Familiares de
brasileiros baleados planejam ação na Justiça
O
caso dos brasileiros baleados por policiais no condomínio Heritage Circle,
em Deerfield Beach, vai acabar na Justiça. Pelo menos é isso que garantem os
familiares de Júnior Patrício de Sá, morto com pelo menos três tiros, e
Adonirio Silva, que foi baleado, mas passa bem depois de ser submetido a uma
cirurgia na barriga. O objetivo é entrar com uma ação indenizatória, pois a
operação policial foi considerada por eles imprópria: “Eles não podiam fazer
aquilo, os brasileiros não são bandidos”, afirmou Neusa Neves, irmã de
Júnior; “Foi uma covardia”, corroborou Adonirio, que recebeu alta do North
Broward Medical Center no dia 14 de março.
As duas famílias já procuraram escritórios de advocacia especializados na
matéria para ingressar na Justiça. “Casos como este não costumam ficar
impunes neste país. Além do mais, os brasileiros não podem ser assassinados
pelos policiais a todo o momento”, acrescentou Neusa, que mora em
Indianápolis e veio à Flórida somente para conseguir a liberação do corpo de
Júnior. Mineiro de Caratinga, ele deve ser enterrado em sua cidade natal, no
final de março.
Já o paulista Adonirio vem se recuperando bem, depois de passar por uma
cirurgia que durou mais de quatro horas. Ele foi baleado duas vezes e um dos
tiros perfurou o estômago e o intestino: “O médico disse que por dois
centímetros a bala não atinge o pulmão, o que seria fatal”, contou a
namorada de Adonirio, a também brasileira Mônica Wrobleski.
Medo dos brasileiros
Os dois planejavam ficar noivos em breve, mas o incidente acabou adiando os
planos. A volta ao trabalho na área de construção também deve acontecer só
no mês que vem: Adonirio, de 47 anos, terá que ficar de repouso por mais
três semanas. Durante o período de internação, ele não recebeu muitas
visitas. Segundo Mônica, os brasileiros não foram ao Hospital por medo de
serem abordados por alguém ligado ao serviço de imigração.
Operação policial foi
discriminatória e covarde, diz vítima
Para o casal, a operação
policial teve um ingrediente discriminatório. “Os norte-americanos, com
algumas exceções, têm preconceito contra os imigrantes.
Eles sabiam que éramos brasileiros e já chegaram atirando. Não havia
necessidade para tanta violência”, lamentou Adonirio. Ele não escondeu que o
seu roommate estava com uma faca nas mãos, mas revelou que o mineiro
provavelmente estava delirando: “Ele dizia que alguém queria matá-lo e
ficava correndo de um lado para o outro, muito agitado”.
Pela sua versão, Júnior chegou a lhe dar uma gravata, mas os dois eram muito
amigos e não houve discussão acerca do pagamento do aluguel e nem estavam
bêbados, como foi ventilado pela porta-voz do Broward Sheriff’s Office.
Adonirio, que no Brasil era motorista de transporte alternativo, quer deixar
para trás todo este pesadelo, voltar para o Brasil algum dia, para abrir seu
próprio negócio e voltar ao convívio de seus três filhos. Ele, porém, ainda
quer finalizar o curso de enfermagem e ganhar algum dinheiro, que pode vir
pelas vias da Justiça norte-americana. “Afinal, só o custo do hospital deve
ficar em mais de 200 mil dólares e a indenização terá que cobrir estes
gastos”, calcula Mônica.
Segundo um advogado de Broward, que preferiu não se identificar, o valor da
ação na Justiça pode passar de 800 mil dólares: “A grande questão é provar
que não havia risco de vida no desentendimento entre os dois brasileiros”,
disse o advogado. Há quase dois anos, um outro brasileiro, Jean Charles, foi
morto por policiais no metrô de Londres e a família teria direito, segundo
especialistas, a cerca de US$ 1,5 milhão de indenização.
Os dois oficiais do BSO, officers Vincent Campos e James Morrisor, continuam
suspensos das atividades normais e são alvo de um processo administrativo
para apurar as circunstâncias daquela operação.
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