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Fred Mattos:
O Sambista-sorriso da Flórida
Fred
Mattos, 28 anos, carioca, é uma das personalidades mais populares da
Flórida. Em sete anos de residência nos Estados Unidos, fez centenas de
amigos por onde passou; ou por onde se apresentou cantando com seu grupo
de pagode, o Embalo. Deixa o país agora com apenas uma certeza: que vai
sentir falta das rodas de samba e noites entre amigos no Estado do sol.
Apesar da saudade antecipada, não se desvia da determinação de retornar
ao Brasil e tentar recomeçar uma nova vida. Lamenta o fato de estar
finalizando as atividades do grupo, justamente quando o Embalo vive sua
fase mais frutífera, sendo disputado para fazer shows em vários lugares
e se preparando para gravar um disco. Por que a dissolução do grupo?
“Incompatibilidade de gênios”, diz o vocalista. O que poderia ser
interpretado como “crises de estrelismo” por muitos, é mostrado por Fred
como necessidade, de cada um, de ter espaço para seguir seus ideais.
“São sete pessoas pensando de forma diferente; com objetivos diferentes.
Estava na hora de parar para não perder a amizade”, destaca Fred, que é
a alma do grupo.
Sambista por natureza, Fred até conta em casa com um amigo inseparável:
o Zeca Pagodinho. “É o meu cachorro. Tinha que homenagear meu mestre”,
afirma Fred, que gosta ainda de Jorge Aragão e Fundo de Quintal.
O carioca volta ao seu reduto, seu lar. “Quero voltar a estudar
jornalismo”, conta. Da terra do Tio Sam também sentirá falta da vida de
artista. “Aqui virei um artista. Todo mundo me conhece; ando na rua,
todo mundo me cumprimenta. Aqui sou ‘O Fred’; no Rio vou ser mais um
Fred”, afirma ele, que nunca enveredou pela área musical enquanto vivia
no Brasil. “Nunca fui profissional. Virei sambista por paixão”, completa.
Capítulo encerrado - Com a dissolução, fecha-se o capítulo de uma
história de sucesso na comunidade brasileira da Flórida. O Embalo, que
nos últimos seis meses reavivou na comunidade o prazer de ouvir samba,
nasceu do improviso celestial que juntou no lugar certo e na hora certa
pessoas com o mesmo ideal. Foi assim que Fred, no ano de 2000, saiu do
grupo Toco e os Meninos do Rio e foi parar no Visão do Samba, então
comandado por Gilson do Cavaco. Fred fazia backing vocal para Gilson e
lá conheceu outros músicos que mais tarde fariam parte do Embalo.
“A gente queria fazer uma banda só de moleques; uma banda com outro
estilo”, conta o vocalista, que após um ano no Visão do Samba resolveu
montar o Embalo, um grupo com outra visão. Com ele migraram para o novo
projeto os músicos Rafael Satler (bateria), Adrian de Borba (cavaco),
Jorge Satler (tan-tan) e Handal (Pandeiro).
O nome foi escolhido com entusiasmo. “Handal foi quem escolheu; ele
falou assim: vamos colocar Embalo, para embalar o sul da Flórida”,
relembra. Todos gostaram da idéia. Com o nome escolhido, faltava lugar
para estrear. “Era amigo de um cara que tinha instrumentos musicais, o
Edson Bragança. Ele tinha aparelhagem de som e nós tínhamos o grupo, mas
não equipamentos. Daí, ele nos apresentou para o produtor Carlos Salles”,
lembra. Carlinhos assistiu a um ensaio e resolveu fazer o lançamento, em
junho de 2000, no restaurante Brasil Brasil. “Ele (Carlinhos) até estava
meio receoso, porque não conhecia a gente, mas a noite acabou sendo um
sucesso”, conta.
Por sucesso entenda-se filas sendo formadas do lado de fora do
restaurante, até mesmo por escassez de lugares brasileiros, na época.
Quatro meses depois, a casa fechou, como sempre acontecia na comunidade
brasileira, e Carlinhos passou a promover as noites do restaurante Samba
Café, para onde levou o grupo. “Lá ficamos quase um ano com uma banda
completa; tínhamos o Ramatis (baixo) e o Roberto Besser (teclado). Foi
também um sucesso. Mas como todo lugar brasileiro, da época, também
acabou”, diz Fred.
O passo seguinte foi embalar as noites do Aquarela Grill, em Las Olas.
Mas o sucesso subiu à cabeça dos integrantes, que acreditaram não
precisar de um produtor ou promoter para caminhar e resolveram trabalhar
por conta própria. “A gente foi trabalhar no Aquarela Grill por conta
própria, mas alguma coisa não funcionava; a casa não enchia”, relembra o
vocalista, com a honestidade que poucos têm para assumir suas derrotas.
“Dava frustração ver o outro lado da moeda. Achávamos que tínhamos nome
suficiente para lotar a casa e de repente vivenciamos a falta de público”,
revela.
A “Flamília” no Picanha’s - Paralelamente ao Aquarela, o Embalo
agitava as noites do Picanha’s, a convite do Francis, que passaria a
fazer parte do grupo mais tarde. “Lá a gente não se chamava Embalo, mas
sim Flamília. Esse era o nome de um time de beach soccer, do qual a
maioria dos componentes fazia parte”, conta. Eles ficaram cantando às
sextas-feiras no Aquarela e aos sábados no Picanha’s, em 2002.
No Picanha’s, a Flamília voltou a sentir o gosto do sucesso. Outra vez a
casa ficava lotada. E a boa fase impulsionou os meninos a se aventurarem
em outro estilo: o axé. “Mas faltou afinidade com a música baiana. A
banda é e sempre foi 100% samba”, explica Fred.
Com o sangue 100% voltado para o samba, ele seguiram e outra vez
tentaram andar com pernas próprias. Desta vez o bar escolhido foi o
Gil’s Café, terreiro de gente bamba mas que não se encaixou bem com o
grupo. “Outra vez, vimos o fracasso”, brinca o vocalista, que nessa
época tinha agregado ao grupo os músicos Bruno (cavaquinho), Francis (pandeiro),
Marcinho (percussão) e Tiaguinho (repique).
Ficaram pouco tempo no Gil’s. Resolveram parar por um tempo, mas adiaram
a decisão.
Cantaram ainda em outros lugares: Brazilian Way, Crabby Jacks,
Renascer, Feijão com Arroz, etc. Também eram convidados para fazer uma
apresentação ou outra; eles abriram o show do Kilocura, Joana, Molejo,
etc. E foi entre esses convites que aconteceu “o convite”, que mudou a
história do grupo e fez os meninos voltarem com força à noite da
Florida.
O sucesso do “Bar do Tião” - O convite aconteceu por parte de um
amigo, que chamou o grupo para fazer o reveillon de 2004 em Carolina do
Norte. “O Francis nos chamou para tocar lá. Eu não queria usar o nome
Embalo porque nessa época a banda já estava praticamente desfeita; todo
mundo estava parado. Não tinha o Handal, o Juninho, Rafael, Adriano e
nem o Bruninho. Não era o Embalo”, justifica Fred.
Francis acabou vencendo a resistência de Fred e o nome Embalo foi
mantido para a apresentação. Como todos estavam parados, precisavam
voltar a ensaiar. E o lugar escolhido foi o Giovana’s Café, em Miami.
Escolhido pelo destino, na verdade. “A gente estava em um churrasco, na
casa de um amigo, e os vizinhos começaram a reclamar do barulho. Então
resolvemos ir para o Giovanna’s Café”, conta Elaine Pereira, manager da
banda. “A partir daí, começamos a ensaiar lá. E os ensaios começaram a
atrair gente. Toda semana mais e mais pessoas iam lá, para nossos
ensaios”, lembra o vocalista. O boca-a-boca foi oficializando a noite do
Giovanna’s Café, em Miami, a ponto de fazer o grupo pensar em
profissionalização.
“Então, entramos numa fase nova do grupo, mais organizada. Pela primeira
vez tivemos uma manager, a Elaine, que deu outra dimensão ao nosso
trabalho. Começamos a tocar em vários outros lugares; o Giovanna’s –
conhecido como Bar do Tião, por causa de um dos funcionários da Casa, o
popular Tião- virou point da noite brasileira e de repente centenas de
pessoas começaram a vir também de Broward. Foi um sucesso”, comemora
Fred. Foram “nove meses de alegria” que acaba agora com sua saída do
grupo. “Fico triste, mas é preciso parar para não perder as amizades”,
justifica o carioca.
Se a decisão é irrevogável, só o futuro dirá. Por enquanto, Fred
permanece firme com o intento de voltar às suas raízes, o Rio Maravilha,
berço do samba. Depois de sete anos longe é hora de regressar, segundo
afirma. “Não me arrependo de nada; aqui aprendi muito, cresci como
pessoa. Aqui tive chance de virar artista. Vou sentir saudades disso”,
encerra.
Vanuza Ramos
- AcheiUSA
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