Brazilian Classifieds Ads
Seu classificado em destaque no acheiusa.com!
BUSCA: Google    AcheiUSA  Internet 

Edição atual, clique para ampliar.
Ano 10 - Edição 307

PRÊMIO ACHEIUSA DE LITERATURA

**Menção honrosa

Achei América

  Una Proença *


Vi, ora se vi, gente que vinha à América em busca de sobrevivência. Vi quem fugia da violência, e formou aqui os Seqüestrados Anônimos. E vi que, de fato, machucaram a história, no 9-11.

Achei toda sorte de casamentos, amores à primeira vista e amores abusivos.
Vi quem atravessou fronteira a nado e arrastou-se no deserto e vi quem desembarcou em jatinho particular. Achei a costa californiana linda como a brasileira, com a aridez do nordeste brasileiro. Achei o deserto quente e deserto demais, o Joshua Tree Park e o Death Valley; o sertão e suas veredas.

Achei New Orleans parecida com Salvador em seu gumbo-caruru, seu voodoo-macumba e seu mardi-gras-carnaval. Cantei “Do you know what it means to miss New Orleans?..” sem imaginar que um furacão de nome Katrina faria aquele povo humilde cantar a distância da cidade evacuada e prantear “Just a closer walk with Thee..”.

Achei que Deus realmente deveria prevalecer também no Pledge of Allegiance porque a esperança está em ser uma nação ‘under God, truly‘.
Achei ambas as Disney sedutoras. Soube das fraquezas do Walt, mas quase todo gênio as tem. Importa é a obra, que fica.

Vi, triste, brasileiros, enganando-se e a ‘gringos‘, mas a maior parte, extremamente ajudada também por brasileiros. Gente colonizada não gosta de seu povo; ignora que o outro é parte de si, identidade cultural.

Achei a vida tão rápida na América, tanta tecnologia e opção; cansa escolher.
Comemorei o 4 de Julho mais do que o 7 de Setembro, e não entendi bem o porquê.

Encontrei uma pungente e pobre parcela do povo a necessitar doações. Mas a maioria, assistida pela distribuição de renda, contenta-se. E os aproveitadores, por vezes com salários razoáveis, explorando com artifícios o sistema assistencial.

Vi gente muito humilde e prestativa, e vi gente muito rica e igualmente modesta e solidária, reforçando que não há regras em nada disso, e que ‘nem tudo está perdido’.

Vi pseudo-tudo: médicos, advogados, dentistas, e até escritores e jornalistas; punidos quando denunciados.
E vi o esdrúxulo: em certos lugares da América, amamentar em público é polêmica…

Achei gente feliz por freqüentar restaurantes... e um que dizia: só não como abóbora. É que, em sua pobreza de origem, comia abóbora em caldo no café e no almoço, e cozida no jantar.

E na imprevisível Califórnia, vi brasileiro que juntou dinheiros alugando um quitinete, as paredes, para quatro estrangeiros - um francês, um marroquino, um americano e um japonês. Depois de sete anos, realizou seu sonho e trouxe a noiva (que pensei ser imaginária) para casar-se e viver o ‘American Dream’.

Vi gente que veio para a América não por opção, mas por falta de. E vi americanos sensíveis e carinhosos, até sem preconceito algum.
Notei que as praias da Flórida têm areia branca e fina, água clara e quente, e as da Califórnia, tem areia escura e grossa, água turva e fria.
Brasileiro no Havaí falou: “se sua pele é branca; os deuses locais não gostam..” No Brasil, Deus era um só e, ainda por cima, brasileiro. Mas não tinha isso de pele, não...

Em Beverly Hills, me nascia uma criança quando o velho Sinatra morria, e lembrei que cantarolo “New York, New York“ inevitavelmente, quando na Big Apple. O anúncio do Citybank diz tudo: “the city that never sleeps”.
Arrisco que Las Vegas é um grande ‘inferninho de Copacabana’, mas lá tem o Hoover Dam que nos remete a Foz do Iguaçu e suas cataratas, e de volta a N.Y. e suas Niagara Falls.

No far-west, achei muita divisão racial, religiosa, social, cultural e econômica. Achei o povo do east-coast bem mais amistoso entre si e entre outros. Fatalismo geográfico?

Vi muito bem o quanto são importantes consulados, se bem conduzidos. O nosso na Flórida, cumpre dignamente suas tarefas-missões. O cônsul, despido de vaidades ou status, não raro vem ao saguão do consulado atender-nos pessoalmente, com fidalguia e plena boa-vontade.

Achei-me imigrante, tal como Colombo e os peregrinos. Achei também o Brasil na América, e a América em mim. Mas como cantava Sinatra, “I did it my way!..”, ou, ainda nela, América, empenhei “All of me..”. Assim, vi, e achei América.


 


* Una Proença é jornalista, carioca e vive em Coconut Creek. Está nos Estados Unidos há cinco anos e recebeu, com este conto, a Menção Honrosa no Prêmio AcheiUSA de Literatura.

Copyright 2005 © acheiusa.com - Todos os direitos reservados.


Edições anteriores:   
 

 

 

Copyright ©  acheiusa.com - webmaster@acheiusa.com - Acessar Intranet -  
Acheiusa is not responsible for the opinions expressed by its contribuiting writers, neither for the content of
the advertised material on it. Signed articles do not represent the opinion of the newspaper.