Por Tonia Elizabeth
A companhia reúne artistas locais e internacionais, entre eles vários brasileiros, com destaque para Renato Penteado, o primeiro bailarino da companhia

Jovani Furlan, Andrei Chagas, Nathalia Arja, Renan Cerdeiro e Renato
Penteado
Seis brasileiros são astros no Miami City Ballet que, sob nova direção, dá início à sua nova temporada, no dia 19 de outubro. O talentoso e experiente Renato Penteado – o primeiro bailarino da companhia – é um representante verde e amarelo, assim como os companheiros Renan Cerdeiro, Kleber Rebello, Nathalia Arja, Andrei Chagas e Jovani Furlan. Eles conversaram com o Achei USA sobre essa oportunidade profissional fantástica de representar-nos numa arte tão nobre, difícil e competitiva.
O paulista Renato Penteado, além de se apresentar, ensina na escola e na companhia do MCB. Ele é o expoente mais alto da vigésima-sétima temporada da Companhia de Ballet da Cidade de Miami. Renato praticamente abriu as portas aos colegas, ao entrar para o Miami City Ballet em 1999, depois de participar de uma competição de ballet no Mississipi. Ele foi promovido a primeiro bailarino em 2004. Desde então, é o astro masculino do Miami City Ballet. Muito querido e respeitado pelos colegas, Renato faz questão de ajudar os companheiros e compartilhar sua experiência. Ele começou os estudos de ballet aos sete anos e agradece o apoio que sempre teve dos pais. Renato revela como se sente ao representar nosso país na posição mais alta para um bailarino no condado de Miami-Dade: “É um privilégio, uma honra estar no MCB por todos esses anos e representar o Brasil.
É difícil fazer o que a gente gosta. Infelizmente, no Brasil, nossa arte não recebe o mesmo valor, embora tenha melhorado bastante. Aqui também é difícil. É uma carreira de muita batalha, curta, porém com mais prestígio.”
Os bailarinos praticam e ensaiam cerca de 10 horas por dia, de segunda a sábado. Para os que pensam em seguir os passos de Renato, ele dá dicas bem realistas: “É puxado, exige dedicação de mais de 100 por cento. Você vive sua arte do momento que acorda até aquele em que vai dormir. Precisa dedicar-se de todo o coração.
Não é só aprender os passos. Precisa desenvolver técnica, olhar-se no espelho, melhorar os movimentos, cuidar da saúde, do corpo, ter alimentação saudável, horas mínimas de sono, estudar o personagem que vai representar… mas é uma profissão muito gratificante.”
![]() Kleber Rebello |
![]() Kleber Rebello em Los Angeles |
Bailarina está adorando o trabalho
Nathalia Arja veio para os Estados Unidos aos quinze anos com outros três bailarinos, há cinco anos: “No começo foi uma catástrofe, pois nenhum dos quatro falava inglês e era bem difícil entender a correção dos professores”, revela. A bailarina está muito feliz com a chance de mostrar seu talento e diz: “Minha experiência tem sido maravilhosa. Só penso em voltar ao Brasil quando me aposentar, porque é inacreditável! Eu nunca imaginei que minha vida fosse se transformar assim, completamente… A companhia é maravilhosa!”
Nathalia explica: “Acho que a razão porque muitos brasileiros talentosos deixam o Brasil é a falta de oportunidade e apoio. A própria companhia do Teatro Municipal, do Rio de Janeiro, não abre muito suas portas a novos talentos. Na Europa e nos Estados Unidos, nossa profissão é levada mais a sério, é mais respeitada. No Brasil, acham que a gente faz isso por hobby.”
O namorado de Nathalia estudava na escola de ballet da mãe dela, no Rio, e também faz parte do Miami City Ballet agora. Ela acrescenta: “Tenho um amigo que sofreu muito preconceito no Brasil por fazer ballet. Lá, homem tem de jogar futebol”. Nathalia vai participar das três obras de estreia da temporada do MCB: “Les Patineurs”, “Apollo” e “Piazzolla Caldera”. “Este último tem um estilo espanhol, com influência do tango e do flamenco”, revela a bailarina.
Nathalia fala da importância de Renato para os outros bailarinos, especialmente os brasileiros: “Ele é a maior ajuda que a gente tem aqui. Ele diz que vai se aposentar logo. Ele não pode! Ele sempre se dispõe a ajudar-nos, desde passar para a gente tudo o que sabe até ajudar nos passos, mas também auxilia-nos em qualquer outra coisa que a gente precise fora do trabalho. Até na nossa comunicação com os superiores a ajuda dele foi primordial!”
Infraestrutura de primeiro mundo
Os bailarinos do Miami City Ballet têm toda uma infraestrutura, que conta até mesmo com fisioterapeutas no local, para massagem e relaxamento dos músculos cansados com tantas horas de esforço físico. Tudo fornecido pela companhia.
O carioca Renan Cerdeiro, de 20 anos, estudava ballet na Escola Alice Arja, da mãe da Nathalia. Através de envio de DVDs com seu trabalho, aos 15 anos, ele conseguiu bolsa de estudos no Miami City Ballet School: “Estou adorando tudo, é uma experiência maravilhosa! Tenho aprendido muito! Ser um bailarino homem aqui é como ter qualquer outro trabalho. Não sou visto de nenhuma forma diferente. É como qualquer outra profissão. No Brasil, as pessoas não veem nossa arte como uma verdadeira profissão, mas como hobby, o que gera certo preconceito.”
Kléber Rebello tem 21 anos. Ele está na companhia há três anos e cursou doze meses na escola do Miami City, antes de ser contratado. No Rio de Janeiro, ele frequentava a Escola Spinelli, em Vila Isabel. Ele fez uma audição para o curso de verão da escola do MCB, em 2009. Foi selecionado e ganhou uma bolsa de estudo. Junto com Renan, eles são os solistas principais do grupo: “É realmente um privilégio. Estamos agradecidos mesmo.”
O também carioca Andrei Chagas, namorado da Nathalia, tem 19 anos e veio para estudar. Depois de três anos na escola do MCB, conseguiu entrar para a companhia, na qual já atua há dois anos: “Eu segui os passos do Renan e da Nathalia. Depois deles, a companhia resolveu fazer uma audição no Rio de Janeiro e eu ganhei uma bolsa de estudos para vir para cá, em 2009. Eu já dançava desde os 11 anos. Aqui as portas estão sempre abertas para os bailarinos. Lá no Brasil, a gente tem dificuldades. Não há esse investimento no ballet de qualquer tipo: contemporâneo, afrodance… Se nós tivéssemos companhias de grande porte, como temos aqui, não sairíamos do Brasil. Viemos aqui para realizar o nosso sonho.”
Falar inglês é bem importante. Segundo alguns dos bailarinos, isso pode salvar o aluno de vários “micos”, durante as aulas e na fase de adaptação à nova cultura. Andrei compartilha conosco uma de suas situações embaraçosas: “Eu estava na aula com o professor Renato, que ficava em cima de mim, me corrigindo e eu estava errando muito e todos do grupo da coreografia eram obrigados a repetir a sequência por minha causa. Depois de umas dez vezes, consegui acertar e, então, o Renato, me mandou pedir desculpas aos colegas por fazê-los repetir tantas vezes. Foi quando eu disse: ‘thank you’, ao invés de ‘sorry’. Foi um dos meus micos, pela falta do inglês. Houve outros, vários, na sala de aula com professores americanos… como responder que sim quando um dos professores me perguntou se eu estava querendo deixá-lo maluco…”
Jovani Furlan, de 19 anos, é de Santa Catarina e está na companhia há cerca de um ano. Fez, antes disso, um ano na escola do MCB. Jovani também participou de uma competição nos Estados Unidos e conseguiu uma bolsa de estudos para o Miami City Ballet School. “Há muitos estrangeiros aqui, porque o mercado de trabalho para o bailarino é melhor… e não sofremos nenhum preconceito. Ninguém fala nada, ninguém pergunta. No Brasil, as pessoas têm a cabeça um pouco mais fechada.”
Vale à pena conferir e apoiar o talento desses bailarinos. A temporada 2012-2013 do Miami City Ballet vai de outubro a maio e começa no Adrienne Arsht Center, em Miami, nos dias 19, 20 e 21 de outubro. Depois, a companhia se apresenta no Broward Center for the Performing Arts, em Fort Lauderdale, nos dias 26, 27 e 28. Em West Palm Beach, a companhia se apresenta no Kravis Center for the Performing Arts, nos dias 30 de novembro, 1 e 2 de dezembro.
Em janeiro, com novo repertório, eles continuam a temporada em Miami. Para mais detalhes, é só entrar no site www.miamicityballet.org.
Sobre a colunista: Tonia Elizabeth
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