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Ano 8 - Edição 204

Auto-estima em foco

Exposição mostra imagens de projeto realizado com adolescentes de El Salvador. Iniciativa deve ser repetida no Brasil

A imagem que um país reflete ao resto do mundo pode ser tão importante quanto a imagem que uma pessoa tem de seu próprio país. Essa é a maior lição da exposição instalada no Miami Dade College, El Salvador Revelado: Imagens de uma Nova Geração, de Barry Gordon, atual diretor executivo do Cable-TAP, o canal de televisão da faculdade. Nos anos 80, Gordon vivia em Los Angeles, trabalhando em Hollywood ocasionalmente, e seus melhores amigos salvadorenhos contavam que El Salvador não era bem tratada pelos filmes hollywoodianos, que sua situação não estava bem descrita e que aquela não era a verdadeira imagem do país. Gordon passou a sentir uma imensa necessidade de viajar à América Central, ao menor país do hemisfério.

Ótica cultural

“Vejo as coisas não apenas por seu lado cultural. Gosto de observá-las culturalmente, e vi que o país tinha muito a oferecer, além das inúmeras paisagens referenciais maravilhosas”, afirma Gordon, que organizou o projeto auxiliado pelo Concultura (Consejo Nacional de la Cultura y el Arte). Quando, em 2005, passou as férias em El Salvador, encontrou-se com Dr. José Manuel Bonilla, diretor do conselho, e, já tendo previamente explicado seus planos, o encontrou e deu largada a uma longa e rica expedição por toda a costa salvadorenha. Para cada Casa da Cultura (1 por Departamento, totalizando 14 Casas), cada líder encontraria três alunos: um do primeiro, outro do segundo ciclo do Ensino Fundamental, e um do Ensino Médio. “Se eles tivessem interesse em fotografia, tudo bem,” relembra Gordon. “Se não, também.”

Em pouco tempo o Professor receberia a lista das 43 crianças. “Uma criança a mais apareceu, porque pensava precisar substituir outro aluno, mas nós não mandamos ninguém para casa”, afirma, orgulhosamente.

Fotógrafos-mirins

Acompanhado de Mario, um ex-aluno salvadorenho que demonstrou interesse em participar e colaborou na organização de todo o projeto, encontrava-se com os alunos de cada cidade às 7 da manhã, todos os dias. Ensinava o uso da câmera até às 8h e, até o meio-dia, caminhava com as crianças por suas próprias vilas, levando uma câmera na mão para cada grupo de alunos. “Se tivesse levado três câmeras, as crianças provavelmente tirariam muitas fotos repetidas,” explica Gordon. Assim, alternava-se a lente e seu foco, e os fotógrafos-mirins por algumas horas aprendiam sobre luzes, ângulos e outros truques do ofício. De 13h30 às 17h, repetiam o processo. Jantavam, viajavam à próxima vila, dormiam em alguma Casa da Cultura, ou encontravam hospedagem em casas de nativos, todos muito abertos e honrados pela visita do norte-americano e sua equipe de filmagem.

A exposição está instalada acima da livraria do MDC, North Campus, ente as salas de computação da instituição. Com os simpáticos funcionários do balcão principal, basta deixar a carteira de motorista e pegar um fone especial para ouvir a narração da fantástica jornada e apreciar as fotos feitas pelos meninos e meninas das mais variadas idades. Na equipe – de duas presentes – liderada por Gordon, as fotos são diversificadas. Algumas mostram o amigável sorveteiro, a corriqueira “pelada”, a velha bica d’água ou a marimba, instrumento de teclas rústico, tradicional em El Salvador. Outras imagens têm um teor saudoso, pessoal, que acaba se transformando em histórico, como se a todos importasse aquele relógio esquecido pelo tempo que um menino conta ter parado de funcionar desde seu nascimento, há 17 anos.

Exposição em El Salvador

No dia 1º de outubro, o Més del Niño (Mês da Criança), em El Salvador, às 18h, ocorrerá a exposição no país que hospedou a jornada. “Traremos todas as crianças,” conta Gordon, “de todos os vilarejos e cidades.Teremos um DVD, e distribuiremos diplomas simbólicos às crianças que participaram no projeto. Estou até pensando em mandar fazer algumas camisetas, alguns brindes...”

A imagem de um país começa de dentro para fora, mas, às vezes, é preciso que de fora ressurja alguma inspiração, como a que Barry Gordon deu ao menor – e agora grandioso – país da América Latina. Por que não ajudá-lo a trazer o projeto ao Brasil? Nossa grande – e tão complexada – pátria certamente o agradecerá. Gordon pretende alcançar dois claros objetivos realizando-o por toda a América Latina, África, Ásia, Oriente Médio, Europa ou Oceania. O primeiro é mostrar uma imagem diferente da região escolhida. Em segundo lugar, Gordon pretende incentivar uma melhor auto-imagem aos nativos da escolhida região.

Quando ensinou às crianças e adolescentes o uso das máquinas fotográficas, subia nas cadeiras e pedia que se aproximassem e percebessem a diferença que existe entre sua imagem vista de uma perspectiva comum e daquele ângulo, de cima para baixo, enaltecendo o tamanho e a importância da figura do próprio professor. Todos aprenderam muito mais do que o manuseio de uma câmera comum com um filme de 35mm, preto e branco. Aprenderam a dar mais valor às próprias vilas, essas que abrigam suas famílias desde muitos anos antes de seus nascimentos. Quando Gordon passava por alguma ruína, assumia a consciência de apontá-la e questionar: “Quando vão restaurar este prédio?
Quando restaurarão esta venda?” As crianças procuravam suas respostas, mas sabiam que, se não elas, ninguém reconstruirá suas vilas ou se lembrará da rica história de suas regiões.

O Brasil precisa disso, certamente, e Barry Gordon já avisa: “Estou estudando português há três semestres e pretendo visitar o Brasil em breve”. Através da divulgação de seu projeto, Gordon pretende organizar uma expedição a algum estado ou, quem sabe e por que não, a todo o país. Amantes da fotografia, manifestem-se.

 

Por Roy Frenkiel - AcheiUSA Newspaper
 


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