Brazilian Classifieds Ads
15 Brazilian Film Festival of Miami
BUSCA: Google    AcheiUSA  Internet 
Edição atual

Edição atual, clique para ampliar.

Clique na capa acima e veja
a nossa edição impressa

Bookmark and Share

PRÊMIO ACHEIUSA DE LITERATURA

*Menção honrosa

No Brasil, o sonho era americano...

 Por Denise Lazari Vieira*

Acordou ao ouvir a voz metálica dizendo qualquer coisa incompreensível, porém, pela movimentação, lhe pareceu ser um aviso de que poderia sair daquelas paredes metálicas e frias que o abrigaram nas últimas sete horas.

Olhou para os lados e certificou-se de que estava realmente sozinho. Sua família, seus amigos, sua velha vida haviam sido abandonados no cinzento aeroporto de Guarulhos. A cada palavra que era grunhida ao alto falante, seu coração saltava e o peso do seu aprendizado limitado se tornava insustentável. Ainda se questionava porque não havia assistido às aulas de inglês ao invés de fugir delas para jogar sinuca no boteco em frente à faculdade (e por que sempre havia um boteco?).

Enfim, decidiu seguir o fluxo e acabou enfileirado junto a vários outros que talvez estivessem na mesma situação, mas continuavam calados e mostrando-se donos de si. A cada passo que o aproximava do final da fila era um avanço ao terror que se apoderava de suas entranhas. Se o homem cismasse com ele, justo com ele...

Sorriu. Sorriso amarelo, já que o sujeito balbuciava qualquer coisa em um idioma próximo ao aramaico pré-histórico (ou seria seu estado de tensão que o impossibilitava de diagnosticar ao certo o idioma?). Por fim, o cara até bacana, experimentou arriscar um novo idioma, este ainda menos compreensível do que o anterior, cujo resultado foi um novo e ainda mais amarelo sorriso. Mas por sorte, ou por fatalidade, um conterrâneo veio ao seu socorro. Sorriso simpático, ginga de quem vem de onde vem mesmo. Ofereceu ajuda, que foi aceita. Acabou na salinha, tão temida e cheia de histórias reais e imaginárias, mas que povoa a mente, obviamente em forma dos piores pesadelos, de qualquer imigrante que almeja chegar ao seu “pote de ouro”. Saiu ileso, comprovando que a eficiência americana ainda não aprendeu a ler mentes e tampouco perceber intenções.

Através das portas automáticas, que o separavam do calor de quase 40 graus, avistou seu anfitrião que tranqüilo o esperava. Sorrisos e abraços quase desconhecidos abrandaram o medo da aventura que idealizou durante um longo período de sua existência recente.

Arrumou trabalho em seu primeiro dia na terra estrangeira. Foi tomar café numa padaria brasileira, porque padaria é coisa de gringo na América! Um sujeito bonachão lhe perguntou se queria trabalho. Ele aceitou. Ganhava pouco, trabalhava muito, mas tinha que começar de alguma maneira. É a cadeia hereditária. Antes de ser explorado por um americano, o imigrante necessariamente tem que ser explorado por um dos seus...

Acabou que foi para a escola. Não podia viver com a vergonha de nunca ter aprendido aquele idioma tão bem falado pelas poucas criancinhas que encontrava aos domingos, quando saía para caminhar no parque. Sabia que se não dominasse o idioma não ia passar de um zé ninguém (leia-se, ajudante do auxiliar do assessor...).

Passou muitas situações que por vezes o deprimiam, por vezes o jogavam pra cima, em busca de algo melhor. Aprendeu a ser cauteloso. Aprendeu a cozinhar. Aprendeu a desrespeitar os seus limites. Esqueceu o sonho.
Cada dia que se passava era o hoje. Na América não se pode pensar no amanhã. Ou só se pode pensar nele. Depende da escolha. Trabalha-se dia e noite pensando na tranqüilidade futura, ou no dinheiro que se necessita enviar “ontem” pra mãe, esposa, filhos, marido, cachorro... Porém, sempre há que se trabalhar!

Dormiu brasileiro, acordou americano... não tinha mais tempo para os amigos. Estava sempre muito ocupado com sua vida, problemas ou qualquer outra coisa, que nem sequer lembrava que existia vida fora de seu próprio mundo, criado tão superficialmente e voltado para não menos superficiais objetivos... Precisava consumir. Queria comprar a TV plasma de 89 polegadas, a pick-up cabine dupla que precisava de escada só pra subir ao volante, a casa na beira do canal e o barco reluzente estacionado. Na América se poderia tudo! Bastava trabalhar, todo dia, toda hora... trabalhar! E ele trabalhou... dias e noites sem descanso. Foi humilhado por gente arrogante, mas não desistiu... porque o que importava agora era conquistar sua estabilidade financeira. E ganhou mais dinheiro. E cada uma das coisas que desejou comprar no passado, se transformou em conquista. E cada conquista se mostrava insuficiente aos seus olhos. E queria mais. Até que um dia notou que a imponência dos bens materiais que havia adquirido não havia preenchido aquela “falta de alguma coisa” que existia em sua vida.

Como homem inteligente que era, deduziu que o que lhe faltava não era nada que o dinheiro, tão cultivado na tal terra promissora, pudesse pagar. Sentiu falta da família. Dos amigos de longa data. Dos amigos do escritório. E, realmente, começou a se assustar quando passou a sentir falta dos inimigos. Sentia a melancolia dos dias úmidos aderindo aos seus poros e penetrando em seu interior, impregnando seu espírito e ocupando a sua mente como ferrugem. Quis lutar contra a tristeza. Tentou derrotar a depressão. Insistiu em encontrar uma razão para continuar. E lembrou-se que, apesar de viver numa terra distante, apesar de ter se influenciado por uma nova cultura, e, ainda que pudesse ser considerado cidadão, era BRASILEIRO e tinha um coração verde e amarelo que pulsava e insistia em buscar a verdadeira felicidade. Lembrou-se de toda a sua trajetória. Era sua lição de vida. E agora era hora de aplicar o que aprendeu. Com poucas malas e muita bagagem de vida, aguardou pacientemente o vôo que o levaria de volta ao seu sonho, americano, porém um pouco mais ao sul.


 


*  Denise Lazari Vieira é paulistana, está nos EUA há três anos e mora em Cocunut Creek. Ela participou do Prêmio AcheiUSA de Literatura com este conto e recebeu a menção honrosa

Copyright 2005 © acheiusa.com - Todos os direitos reservados.


Edições anteriores:   
 

 

 

Copyright ©  acheiusa.com - webmaster@acheiusa.com - Acessar Intranet -  
Acheiusa is not responsible for the opinions expressed by its contribuiting writers, neither for the content of
the advertised material on it. Signed articles do not represent the opinion of the newspaper.