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No Brasil, o sonho era americano...
Por
Denise Lazari Vieira*
Acordou ao ouvir a voz metálica dizendo qualquer coisa
incompreensível, porém, pela movimentação, lhe pareceu ser um aviso
de que poderia sair daquelas paredes metálicas e frias que o
abrigaram nas últimas sete horas.
Olhou para os lados e certificou-se de que estava realmente sozinho.
Sua família, seus amigos, sua velha vida haviam sido abandonados no
cinzento aeroporto de Guarulhos. A cada palavra que era grunhida ao
alto falante, seu coração saltava e o peso do seu aprendizado
limitado se tornava insustentável. Ainda se questionava porque não
havia assistido às aulas de inglês ao invés de fugir delas para
jogar sinuca no boteco em frente à faculdade (e por que sempre havia
um boteco?).
Enfim, decidiu seguir o fluxo e acabou enfileirado junto a vários
outros que talvez estivessem na mesma situação, mas continuavam
calados e mostrando-se donos de si. A cada passo que o aproximava do
final da fila era um avanço ao terror que se apoderava de suas
entranhas. Se o homem cismasse com ele, justo com ele...
Sorriu. Sorriso amarelo, já que o sujeito balbuciava qualquer coisa
em um idioma próximo ao aramaico pré-histórico (ou seria seu estado
de tensão que o impossibilitava de diagnosticar ao certo o idioma?).
Por fim, o cara até bacana, experimentou arriscar um novo idioma,
este ainda menos compreensível do que o anterior, cujo resultado foi
um novo e ainda mais amarelo sorriso. Mas por sorte, ou por
fatalidade, um conterrâneo veio ao seu socorro. Sorriso simpático,
ginga de quem vem de onde vem mesmo. Ofereceu ajuda, que foi aceita.
Acabou na salinha, tão temida e cheia de histórias reais e
imaginárias, mas que povoa a mente, obviamente em forma dos piores
pesadelos, de qualquer imigrante que almeja chegar ao seu “pote de
ouro”. Saiu ileso, comprovando que a eficiência americana ainda não
aprendeu a ler mentes e tampouco perceber intenções.
Através das portas automáticas, que o separavam do calor de quase 40
graus, avistou seu anfitrião que tranqüilo o esperava. Sorrisos e
abraços quase desconhecidos abrandaram o medo da aventura que
idealizou durante um longo período de sua existência recente.
Arrumou trabalho em seu primeiro dia na terra estrangeira. Foi tomar
café numa padaria brasileira, porque padaria é coisa de gringo na
América! Um sujeito bonachão lhe perguntou se queria trabalho. Ele
aceitou. Ganhava pouco, trabalhava muito, mas tinha que começar de
alguma maneira. É a cadeia hereditária. Antes de ser explorado por
um americano, o imigrante necessariamente tem que ser explorado por
um dos seus...
Acabou que foi para a escola. Não podia viver com a vergonha de
nunca ter aprendido aquele idioma tão bem falado pelas poucas
criancinhas que encontrava aos domingos, quando saía para caminhar
no parque. Sabia que se não dominasse o idioma não ia passar de um
zé ninguém (leia-se, ajudante do auxiliar do assessor...).
Passou muitas situações que por vezes o deprimiam, por vezes o
jogavam pra cima, em busca de algo melhor. Aprendeu a ser cauteloso.
Aprendeu a cozinhar. Aprendeu a desrespeitar os seus limites.
Esqueceu o sonho.
Cada dia que se passava era o hoje. Na América não se pode pensar no
amanhã. Ou só se pode pensar nele. Depende da escolha. Trabalha-se
dia e noite pensando na tranqüilidade futura, ou no dinheiro que se
necessita enviar “ontem” pra mãe, esposa, filhos, marido, cachorro...
Porém, sempre há que se trabalhar!
Dormiu brasileiro, acordou americano... não tinha mais tempo para os
amigos. Estava sempre muito ocupado com sua vida, problemas ou
qualquer outra coisa, que nem sequer lembrava que existia vida fora
de seu próprio mundo, criado tão superficialmente e voltado para não
menos superficiais objetivos... Precisava consumir. Queria comprar a
TV plasma de 89 polegadas, a pick-up cabine dupla que precisava de
escada só pra subir ao volante, a casa na beira do canal e o barco
reluzente estacionado. Na América se poderia tudo! Bastava trabalhar,
todo dia, toda hora... trabalhar! E ele trabalhou... dias e noites
sem descanso. Foi humilhado por gente arrogante, mas não desistiu...
porque o que importava agora era conquistar sua estabilidade
financeira. E ganhou mais dinheiro. E cada uma das coisas que
desejou comprar no passado, se transformou em conquista. E cada
conquista se mostrava insuficiente aos seus olhos. E queria mais.
Até que um dia notou que a imponência dos bens materiais que havia
adquirido não havia preenchido aquela “falta de alguma coisa” que
existia em sua vida.
Como homem inteligente que era, deduziu que o que lhe faltava não
era nada que o dinheiro, tão cultivado na tal terra promissora,
pudesse pagar. Sentiu falta da família. Dos amigos de longa data.
Dos amigos do escritório. E, realmente, começou a se assustar quando
passou a sentir falta dos inimigos. Sentia a melancolia dos dias
úmidos aderindo aos seus poros e penetrando em seu interior,
impregnando seu espírito e ocupando a sua mente como ferrugem. Quis
lutar contra a tristeza. Tentou derrotar a depressão. Insistiu em
encontrar uma razão para continuar. E lembrou-se que, apesar de
viver numa terra distante, apesar de ter se influenciado por uma
nova cultura, e, ainda que pudesse ser considerado cidadão, era
BRASILEIRO e tinha um coração verde e amarelo que pulsava e insistia
em buscar a verdadeira felicidade. Lembrou-se de toda a sua
trajetória. Era sua lição de vida. E agora era hora de aplicar o que
aprendeu. Com poucas malas e muita bagagem de vida, aguardou
pacientemente o vôo que o levaria de volta ao seu sonho, americano,
porém um pouco mais ao sul.
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