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Achei América
Una Proença *
Vi, ora se vi, gente que vinha à América em busca de sobrevivência.
Vi quem fugia da violência, e formou aqui os Seqüestrados Anônimos.
E vi que, de fato, machucaram a história, no 9-11.
Achei toda sorte de casamentos, amores à primeira vista e amores
abusivos.
Vi quem atravessou fronteira a nado e arrastou-se no deserto e vi
quem desembarcou em jatinho particular. Achei a costa californiana
linda como a brasileira, com a aridez do nordeste brasileiro. Achei
o deserto quente e deserto demais, o Joshua Tree Park e o Death
Valley; o sertão e suas veredas.
Achei New Orleans parecida com Salvador em seu gumbo-caruru, seu
voodoo-macumba e seu mardi-gras-carnaval. Cantei “Do you know what
it means to miss New Orleans?..” sem imaginar que um furacão de nome
Katrina faria aquele povo humilde cantar a distância da cidade
evacuada e prantear “Just a closer walk with Thee..”.
Achei que Deus realmente deveria prevalecer também no Pledge of
Allegiance porque a esperança está em ser uma nação ‘under God,
truly‘.
Achei ambas as Disney sedutoras. Soube das fraquezas do Walt, mas
quase todo gênio as tem. Importa é a obra, que fica.
Vi, triste, brasileiros, enganando-se e a ‘gringos‘, mas a maior
parte, extremamente ajudada também por brasileiros. Gente colonizada
não gosta de seu povo; ignora que o outro é parte de si, identidade
cultural.
Achei a vida tão rápida na América, tanta tecnologia e opção; cansa
escolher.
Comemorei o 4 de Julho mais do que o 7 de Setembro, e não entendi
bem o porquê.
Encontrei uma pungente e pobre parcela do povo a necessitar doações.
Mas a maioria, assistida pela distribuição de renda, contenta-se. E
os aproveitadores, por vezes com salários razoáveis, explorando com
artifícios o sistema assistencial.
Vi gente muito humilde e prestativa, e vi gente muito rica e
igualmente modesta e solidária, reforçando que não há regras em nada
disso, e que ‘nem tudo está perdido’.
Vi pseudo-tudo: médicos, advogados, dentistas, e até escritores e
jornalistas; punidos quando denunciados.
E vi o esdrúxulo: em certos lugares da América, amamentar em público
é polêmica…
Achei gente feliz por freqüentar restaurantes... e um que dizia: só
não como abóbora. É que, em sua pobreza de origem, comia abóbora em
caldo no café e no almoço, e cozida no jantar.
E na imprevisível Califórnia, vi brasileiro que juntou dinheiros
alugando um quitinete, as paredes, para quatro estrangeiros - um
francês, um marroquino, um americano e um japonês. Depois de sete
anos, realizou seu sonho e trouxe a noiva (que pensei ser imaginária)
para casar-se e viver o ‘American Dream’.
Vi gente que veio para a América não por opção, mas por falta de. E
vi americanos sensíveis e carinhosos, até sem preconceito algum.
Notei que as praias da Flórida têm areia branca e fina, água clara e
quente, e as da Califórnia, tem areia escura e grossa, água turva e
fria.
Brasileiro no Havaí falou: “se sua pele é branca; os deuses locais
não gostam..” No Brasil, Deus era um só e, ainda por cima,
brasileiro. Mas não tinha isso de pele, não...
Em Beverly Hills, me nascia uma criança quando o velho Sinatra
morria, e lembrei que cantarolo “New York, New York“ inevitavelmente,
quando na Big Apple. O anúncio do Citybank diz tudo: “the city that
never sleeps”.
Arrisco que Las Vegas é um grande ‘inferninho de Copacabana’, mas lá
tem o Hoover Dam que nos remete a Foz do Iguaçu e suas cataratas, e
de volta a N.Y. e suas Niagara Falls.
No far-west, achei muita divisão racial, religiosa, social, cultural
e econômica. Achei o povo do east-coast bem mais amistoso entre si e
entre outros. Fatalismo geográfico?
Vi muito bem o quanto são importantes consulados, se bem conduzidos.
O nosso na Flórida, cumpre dignamente suas tarefas-missões. O cônsul,
despido de vaidades ou status, não raro vem ao saguão do consulado
atender-nos pessoalmente, com fidalguia e plena boa-vontade.
Achei-me imigrante, tal como Colombo e os peregrinos. Achei também o
Brasil na América, e a América em mim. Mas como cantava Sinatra, “I
did it my way!..”, ou, ainda nela, América, empenhei “All of me..”.
Assim, vi, e achei América.
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