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A história do jornalismo brasileiro nos Estados Unidos começou aqui

O ano não poderia ser mais histórico: 69. O ano da chegada do homem na lua. Quase três meses depois, no dia 7 de setembro, três homens também davam passos importantes, mas esses para entrar na história do jornalismo nos Estados Unidos. O trio era formado por Al Sousa, Jorge Milton Moreira Nunes e Abrao Utler. Juntos eles criaram o primeiro jornal brasileiro em terra norte-americana, o Brazil News.

A primeira edição foi colocada nas ruas de Nova Iorque no dia 7 de setembro de 1969, 34 anos atrás. Foi esse, ao contrário do que muitos pensam, o primeiro jornal da comunidade. "Naquela época não existia internet. Você nem sabe como era difícil fazer jornal", relembra com ares de quem sustenta um troféu o hoje colunista do AcheiUSA, Al Sousa. Foi ele, na verdade, o primeiro nome do jornal, quando "recém-saído" do Brasil veio morar em Nova Iorque. A expressão "recém-saído não é sem-propósito, já que foi por questões políticas que ele teve que deixar o país. O jornalista já acumulava uma longa carreira, no Brasil, pelo direito de informação e liberdade de expressão, tendo ocupado posições de destaque como ex-secretário de redação do jornal A Noite, no Rio de Janeiro, e ex-redator do Reporter Esso.

Americanófilo
Em 69 Sousa ocupava a função de Técnico em Comunicação Social no setor público quando foi "aconselhado" a tirar licença sem vencimentos por 10 anos. O "privilégio" estava sendo concedido aos funcionários públicos que não tinham simpatia pelo regime de governo vigente e Al Sousa já era um "americanófilo"

Aceito o conselho, em junho de 1968 Al vendeu seus bens e veio para os Estados Unidos com $7,700 dólares no bolso. Uma fortuna para época. Mas a fortuna durou pouco e, seis meses depois, ele foi trabalhar na Varig. Mais alguns meses depois foi convidado por uma amigo para abrir um jornal. "Ele me chamava de 'jornalista'. Todo mundo me conhecia como 'o jornalista'. Então ele falou: ô jornalista, por que que a gente não monta um jornal?", conta.

O amigo era Abrao Utler, o dono de uma agência de viagens, a Rio Tour Services. Ele tinha dinheiro e resolveu investir na parceria com Al Sousa. "Começamos a planejar e pesquisar e ele foi descobrir um linotipista em Newark; um argentino que já tinha trabalhado no Diário de Notícias. Imaginem a conicidência?", lembra.

Toda a estrutura do jornal começou a ser montada. Al, que morava em NY, tinha que viajar duas a três vezes por semana para Newark, até a gráfica do linotipista. Ele tinha que ir lá conferir se as caixas de textos estavam sendo montadas corretamente. Sim, caixas de textos. Porque naquela época os textos eram montados por letras de chumbo. Letra por letra, montados em uma caixa, iam compondo o texto, que depois seria impresso.

Dividindo méritos
Al Sousa, sem internet, fazia sua coleta de informações lendo e pesquisando em jornais e revistas do Brasil que pegava emprestado nos aviões da Varig, diariamente. "Também tínhamos a colaboração mais do que importante de Jorge Milton Moreira Nunes, que era quem representava o jornal no Brasil. Metade do mérito do jornal eu devo a ele", afirma. Os dois eram cunhados.

Jorge, publicitário, atuava então no Diário de Notícias quando o Brazil News foi lançado. Junto com Al tinha feito o primeiro caderno de automobilismo no Brasil, no Diário de Notícias. Moreira Nunes também havia comandado a editoria Internacional no Diário. "Sempre houve uma relação forte entre a gente; uma interdependência", conta saudoso.

Das mãos de Jorge vinham notícias importantes do Brasil, coletadas da Agência Nacional, que levavam cinco a seis dias para chegar nos EUA. Outra colaboração importante era de Ângelo Raymundo de Sousa, pai de Al.
Com tamanha demora em receber notícias o jornal era editado "frio", com matérias já velhas. Mas para os brasileiros que moravam em Nova Iorque e não não mantinham comunicação freqüente com o país nem dispunham de transmissão de TV por satélite- as notícias tinham gosto de frescas.

Tostão na primeira página
O jornal não tinha tendência política. Foi um pedido de Utler. Os temas políticos eram abordados, sim, mas sem partidarismo ou unfanismo, a exemplo da manchete da primeira edição: "Caminho da paz só com ajuda aos subdesenvolvidos", que falava da prosperidade da diplomacia brasileira. Nesta mesma edição uma foto de quase meia página - uma inovação para o padrão jornalístico da época- mostrava Tostão marcando um gol contra a Venezuela e trazia uma carta de congratulações do Ministro das Relações Exteriores, Magalhães Pinto.

O preço sugerido do Brazil News era $0.10 e mil exemplares eram rodados mas, como se tornaria hábito depois em outro veículos, o jornal acabava mesmo sendo distribuído gratuitamente. "Havia poucos brasileiros e só umas quatro ou cinco lojas brasileiras. A gente colocava os jornais nesses lugares e ainda sobrava exemplares", diz.

Através da páginas do Brazil News os brasileiros foram informados da posse de Garrastazu Médici e sobre o milésimo gol de Pelé, entre outras notícias. Mas o jornal durou pouco. Como naquela época a comunidade era pequena e os anunciantes quase inexistentes, quem mantinha o Brazil News era o empresário Utler, através da sua agência. Naquela época a Aero Peru faliu e agência de Utler perdeu sua vitalidade. Com a saída desse capital financeiro ficou impossível dar seguimento ao jornal, que teve que fechar. "Eu lamentei muito mas não tinha dinheiro; não podia levar adiante o projeto", lembra Sousa. Consta na história que o jornal foi vendido alguns meses depois ao empresário J. Alves, que mudou seu nome para The Brazilians. em 1972, jornal que persiste eté hoje em Nova Iorque.

A história se repete
Depois Al viria morar na Flórida onde também pôde exercer sua profissão em outros jornais. Como ele gosta de lebrar também teve a chance de fazer a "história se repetir" ao trazer para os Estados Unidos o sobrinho Jorge Moreira Nunes Filho, filho de Moreira Nunes parceiro da fundação do Brazil News. "O mais interessante é que, coincidentemente, depois eu pude trazer o Jorge para o país e ele acabou fundando um jornal, que é o AcheiUsa. É a história de família se repetindo", destaca entusiasmado Al, que do velho Brazil News - hoje The Brazilians- guarda apenas a lembrança e a convicção de ter sido pioneiro no mercado jornalístico brasileiro. Sem concessões.
 

Vanuza Ramos-AcheiUsa

 

 

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