Acautelai-vos, Senhor, do ciúme; é um monstro de olhos verdes que zomba do
almento de que vive.
Iago, em Otelo, de William Shakespeare
Qual seria a arma mais eficaz? A faca? A borduna? O arco? A lança? Nada disso.
A pior das invenções mortais é o veneno, seja físico ou moral, mais conhecido por difamação, ou pelo apelido engraçadinho, fofoca. Funciona a longo prazo, não deixa rastros que incriminem o assassino e, mais importante, pode matar horas ou até dias depois da dose fatal. Armas brancas ou de fogo são preferidas por guerreiros afoitos, que desejam resolver tudo sem perda de tempo e por isso encaram a ameaça de retribuição.
Envenenadores não confrontam, não cultuam o conceito abstrato de “honra”. Por quê? Porque honra pode levar à morte prematura, e os difamadores querem, acima de tudo, sobreviver a qualquer custo.
A figura do traidor, do alcoviteiro, é comum nas lendas e contos folclóricos, pois cumpre quase sempre a função do nêmesis do herói, tornando-se muitas vezes tão ou mais importante para a trama. Iago, o falso amigo de Otelo, da peça homônima de Shakespeare, elevou a fofoca ao status de arte ao manipular informações, pessoas e fatos até um desfecho trágico. Morgana criava intrigas entre os heróis da Távola Redonda a ponto de provocar a queda de Camelot. Ganelon, o alcoviteiro da corte de Carlos Magno, foi responsável pela emboscada que matou Rolando, o maior dos cavaleiros. E não podemos esquecer do mais famoso de todos, Judas Iscariotes, que acabou virando sinônimo de traidor.
Em comum, todos esses personagens tinham a inteligência e a inveja. Hábeis com as palavras, esses fofoqueiros não se sentiam vilanescos, pelo contrário. Todos se julgavam injustiçados e em diversas oportunidades provaram seu valor – Iago e Ganelon eram guerreiros renomados antes de sucumbirem à baixeza, Morgana era irmã do Rei Arthur e Judas, um dos apóstolos escolhidos por Jesus – mas intuíam que, diante do poderio solar de seus desafetos, não teriam chance num conflito aberto, assumindo assim o manto da dissimulação, da falsidade. Ou seria o artifício da estratégia, da criatividade?
Geralmente consideramos covardia a ação do mais forte contra o mais fraco, porém a fofoca inverte essa equação. Trata-se da covardia do mais fraco, quando a vantagem muscular é anulada.por um poder incomparável, o mesmo que fez a espécie humana sobressair sobre todas as outras: a capacidade de matar com uma mentira..
Sobre o colunista: Octavio Aragão
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