A camaleoa das artes
Carmen Gusmão se expressa através de
quadros, cerâmicas, jóias e ilustrações
Conectada com o mundo. E conectando-se com o mundo. Esta é a
missão da multifacetada artista brasileira Carmem Gusmão. Sua visão
abrangente consegue captar os movimentos onde quer que estejam. Desde
pequena, ela sentiu-se artista. E tinha certeza que a arte seria sua grande
inspiração e, mais do que tudo, sua maneira de se expressar diante das
inquietações que mexem com sua mente.
O que é melhor: viver no Brasil, na Europa ou nos Estados Unidos? Morar em
Belo Horizonte ou em Belém do Pará? Conviver com a sofisticação de Hampton,
em New York, ou com a crueza dos índios caiapós na Amazônia?
Um ser previsível certamente teria respostas prontas a todas estas questões.
Carmem Gusmão, porém, não se encaixa nesta categoria. Tal qual um camaleão
ela possui a capacidade de se adaptar perfeitamente em qualquer lugar e
extrair o melhor de cada um deles. Depois, como uma repórter, coloca suas
observações em seus trabalhos artísticos. E quando se fala em trabalhos não
podemos (novamente) colocar a arte de Carmem Gusmão dentro de um padrão. Sua
arte pode ser manifestada em telas, em cerâmicas ou mesmo em jóias ou em
ilustrações de livros. Tudo dentro de um conceito único que a diferencia do
lugar comum.
Esponja de conhecimentos
Embora qualifique sua pintura como Impressionismo Abstrato, a artista
plástica sabe juntar os vários elementos que marcaram sua trajetória de vida
e reuni-los em trabalhos. E sua trajetória é bem interessante. Mineira de
Belo Horizonte, onde passou sua infância, trocou a capital mineira por Belém
do Pará, depois que seu pai comprou uma fazenda na Amazônia.
A partir daí, tudo mudou. Ela trocou o clima seco e montanhoso de Minas
Gerais pelo calor úmido da Amazônia. Como já fazia arte desde os 14 anos,
ela absorveu as influências das duas vertentes. “Sempre uso arquétipos
religiosos (terços, corações) em minha arte. Eles representam minhas raízes
barrocas, pois em Minas tudo recende a bordados rendas, religião”, comenta a
pintora.
Do lado amazônico, ela traz sua identificação com os indígenas brasileiros.
Durante algum tempo, a artista conviveu com os caiapós e aprendeu seus
ensinamentos. Desde a confecção de cerâmica marajoara até a relação
intrínseca com as cores, onde pontificam o urucum e o genipapo. Ela teve até
mesmo seu corpo pintado de genipapo, uma tinta natural que permanece até 90
dias. “Fiquei com as listras durante muito tempo e as pessoas estranhavam ao
me ver daquela maneira. Mas isto foi uma maneira deles manifestarem seu
carinho por mim e por Lelé Grello, minha companheira nesta aventura”, lembra
a artista. As duas moraram um período na aldeia Gorotire, onde vivem cerca
de quarto mil índios caiapós.
De repente, o mundo. Suas fronteiras não têm limites. Tanto as intelectuais
como as geográficas. Obcecada por estudos, Carmem mergulhou no mundo da
psicanálise e estudou psicologia, filosofia e arquitetura. Seduzida pela
mente humana, aprofundou-se no universo místico e mágico de Carl Gustav
Jung. “Através da minha pesquisa de arte, comprovei a existência da herança
filogenética”, ela cita em sua apresentação.
Traduzindo. Carmem se encanta ao perceber que os nativos brasileiros fazem
artes e artesanatos similares aos índios canadenses e a certos povos da
Europa. Todos têm as mesmas idéias e soluções sem sequer terem tido algum
tipo de contato físico. Este tipo de insight fascina a artista, que faz
questão de transpor para seus trabalhos sua compreensão do mundo. “Costumo
dizer que faço arte com o que tiver à minha disposição. Se não for com
pincéis e barro, com certeza reúno algumas pedras e crio um trabalho
artístico. A arte está dentro de mim, os materiais são apenas elementos com
os quais conto para poder me expressar”, filosofa.
Seguindo esse conceito, seus trabalhos foram saindo do Brasil e integrando
museus, galerias e residências de todo o planeta. Uma instalação criada por
Carmem, fruto de sua participação na Bienal Barro de América, está no Museo
de Arte Contemporánea de Caracas, ao lado de uma obra do consagrado Pablo
Picasso.
Após o sucesso na América do Sul, a artista sentiu ser o momento de alçar
vôos mais altos. E foi para a Europa, onde morou em Florença, berço do
Renascentismo italiano. Sua arte foi bem recebida entre os europeus,
encantados com a criatividade da brasileira que mesclava o primitivismo da
arte indígena com a sofisticação dos conceitos literários de autores como
Baudelaire, Kafka e Pablo Neruda.
Chegada nos EUA
O romance com o fotógrafo gaúcho Fernando Franceschini detonou a vinda de
Carmem Gusmão para os Estados Unidos. Mais exatamente para Los Angeles.
Logo, os americanos se apaixonaram pelo trabalho singular desenvolvido pela
brasileira.
Durante cinco anos, a artista realizou várias exposições na Califórnia e no
estado do Arizona, além de mostrar sua arte em Hamptons, na costa leste do
país. Suas obras instigantes mexem com o público. “Sempre acreditei que a
missão do artista com suas obras é fazer as pessoas pensarem. E não me
refiro só às artes plásticas. Isto vale para a literature, música e todas as
formas de manifestações artísticas”, comenta a inquieta artista.
Foi justamente seu eterno desejo de mudar – aliado à saudade dos filhos de
Carmem e de Fernando, de relacionamentos anteriores – que trouxe Carmem e
Fernando para Fort Lauderdale. Aqui, estão mais pertos do Brasil. Basta
embarcar num vôo direto, ao contrário da maratona enfrentada por quem vive
na costa oeste do país.
Apesar de estar há meio ano na Flórida, ela identificou-se com o local (“Tão
úmido como a Amazônia”) e já se integrou à comunidade brasileira que vive
aqui. Expôs na Galeria Solange Rabello, em Miami, este ano e vem divulgando
seu trabalho em todo o sul do estado. Aliás, Solange Rabello Art Gallery é
quem a representa em Miami.
Como ocorreu nos outros lugares, sua arte vem sendo bem aceita. Ela somente
não concorda com o axioma usado por algumas pessoas quando se referem à
arte: “Não entendo nada de arte…Ora, arte não é para ser entendida, arte é
tudo o que te toca e te faz refletir”.
Diversas formas de arte
Além de seus quadros, Carmem Gusmão encontra outras maneiras de manifestar
sua veia artística. Ela e sua amiga Lelé Grello fizeram um trabalho na área
de moda para a novela “Filhas da Mãe”, da TV Globo. Lelé, que é estilista, e
Carmem desenvolveram o visual específico para o personagem interpretado pela
atriz Cláudia Raia, que vivia um transsexual na novela. Desnecessário dizer
que Carmem adorou o trabalho e ter feito novamente parceria com Lelé, com
quem lançou há dez anos a linha de cosmético Arãm, com inspiração nas
essências amazônicas.
Recentemente, pintou um quadro enquanto o grupo vocal Brazilian Voices se
apresentava no Broward Center for the Performing Arts, demonstrando sua
versatilidade. A mesma versatilidade já manifestada anteriormente com a
pintura de corpos nus, a exemplo do falecido pintor Albery, por sinal também
do Pará.
Em Los Angeles, ela ilustrou o livro da poeta Bianca
Rossini, “Coração Brasileiro”, que reúne poemas em português e em inglês. Suas ilustrações
procuram identificar-se com os textos numa perfeita simbiose entre palavras
e imagens.
A confecção de jóias é uma de suas características mais marcantes. Suas
jóias transcendem o mero aspecto decorativo. Elas embelezam as mulheres, é
claro, mas funcionam como pequenas obras de arte. “Qualifico as jóias feitas
por mim como esculturas para serem vestidas. Afinal, são peças únicas,
feitas a mão, onde uso pedras brasileiras e material como ouro e prata. Para
garantir a durabilidade, utilizo jarinas, um tipo de marfim orgânico que
mantém a peça bonita por muito tempo”, garante a criadora do Amazonia
Necklace, uma peça bastante procurada pelas clientes.
Projeto audacioso
Em sintonia com a natureza, Carmem está pensando em abrir espaços no Orkut e
no My Space para divulgar um projeto de conscientização de proteção à
natureza. Será a junção de inúmeros artistas que farão painéis de cinco
metros, os quais se unirão num enorme painel que unirá Miami a New York.
Para divulgar sua idéia, usará a mídia (como o próprio AcheiUSA) na
tentativa de sensibilizar artistas, autoridades e público em geral. Projeto
audacioso, não? Sem dúvida. Mas quem sou eu para duvidar da capacidade desta
artista cuja criatividade e poder de realização não tem limites.