Brasil pode perder
uma geração de brasileiros
Brasileirinhos
Apátridas é o nome de um movimento criado para regularizar a situação de
muitas crianças brasileiras que nasceram em outro país no momento em que
seus pais moravam em outro país.
Um dos grandes batalhadores para corrigir esse erro tem sido o jornalista
Rui Martins, que vive em Berna, na Suíça. Num texto intitulado ‘Apátridas
por distração’, ele explica com propriedade como uma distração parlamentar
pode atrapalhar – e muito! – a situação de milhares de pessoas.
“Algumas centenas de milhares de crianças, que falam português e se orgulham
da camisa verde-amarela, podem não ter direito a sentir-se brasileiras. São
os filhos dos brasileiros nascidos no estrangeiro, destituídos da
nacionalidade brasileira. Os emigrantes brasileiros – mais de quatro milhões
espalhados pelo mundo, que contribuem com seis bilhões de dólares enviados
anualmente para o Brasil – estão descobrindo, entre a surpresa e a revolta,
os efeitos de um erro cometido pelo Congresso, na revisão da Constituição,
em 1994: os seus filhos, nascidos no estrangeiro, já não são brasileiros
natos”
Segundo Rui Martins, o aumento do número de filhos de brasileiros nestas
condições faz ressaltar essa injustiça, mas frisa que não se trata de um
fato recente. “Os bebês filhos de brasileiros foram despatriados da
nacionalidade dos pais há 13 anos. Ora, nesse período, o Congresso
brasileiro já se reuniu diversas vezes, com o quórum suficiente para
corrigir a Constituição. Mas deputados e os senadores sempre se esquecem”,
ressalta o jornalista.
Ele continua o texto dizendo que, embora recebam um passaporte verde,
provisório, centenas de milhares de brasileirinhos despatriados poderão
tornar-se apátridas aos 18 anos, quando os seus passaportes caducarem, se
viverem em países com nacionalidade regida pelo jus sanguinis (direito pelo
sangue). “A situação é estranha, quando se sabe que os estrangeiros nascidos
no Brasil adquirem automaticamente a nacionalidade brasileira, garantida
pelo jus soli (em função do local do nascimento). E torna-se absurda quando
se lembra que, durante a ditadura militar, os brasileiros refugiados no
estrangeiro tinham garantida a nacionalidade para os seus filhos. Hoje,
muitos deles estão até no governo, e têm filhos brasileiros nascidos no
Chile ou na França, como é o caso do governador de São Paulo, José Serra”,
resume Rui.
O artigo lembra que o chamado erro ou “distração dos legisladores” ocorreu
na comissão de revisão da nova Constituição, durante o governo do presidente
Itamar Franco. Foi esquecido o velho artigo que garantia a condição de
brasileiros natos aos filhos de pai ou mãe brasileiros nascidos no exterior.
No entanto, acabou aprovada uma emenda, mais tarde transformada no artigo
12, inciso 1, letra C, da nova Constituição, que determina que os filhos de
brasileiros são obrigados a viver no Brasil, antes dos 18 anos, para obter a
nacionalidade. “Trata-se da nacionalidade por opção, que exclui a
possibilidade de dupla nacionalidade, no caso de ter a mesma, estrangeira,
da mãe ou do pai”, afirma Rui, acrescentando que o processo terá de ser
instruído pela Polícia Federal.
Logo depois de aprovada a nova Constituição, os consulados brasileiros ao
redor do mundo não sabiam como registrar os filhos de brasileiros emigrantes.
“Se o pai e a mãe eram brasileiros, num país de jus sanguinis, que não
concede a nacionalidade a estrangeiros, como a Suíça e muitos países
asiáticos, o bebê era legalmente apátrida”, explica Rui. Em função dos
protestos, o governo adotou uma medida provisória, criando o passaporte
brasileiro provisório, que hoje assumiu caráter definitivo, pelo
esquecimento dos legisladores. “Para evitar, assim, o confronto com os pais,
o carimbo do passaporte provisório tornou-se mais discreto. Agora, diz
apenas: passaporte concedido nos termos do artigo 12, inciso 1, letra C, da
Constituição. O cidadão brasileiro vê o carimbo, não percebe, não pergunta
e, como o filho recebe um passaporte verde igual ao seu, pensa que tem um
filho brasileiro”, adverte o jornalista.
E ele destaca dois fatos curiosos: “O ex-presidente Itamar Franco, sob cujo
governo ‘desapareceu’ o importante parágrafo, nasceu em alto-mar, fora das
águas territoriais brasileiras. Tivesse nascido hoje, seria estrangeiro. E
passa-se o mesmo com outro ex-presidente, Fernando Henrique Cardoso, que
teria nascido, em 1931, em Berlim, e não no Rio de Janeiro, como consta da
sua certidão de nascimento”.
Emenda
poderá corrigir o problema
Para corrigir
a distorção, os integrantes da Comissão Parlamentar encarregada da
nacionalidade dos filhos dos emigrantes, entre eles os deputados Carlito
Mers, Leo Alcântara e Rita Camata, querem resolver o problema e estão
lutando para que o Congresso vote a Emenda 272.00, que restitui a
nacionalidade nata brasileira aos brasileirinhos do Exterior. “Caso nada
aconteça, a Constituição impedirá que muitos filhos de brasileiros retornem,
já maiores, ao Brasil, como acontece com os filhos de imigrantes portugueses.
Isso porque, como despatriados, precisarão, quando maiores, de vistos de
permanência e serão tratados como os outros estrangeiros, caso desejem viver
no Brasil”, finaliza Rui Martins.
Apesar do tom grandiloqüente do jornalista Rui Martins e da instisfação dos
membros do Movimento Brasileirinhos Apátridas, Rafael Vidal, cônsul-adjunto
do Consulado Geral do Brasil em Miami, afirma que, na prática, nenhum
brasileiro nestas condições deixou de ter seus direitos reconhecidos pelos
juízes que julgam o caso. Vidal assegura que pessoalmente concorda com o
movimento para assegurar diretamente a cidadania dos filhos de brasileiros
nascidos no exterior, com base no jus sanguinis. “Posição, aliás, defendida
também pelo Itamarati”, ressalvou. Portanto, os diplomatas também estão
torcendo para que os parlamentares corrijam esta distorção e recoloquem as
coisas em seus devidos lugares.
“A verdade é que a prática sobrepõe-se à medida. A jurisprudência dos juízes
já reconhece o jus sanguinis e até hoje não conheço ninguém que tenha tido
este direito negado”, finalizou Vidal. Sem dúvida, mas é melhor para todos
que o Legislativo aprove a medida e o presidente Lula sancione a lei que
assegura automaticamente esse direito e diminui os trâmites burocráticos
para se obter algo que já é inerente.
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