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Crônicas

Por Roy Frenkiel                                          

Aparecidos

O retrato estonteado era glamouroso, não pelo falso cheiro de cola e purpurina, ou pelos laços rosados que enfeitavam seu embrulho, mesmo porque era estonteado por não ter embrulho algum. O aparecido, tateando a superfície, notava sua idade quase tão ancião quanto o homem que o deslumbrava. Driblando as rugas de seus próprios olhos, a visão do aparecido era quase cega. Tateava, tateava, e os poros da fotografia escorriam pelas pontas de seus dedos velhos. A artrite impedia que manuseasse a imagem em seus soberbos ângulos, todos, mas o que via o aparecido parecia familiar.

Lembrava-se do filme recente, com a bela heroína dita humanista, em caráter de mãe cujo filho desaparecido jamais reapareceu. Rebuscava da má memória o alguém a acompanhá-lo quando o assistiu, mas tudo em vão. Exasperava-se, pois perguntava-se se não era ele, também, aquele ou outro desaparecido. E entre esses pensamentos, o retrato do menino encapotado, de botinas negras, de face estonteada, de olhar maldoso e da alma roubada parecia ser o seu.

Assim, esqueceu-se até onde o havia encontrado. “Esse sou eu”, pensava. “Esse sou eu.”

Das luzes do outono às sombras do verão esqueceu-se em vã infância. Encarava seu reflexo ao espelho equiparando-o ao semblante do retrato, e reforçava suas ideias. Batia novas fotos com a enfermidade de sua imaginação. Sozinho, via-se com estranhos sorrateiros, viam e iam quando queriam e ele mal reconhecia os passos, quem deixava ou não de bufar, o teor de nicotina na fumaça dos fumantes, apenas acenava – e logo se esquecia de ter acenado – aos transeuntes de sua vida como quem implorasse pelo mero reconhecimento da própria existência. Mas, aos cochichos e sussurros, continuavam a eterna passagem e repassagem pelo seu apartamento. Assim, o aparecido vingou tímido em seu silêncio, e não contou a ninguém de sua mais recente descoberta.

Levava a imagem branca, de fundo e tempos negros, no bolso esquerdo de seu paletó marrom, próximo ao lenço que enxugava o catarro de suas narinas e pulmões. A viscosidade da ilustre foto misturava-se aos fluídos de seu corpo desgastado. Esquecia-se dela, às vezes, por dias sem fim, mas sempre esbarrava quando queria puxar o lenço e assoava o nariz com o papel amarelado. Recalculava os mesmos pensamentos, mesmo já sem mais lembrar-se do filme, da atriz humanista ou dos objetos voadores não identificados. “Esse sou eu”, dizia. “Esse sou eu.”

Certo acaso, um dos desconhecidos ouviu sua chamada. “Esse sou eu”, apontando o retrato, o menino babão do retrato. Por motivos esquecidos pelo aparecido, os vultos cochichantes surrupiaram sua privacidade e levaram-no a outros lugares sinistros, cheios de vazios, surpresas e sustos. Porém, como todos concordavam com sua única afirmação, de que fosse o aparecido quem na foto morrera, ali vivo, palpitante, rubro de desejos espantosos, sentia-se o aparecido em sua própria casa.

Puxavam-no de canto a canto, de terra a terra, por mares e lagos congelados, por estações atemporais, por planetas estrangeiros, e uns acreditavam mais do que os outros. “É ele mesmo, o da foto, viste? Lembra daquele menino sequestrado pelos idos das carochinhas? É ele mesmo, e, tadinho, lelé do Alzheimer nem se lembra mais quem sequestrou, só lembra que é ele. E claro que é ele, se não quem? Quem mais tem essa foto no bolso esquerdo do paletó?”

O problema, o dilema, era que o aparecido esquecera-se dos tempos verdadeiros, e nem reconhecia a existência da genética ou de ácidos ribonucleicos. Os testes insossos nem fediam, nem deixavam-se crer. Como vultos inteiros, de cabeça, face e personalidade íntegras a passarem desapercebidos pelo aparecido, menos ainda reparava a investigação. Repentinamente via o mesmo retrato empoeirado que acompanhava seu lenço catarrento estampado às portas, às paredes, aos espelhos de outros estranhos. Chegou à conclusão de que, por motivos que lhe fugiam a lembrança, não mantinha mais conhecidos. Eram todos vultos incolores, inodoros e incompetentes.

Viu que à face que o calejava tampouco reconhecia o dono. Viu que a imagem da foto crescia para baixo, e cada dia encolhia um pouco mais. E os lagos, os mares, as dores dos desconhecidos que o cerceavam nada mais importavam além de seu próprio desconhecimento. Instantâneo, como a luz a captar imagens, o aparecido começava a desaparecer. Ia-se com os mares, os lagos e as dores dos desconhecidos. Ia... Ia... E foi.

No dia seguinte, o filho do aparecido, que tinha nome e era Saulo, perguntou ao encanador que arrumara o apartamento de seu pai algumas semanas antes de seu falecimento:

“Vem cá, Renan, não foi você que meteu a ideia na cabeça do velho que ele era o menino da fotografia?”
O encanador sorriu. Pegou o cheque esperado, colocou na carteira, ajeitou a carteira ao bolso e despediu-se, sem dar resposta. Quem soube seus motivos? Quem imaginaria, em imaginação sã, as razões do coração do encanador? E nós, que apenas soubemos de seu infortúnio, tecemos nossas torpes conclusões. Quiçá quisera o encanador dar face ao aparecido esquecido. Quiçá assim merecem todos os aparecidos, que respingam nos noticiários sem querer, sem sentido algum, e logo desaparecem na obscuridade das massas, esquecidos. Talvez merecem, afinal, ter as faces reconhecidas por retratos antigos e apagados, esquecendo-se assim das memórias tenebrosas desses retratos, dando-se novas faces em uma sociedade moderna, mas para lá de medieval.


Roy FrenkielRoy Frenkiel, taurino filho de taurino, intenso por natureza. Nasceu em Israel em 1980, cresceu nos bairros de Higienópolis e Bom Retiro, em São Paulo. Freqüentou colégios judaicos e em 1996 se mudou para os EUA. Ciudadano del Mundo, cosmopolita, judeu errante, sendo que é cidadão de três países. relimelech@hotmail.com


 

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