|
O som internacional na
voz de Geraldinho
Seu
nome de batismo é Geraldo Sá. Mas, aqui na Flórida, poucos o conhecem
por este nome. Porém, se você falar Geraldinho ou Gera quase todos sabem
de quem se trata. Ele é uma figura bem conceituada no cenário musical e
também famoso promotor de eventos. Sua personalidade facilita o contato
humano, ampliado pelo fato dele sempre estar à frente de concursos,
festas ou tocando nos lugares mais badalados do pedaço.
Geraldinho é o que se pode chamar de espírito indômito. Desde pequeno
estava à procura de novas emoções na cidade em que nasceu: Belo
Horizonte. Aos 12 anos de idade, formou a banda Zyc para tocar nos
bairros. “Era uma coisa de brincadeira, nunca estudei música a sério e
os cinco meninos faziam aquilo para se divertir. Eu tocava guitarra e
cantava e chegamos a fazer até mesmo showmícios em BH”, conta o artista.
O repertório era composto por músicas das bandas que faziam sucesso na
época: RPM, Paralamas...
Primeira parada: Nova York - Sua carreira explodiria mesmo na
Flórida, antes, porém, houve um desvio de rota. Insatisfeito com a falta
de perspectivas em sua cidade, Geraldinho – então um jovem de apenas 18
anos de idade - conversou com o amigo Betinho (um dos sócios do
Restaurante Feijão com Arroz), que na época morava no estado de Nova
York e trabalhava numa fazenda, cuidando de patos, sobre a possibilidade
de vir para os Estados Unidos. Betinho incentivou-o a vir e até mesmo
arrumou um emprego para ele no mesmo local onde trabalhava.
Os dois amigos tinham de cuidar dos patos e alimentá-los para que seus
fígados ficassem inchados e daí pudesse ser extraída uma iguaria: o foie
gras, matéria-prima essencial para a elaboração do patê de foie gras. O
irônico é que Geraldinho pegou tamanha aversão pela tarefa que nem mesmo
quer saber do tal patê. Sua facilidade em aprender inglês o ajudou a ser
promovido para o laboratório da fazenda e logo conquistou a confiança do
patrão, o qual insistiu para que ficasse trabalhando lá. Ele admitiu ter
ficado balançado com a proposta, afinal já estava habituado ao trabalho,
às pessoas e até mesmo à neve.
Entretanto, sua vontade de conhecer lugares novos prevaleceu e ele veio
para a Flórida com alguns amigos. Esbaldaram-se com a praia e o clima
agradável daqui. Para se sustentar, Geraldinho trabalhou no setor de
construção civil. Logo fez amizade com o pessoal e eles perceberam que o
rapaz tinha talento. Sugeriram, então, que ele procurasse o Flamengo,
uma casa de shows na esquina da Federal Hwy com a Sample Road.
Geraldinho foi aceito na hora e começou a se apresentar no local. Pelo
menos, ele tinha uma galera cativa: o pessoal da construção. Dali, foi
para o Tropicana, onde começou a tocar com Juarez, por sinal, também
mineiro de Belo Horizonte.
Carreira internacional – A ginga de Geraldinho atraiu a atenção
de Al Nero, um músico que tocava no Stan’s Piano Bar, um clube elegante
instalado na Commercial Boulevard. “Por saber da fama do local,
perguntei ao Al como deveria ir vestido. Ele me disse: ‘Vá bem vestido’.
Coloquei um terno e fui para lá, onde cantei Wave e Garota de Ipanema.
Recebi o pagamento e um conselho: ‘Compre um tuxedo’.
Fiquei um ano e meio cantando bossa nova e outras músicas brasileiras.
Isto me abriu as portas para animar festas de aniversários e casamentos
de muitos freqüentadores”, comentou.
Lauren, uma cantora americana, se revezava com Geraldinho no Stan’s.
Certa vez, uma pessoa chamada Boris Selarc foi ao bar para convidar
Lauren para integrar uma orquestra que viajaria para o Alasca a bordo de
um navio da linha de cruzeiros Princess. Ela não foi encontrada e depois
não mostrou muito entusiasmo pela proposta, por julgar que este tipo de
trabalho era adequado para artistas mais velhos. Já Geraldinho ficou
interessadíssimo. Fez, então, o teste e foi aceito.
Al mare – Realmente, Geraldinho era mesmo o mais jovem da turma.
Aos 21 anos de idade, era o crooner da orquestra, interpretando
clássicos de Frank Sinatra, Henry Mancini, Nat King Cole, Dean Martin.
Foi um aprendizado valioso. Ele ficou seis anos viajando em navios de
três grandes companhias (Royal Caribbean, Carnival e Princess),
conhecendo lugares como o Caribe e o Alasca – local pelo qual se
apaixonou. “É lindo observar as baleias e os golfinhos nadando ao lado
do navio e ver as montanhas verdejantes ao fundo. Acompanhei os salmões
subindo as corredeiras para a desova. É um espetáculo fascinante.
Visitei Juneau (a única capital americana onde só se chega de barco ou
de avião) e pude sentir a exuberância daquela natureza agreste, além de
ter conhecido esquimós. Enfim, uma experiência fascinante. Todos
deveriam conhecer o Alasca”, sugeriu.
Pois é, apesar dos lugares bonitos, e da rica convivência com pessoas de
todas as nacionalidades – “Para mim, foi excelente para aprimorar meu
inglês e meu espanhol, além de aprender francês e italiano” -, com as
quais travou amizades que se perpetuaram através de cartões postais e,
mais tarde, evoluíram para os e-mails, Geraldinho sentiu que havia
chegado o momento de procurar outras alternativas. Mais uma vez, seu
espírito inquieto se manifestou. Claro que os alojamentos menos nobres
do navio somados ao repertório com pouca variação contribuíram para sua
tomada de decisão.
Os cartões postais esmaecidos e as coleções de selos e moedas (já
esquecidas) foram o que restou de suas viagens em navios de cruzeiros
embalando os sonhos dos passageiros. Além das imagens, sempre vívidas,
dos lugares visitados e das pessoas com quem conviveu.
Promotor de eventos - Depois de ter abandonado o comodismo de
cantar as mesmas músicas, com os mesmos arranjos e acompanhado dos
mesmos músicos, Geraldinho partiu para outra. Ele juntou-se a Guto e
formaram a dupla Guto e Gera, que se incumbiu de promover o Clube
Mombaça. A boate lotou. O sucesso foi tão grande que, na segunda semana,
o gerente da Emerald City (outra boate de Fort Lauderdale) contratou os
rapazes para promover o local. Foram seis meses de agito, com a casa
sempre cheia. Eles realizaram o concurso As Panteras e criaram outras
atrações. Conseguiram, sobretudo, o equilíbrio ideal entre homens e
mulheres, algo que todo dono de casa noturna gosta.
Depois de seis meses, Guto e Gera foram promotores do Velvet Lounge, uma
casa menor e com clientela mais selecionada. Lá, fizeram o concurso
Garota Destaque.
Como o trabalho no Velvet Lounge era mais tranqüilo, Geraldinho pôde
voltar a se dedicar à música. Ingressou na banda Sugar Loaf, que fez
shows no Clevelander, em South Beach, e no Brazil Brazil, em Broward.
Nesta época, conheceu o pianista Cláudio Caldas, que serviu como seu
orientador profissional. “Com o Cláudio passei a ver que me faltava a
ginga brasileira, possuía o swing internacional, mas carecia deste
elemento. O Cláudio me deu uns toques fantásticos e pude enriquecer
minha cultural musical”, disse Geraldinho.
Fase mais sossegada – Depois de ter inaugurado o Golden Princess,
na época o maior navio do mundo, em uma turnê pelo Caribe, Geraldinho
decidiu dar um tempo com os cruzeiros marítimos. Sua intenção é dedicar-se
mais à sua vida pessoal – sobretudo agora que encontrou um novo amor.
No momento, está bastante ativo. Além de manter a Masonry Experts (sua
companhia de construção), tocar sexta-feira, sábado e domingo no
Churrascos, Geraldinho é mestre de cerimônias do Karaokê, com apoio do
AcheiUSA, realizado todas as quintas-feiras no Restaurante Feijão com
Arroz.
Apesar de toda esta atividade, ele pensa em gravar um disco com canções
próprias e versões de canções internacionais. Pode ser seu segundo
disco, pois no primeiro, batizado de “Dance”, uma coletânea de vários
ritmos (bolero, valsa, cha cha cha, merengue, samba), ele assina como
Geraldo Janeiro. “Quando gravei, me sugeriram que usasse algum nome que
remetesse a Brasil. Aí, escolhi Janeiro por causa da cidade do Rio de
Janeiro”, explicou.
A continuar neste ritmo, ele vai tornar-se Geraldo Janeiro, Fevereiro e
Março, porque Geraldinho está a todo vapor. Portanto, um mês só é pouco
para resumir a intensa atividade deste artista da comunidade.
Ou melhor, das comunidades, porque como um camaleão Geraldinho é capaz
de se adaptar a qualquer situação.
Antonio Tozzi - AcheiUSA
|