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Belarmina
Rogério
Marques Vieira *
Duas coisas não saíam da minha cabeça, enquanto estava em um vôo de
São Paulo para a cidade do México: a primeira, como encontrar
Belarmina; e a outra, como convencê-la a voltar para casa.
Contudo, antes de reencontrá-la, primeiro eu teria que sobreviver a
uma viagem incerta. E, por diversas vezes, ouvira estórias sobre
travessias pelo México e seus riscos. Mas, sem ter outra alternativa,
pois, o meu visto americano fora negado, tomei o caminho mais
difícil e arriscado.
Durante o vôo, eu não parava de pensar no que me levou a embarcar
nessa aventura: estava casado há dez anos com Bela. Numa noite,
voltei para casa, como sempre, de madrugada, e a cama estava vazia.
Nossos filhos estavam com a mãe dela, de férias. Nenhuma carta,
apenas o vazio da sua presença.
Por horas, fiquei olhando aquela cama desarrumada e nunca pensei o
quanto Bela era importante. Outrora, ela sempre estava ali. Como uma
mãe, todos os dias, sempre receptiva. Somente no dia seguinte, eu
soube o que acontecera. Bela havia viajado para a América. Segundo
sua mãe, que morava em Campinas, ela cansara das minhas saídas
noturnas. “Mas como?”, me perguntava. Ela nunca se mostrou
insatisfeita. Parecia sempre muito amável.
Por alguns dias, sofri e chorei por sua ausência. Neguei-me a ver
meus filhos, não suportava algo que trouxesse a lembrança de Bela.
Eu precisava tê-la de volta.
Dias depois, tomei a decisão. Abandonei tudo em busca da minha amada.
Precisava reparar o meu erro.
A travessia
Cruzei o México, escondido numa carreta. O perigo me parecia como
parte de um pagamento, da qual eu fazia para pagar os meus pecados.
Contudo, nada, aliava a dor da minha alma. Me sentia mergulhado em
ressentimentos, os mais diversos...
Chegar em solo americano, demorou alguns dias. Agora, era só
encontrar Belarmina.
Florida
Havia indícios de sua presença no sul da Flórida, devido à presença
de seus parentes. Rumei então para Pompano Beach. A cada hora eu me
sentia mais perto dela. Contudo, o meu pavor aumentava. Não sabia
qual seria sua reação.
Depois de 40 horas de viagem, cheguei a Pompano. A cidade me pareceu
familiar. Reconheci em muitos a minha gente. Durante dias vaguei
pela cidade em busca de respostas, sem êxito. Mas já descobrira onde
morava seus parentes. No dia seguinte, fui para a casa de sua prima
Angélica, em Boca Raton.
- Pedro?
- Oi Angélica! Vim fazer uma visita – respondi com naturalidade, mas
percebendo o seu espanto a minha presença. - Cadê a Bela?
- Pensei ouvir de você essa resposta. Juro que não sei dela -
respondeu Angélica.
Ouvindo aquilo, e daquela forma, me dei conta que não teria nenhuma
notícia de Bela entre os seus. Precisava caminhar por conta própria.
Por alguns dias, continuei a minha busca sem sucesso. Mas a minha
situação financeira impediu uma busca contínua. Arrumei um emprego e
fui morar com companheiros de trabalho. O meu trabalho era simples,
mas para um engenheiro trabalhar com madeira e números não seria
difícil. Durante dias, a minha vida era trabalhar durante o dia e
procurar Bela à noite.
Com o passar do tempo, fiquei amigo do meu patrão, Amauri.
Contei-lhe toda a minha vida, e ele sofreu com minha busca. Por sua
vez, ele disse que, ao contrário, estava muito feliz. Encontrara,
pois, a mulher da sua vida.
Aos poucos fomos ficando cada vez mais amigos e por seguidas vezes
neguei-lhe o pedido de conhecer sua nova esposa. Argumentei que não
tinha tempo. Mas precisava encontrar Bela. Eu confesso que sempre
fiquei com inveja do Amauri, quando ele comentava sobre sua esposa,
sua meiguice, seus olhos melosos e seus mistérios. Confessou-me que
uma coisa o intrigava: ela nunca falava do seu passado... como se
ele não existisse.
Lamentei a minha inveja e admirei o amor de Amauri. Capaz de passar
por cima de tantas dúvidas e amar profundamente. Naquele instante,
me senti um ser menor, dotado de tamanho egoísmo. Tivera tudo o que
um homem precisa e jogara fora. Pensei em vários tipos de causas sem
interesses....pessoas que são capazes de amar acima de qualquer
coisa; às vezes, dando parte de sua vida para a outra ser feliz.
Passaram-se alguns dias. Depois de tanto insistir, topei almoçar na
casa do Amauri. Era domingo, um dia chuvoso. Não sei explicar o
porquê, sentia um grande aperto no peito, minha respiração estava
ofegante. Mas tinha combinado e não iria desistir. Iria chegar ao
meio dia, queria ficar pouco tempo. Não estava me sentido bem.
Concordei, apenas, por ser ele o melhor amigo que encontrei na
América.
Estacionei o carro a poucos metros da casa e fui caminhando. Não sei
explicar. Mas sentia que algo iria acontecer. Aos poucos, meu corpo
foi gelando enquanto eu ia de encontro à porta principal, minhas
pernas ficaram trêmulas. Era a voz de Bela... e vinha de dentro da
casa. Por alguns instantes, fiquei paralisado, não tive qualquer
reação naqueles segundos. E, olhando entre as frestas das cortinas,
vi o seu sorriso, seus olhos meigos. Eu não tinha o direito de fazê-la
infeliz outra vez. Virei as costas e fui embora, e nunca mais vi a
única mulher que amei na vida.
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