Aparecidos
O retrato estonteado era glamouroso, não pelo falso cheiro
de cola e purpurina, ou pelos laços rosados que enfeitavam seu embrulho,
mesmo porque era estonteado por não ter embrulho algum. O aparecido,
tateando a superfície, notava sua idade quase tão ancião quanto o homem que
o deslumbrava. Driblando as rugas de seus próprios olhos, a visão do
aparecido era quase cega. Tateava, tateava, e os poros da fotografia
escorriam pelas pontas de seus dedos velhos. A artrite impedia que
manuseasse a imagem em seus soberbos ângulos, todos, mas o que via o
aparecido parecia familiar.
Lembrava-se do filme recente, com a bela heroína dita
humanista, em caráter de mãe cujo filho desaparecido jamais reapareceu.
Rebuscava da má memória o alguém a acompanhá-lo quando o assistiu, mas tudo
em vão. Exasperava-se, pois perguntava-se se não era ele, também, aquele ou
outro desaparecido. E entre esses pensamentos, o retrato do menino
encapotado, de botinas negras, de face estonteada, de olhar maldoso e da
alma roubada parecia ser o seu.
Assim, esqueceu-se até onde o havia encontrado. “Esse sou eu”,
pensava. “Esse sou eu.”
Das luzes do outono às sombras do verão esqueceu-se em vã
infância. Encarava seu reflexo ao espelho equiparando-o ao semblante do
retrato, e reforçava suas ideias. Batia novas fotos com a enfermidade de sua
imaginação. Sozinho, via-se com estranhos sorrateiros, viam e iam quando
queriam e ele mal reconhecia os passos, quem deixava ou não de bufar, o teor
de nicotina na fumaça dos fumantes, apenas acenava – e logo se esquecia de
ter acenado – aos transeuntes de sua vida como quem implorasse pelo mero
reconhecimento da própria existência. Mas, aos cochichos e sussurros,
continuavam a eterna passagem e repassagem pelo seu apartamento. Assim, o
aparecido vingou tímido em seu silêncio, e não contou a ninguém de sua mais
recente descoberta.
Levava a imagem branca, de fundo e tempos negros, no bolso
esquerdo de seu paletó marrom, próximo ao lenço que enxugava o catarro de
suas narinas e pulmões. A viscosidade da ilustre foto misturava-se aos
fluídos de seu corpo desgastado. Esquecia-se dela, às vezes, por dias sem
fim, mas sempre esbarrava quando queria puxar o lenço e assoava o nariz com
o papel amarelado. Recalculava os mesmos pensamentos, mesmo já sem mais
lembrar-se do filme, da atriz humanista ou dos objetos voadores não
identificados. “Esse sou eu”, dizia. “Esse sou eu.”
Certo acaso, um dos desconhecidos ouviu sua chamada. “Esse
sou eu”, apontando o retrato, o menino babão do retrato. Por motivos
esquecidos pelo aparecido, os vultos cochichantes surrupiaram sua
privacidade e levaram-no a outros lugares sinistros, cheios de vazios,
surpresas e sustos. Porém, como todos concordavam com sua única afirmação,
de que fosse o aparecido quem na foto morrera, ali vivo, palpitante, rubro
de desejos espantosos, sentia-se o aparecido em sua própria casa.
Puxavam-no de canto a canto, de terra a terra, por mares e
lagos congelados, por estações atemporais, por planetas estrangeiros, e uns
acreditavam mais do que os outros. “É ele mesmo, o da foto, viste? Lembra
daquele menino sequestrado pelos idos das carochinhas? É ele mesmo, e,
tadinho, lelé do Alzheimer nem se lembra mais quem sequestrou, só lembra que
é ele. E claro que é ele, se não quem? Quem mais tem essa foto no bolso
esquerdo do paletó?”
O problema, o dilema, era que o aparecido esquecera-se dos
tempos verdadeiros, e nem reconhecia a existência da genética ou de ácidos
ribonucleicos. Os testes insossos nem fediam, nem deixavam-se crer. Como
vultos inteiros, de cabeça, face e personalidade íntegras a passarem
desapercebidos pelo aparecido, menos ainda reparava a investigação.
Repentinamente via o mesmo retrato empoeirado que acompanhava seu lenço
catarrento estampado às portas, às paredes, aos espelhos de outros estranhos.
Chegou à conclusão de que, por motivos que lhe fugiam a lembrança, não
mantinha mais conhecidos. Eram todos vultos incolores, inodoros e
incompetentes.
Viu que à face que o calejava tampouco reconhecia o dono.
Viu que a imagem da foto crescia para baixo, e cada dia encolhia um pouco
mais. E os lagos, os mares, as dores dos desconhecidos que o cerceavam nada
mais importavam além de seu próprio desconhecimento. Instantâneo, como a luz
a captar imagens, o aparecido começava a desaparecer. Ia-se com os mares, os
lagos e as dores dos desconhecidos. Ia... Ia... E foi.
No dia seguinte, o filho do aparecido, que tinha nome e era
Saulo, perguntou ao encanador que arrumara o apartamento de seu pai algumas
semanas antes de seu falecimento:
“Vem cá, Renan, não foi você que meteu a ideia na cabeça do
velho que ele era o menino da fotografia?”
O encanador sorriu. Pegou o cheque esperado, colocou na carteira, ajeitou a
carteira ao bolso e despediu-se, sem dar resposta. Quem soube seus motivos?
Quem imaginaria, em imaginação sã, as razões do coração do encanador? E nós,
que apenas soubemos de seu infortúnio, tecemos nossas torpes conclusões.
Quiçá quisera o encanador dar face ao aparecido esquecido. Quiçá assim
merecem todos os aparecidos, que respingam nos noticiários sem querer, sem
sentido algum, e logo desaparecem na obscuridade das massas, esquecidos.
Talvez merecem, afinal, ter as faces reconhecidas por retratos antigos e
apagados, esquecendo-se assim das memórias tenebrosas desses retratos, dando-se
novas faces em uma sociedade moderna, mas para lá de medieval.
Roy Frenkiel, taurino filho de taurino, intenso por
natureza. Nasceu em Israel em 1980, cresceu nos bairros de Higienópolis e
Bom Retiro, em São Paulo. Freqüentou colégios judaicos e em 1996 se mudou
para os EUA. Ciudadano del Mundo, cosmopolita, judeu errante, sendo que é
cidadão de três países.
relimelech@hotmail.com