicidade estava lá fora. Correria, oh!
Seu quarto é aquele, deixe suas coisas lá, sem bagunça, eu tenho um
namorado latino, não se assuste se acordar e ele estiver pela sala,
na geladeira tem comida, se vira aí, bom, você sabe o que fazer,
estou atrasada, nos vemos mais tarde... Ahhhh...Ah! Tem festa na
boate, se arruma, assim lhe apresento a galera!
Ana se virou, virou os olhinhos de felicidade! Primeiro passo do
sonho conquistado! América! E ainda ia rolar festinha? Vááááários
americanos, bom pra treinar o inglês! E a festa aconteceu: num bar
brasileiro, só com brasileiros! Como assim?!? Pensou Ana, não era
isso que ela esperava... O loirão era do Sul, do Rio Grande do Sul!
Não de algum estado do Sul dos Estados Unidos... Aliás, com o passar
do tempo, descobriu que de unido, os estados nada tinham. Nem as
pessoas...
Começou a trabalhar em três empregos, fez faxina, logo ela que
estudou nos melhores colégios, fez faculdade, falava inglês, francês
e espanhol. “Mas aqui, ganho mais...” E gasta também! Padrão de vida
alto, mas dá pra levar...Depois de um mês, Ana percebeu que aquele
tal de “American way of life” só funcionava em filme da Warner. A
vida é dura, seja onde for, e principalmente se você não é dali...
Toda aquela magia Disney foi pro saco! E então ela se sentiu num
deserto de almas... Nesse momento ela conseguiu entender o que Caio
Fernando Abreu quis dizer... A frieza, os preconceitos, a comida,
tudo a incomodava. Mas ela optou por ir lá ver e viver. E era isso
que iria fazer.
Agora, não mais se sentia pertencente àquele lugar, era mais uma
brasileira querendo “se dar bem”.
A saudade tão nossa, começou a apertar, agora já morava com uma
inglesa (aí ela realmente descobriu o que era frieza!), em um lugar
legal, tinha um certo dinheirinho, seu inglês estava ótimo, mas a
saudade não podia ser traduzida, sentia falta, como se parte dela
tivesse ficado em casa (agora não mais chamava o Brasil de meu pais,
mas de minha casa), sentia saudades do cheiro do feijão, do chope
geladinho depois da praia, de Ipanema, dos seus amigos de verdade,
da família, do pôr-do-sol, do churrasco improvisado, daquela alegria
constante que todo mundo tem, do riso solto, da brisa no rosto, do
calor da cidade e das pessoas, do “te ligo mais tarde” quando você
sabe que não te ligarão... Saudades até das baratas, dos ônibus
lotados, da fofoca das vizinhas... e daquele delicioso cheiro de
verão e vida misturado ao inconfundível aroma do café fresquinho...
A dor que tudo causava era tamanha, que por vezes antes de dormir,
mesmo cansada, chorava e agradecia a Deus por ter nascido no Brasil!
A loucura brasileira era divertida agora. Tudo era lindo.
Ana já está nos Estados Unidos há alguns anos. Conheceu um americano
incrível, deferente dos outros, casou-se. Tem uma casa e um cachorro,
amigos, um emprego decente. Continua sonhando, sempre. Vem ao Brasil
sempre que pode, chora quando volta. Continua sentindo saudades.
Descobriu dentro dela um amor incondicional pelo Brasil. Mas não
volta. Pois nesse solo (não nova casa) nem tudo que se planta dá,
mas dá pra viver melhor. O que Ana sempre sonhou foi viver, não
sobreviver, e agora ela pode. Ainda sonha, pois foi isso o que a fez
acreditar, mudar e melhorar. O deserto de almas não existe mais, nem
a magia americana, mas hoje ela é muito feliz, não é completa, mas
feliz! E leva como lema de vida, que é preciso ter asas, mas é
necessário ter raízes!
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