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Octavio Aragão

17 de fevereiro de 2012

Um Laerte no banheiro incomoda muita gente

 

Costumes arraigados não precisam necessariamente ser imutáveis

“Costume” é o que fazem os juízes; “tradição” (no caso, tradição inventada) é a peruca, a toga e outros acessórios e rituais formais que cercam a substância, que é a ação do magistrado. A decadência do “costume” inevitavelmente modifica a “tradição” à qual ele geralmente está associado.
Eric Hobsbawn

Octavio AragãoO cartunista Laerte decidiu entrar na justiça para obter o direito de frequentar o banheiro feminino quando vestido de mulher, o que gerou uma tremenda discussão nas últimas semanas. Laerte, que passou a se considerar possuidor de “dupla cidadania”, diz que, quando está vestido como mulher, prefere usar o banheiro do sexo oposto àquele de seu nascimento, mas, pelo que tenho visto na rede, esse discurso não convenceu ou agradou a algumas pessoas.

Segundo os críticos, o banheiro das mulheres seria um lugar para, e aqui repriso um comentário que li na internet, conversas que só dizem respeito ao universo feminino e que, caso Laerte ganhasse o processo, essa privacidade poderia ser ameaçada, além de servir de inspiração a tarados que usariam a mesma argumentação do cartunista para, disfarçados como mulheres, invadirem sanitários.

Compreendo o receio das mulheres, mas precisamos lembrar que vetar a entrada de qualquer indivíduo em um ambiente público baseado em direcionamento sexual vai contra a lei estadual 10.948/2001 (o que me faz lembrar do absurdo que são os vagões “femininos” do metrô do Rio de Janeiro, mas isso é outro assunto).

Estamos entrando no âmbito do filósofo Eric Hobsbawn, das definições de “costumes” e “tradições inventadas”. Não creio que o argumento da “conversa no banheiro” possa ser determinante para se proibir o acesso de alguém. Temos de criar novos costumes, não apenas repudiar o que nos parece errado por colocar em xeque antigas tradições. Os costumes, graças ao Grande Designer do Universo, mudam o tempo todo.

As mulheres têm direito à privacidade, mas precisamos encarar os pontos fora da curva e procurar soluções para eles, embasadas democraticamente. Quanto aos tarados, não me parece que tenham o hábito salutar de obedecer as regras sociais. Se cismarem de entrar num banheiro feminino não serão impedidos por costumes e tradições. Acharão uma maneira, como sempre fizeram, sem precisar de um precedente. O que não dá é tentarmos parar as transformações do mundo sem uma análise mais profunda do problema.

Não me parece que o caso de Laerte seja o de um indivíduo surtado, mas sim um sinal de que as coisas estão mudando. Por isso, sugiro que mudemos o ângulo de nosso enfoque sobre esse dilema. Presenciei uma situação há quatro meses, quando, no vestiário infantil do clube que frequento com meus filhos, uma avó reclamou do fato de ser um ambiente misto. A princípio concordei com ela, mas depois um pai apresentou um ponto de vista no qual não havia pensado: como ele acompanharia as filhas pequenas num vestiário feminino? Revi minha posição e hoje parto do princípio que o vestiário misto era – naquele caso – a melhor solução. Essa conclusão me levou a recordar que diversas casas noturnas nos anos 80/90 mantinham banheiros que ficaram famosos por suas “salas de reunião”, frequentadas por ambos os sexos que nem por isso caíam na promiscuidade, na “gandaia” ou na “pouca vergonha”.

Essa seria, a meu ver, uma solução. Banheiros com reservados para homens e mulheres, mas com antesalas comuns. Porque o mais importante em toda essa discussão levantada pelo “crossdressing” de Laerte é a sugestão que devemos minimizar a intolerância e evitar a tentação de, em lugar de novos costumes, alimentarmos novos preconceitos.


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Sobre o colunista:

Octavio Aragão

Octavio AragãoÉ designer gráfico, doutor em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes (UFRJ) e professor adjunto da ECO/UFRJ. Escreveu o romance "A Mão que Cria" e editou a antologia "Intempol." Foi também co-autor de "Imaginário Brasileiro e Zonas Periféricas."

email: ctavio_aragaoo@terra.com.br

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