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O Violonista que veio
do Recife
Se você não teve a oportunidade de assistir a uma apresentação de
Francisco Italiano dedilhando seu violão e executando clássicos da
música brasileira e internacional, má notícia. Ele está de mudança para
South Dakota, no norte dos Estados Unidos, onde será o diretor artístico
de uma rede de churrascarias batizada como Carnaval Brazilian Grill.
Mas como este pernambucano deixou a bela capital nordestina e foi parar
em Sioux Falls é o motivo desta reportagem. Afinal, o polivalente
Italiano mostrou na América que um artista sabe encontrar seus caminhos
através da música, mesmo em seu caso que a vida reservou outras
atividades como as de bancário e instrutor de auto-escola, entre outras.
Para entender a trajetória artística de Francisco Italiano, vale a pena
recuar no tempo e acompanhar como nosso violonista começou a aventurar-se
pelo mundo da música. Na verdade, a paixão nasceu na própria casa, com
seu pai e sua mãe servindo como professores e incentivadores do garoto
que já revelava desde cedo um talento incomum para o violão.
Conservatório musical – As aulas caseiras serviram para despertar
o interesse do pequeno Italiano, mas era preciso muito mais. Por isto,
seus pais o matricularam no Conservatório Pernambucano de Música, onde
ele estudou dois anos de violão clássico. “Devo muito ao maestro
Henrique Annes, que me ensinou a técnica violonística”, relembra o
entrevistado.
A técnica do violão clássico abriu as portas para Italiano tocar as
músicas do cancioneiro popular. Assim, entre os 10 e 15 anos o garoto
prodígio do Recife tocava músicas de grandes compositores e intérpretes
da MPB da época. Canções de artistas de prestígio como Nelson Gonçalves,
Lupicínio Rodrigues, Adoniran Barbosa, Orlando Silva e Anísio Silva,
entre outros, figuravam no repertório do menino que demonstrava seu
talento pela capital pernambucana.
Ele se profissionalizou ainda adolescente quando criou o conjunto “Ritmo
7”. Naquela época, o repertório da banda que animava bailes em várias
cidades do Nordeste era formado pelas músicas do Beatles e pelas canções
da Jovem Guarda – movimento musical comandado por Roberto Carlos e que
revelou os talentos de Erasmo Carlos, Wanderléia, Martinha, Os Vips,
Ronnie Von, Jerry Adriani, Wanderley Cardoso, Rosemary, Eduardo Araújo,
Silvinha, Renato&seus Blue Caps, Leno&Lilian, Dino&Deny e muitos outros.
Aliás, neste ano de 2005, a Jovem Guarda está comemorando 40 anos da
apresentação do primeiro programa na TV Record de São Paulo, palco da
turma que revolucionou as tardes de domingo da juventude da época.
Ídolos da música – Apesar da carreira artística, Italiano também
dedicava-se aos números. Daí, ele trabalhou mais de 20 anos em vários
bancos brasileiros, mas nunca deixou de tocar seu violão onde fosse
convidado. Claro que as festas promovidas pelo pessoal dos bancos e as
casas dos amigos eram ocasiões especiais para o bancário-violonista
mostrar sua classe. O repertório, porém, mudou, segundo o entrevistado:
“Por volta de 1975, retornei à Velha Guarda, executando os clássicos da
MPB, as músicas que consagraram a Bossa Nova e as que começaram a marcar
o sucesso da Tropicália (movimento musical iniciado pelos baianos
Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethania e Gal Costa)”.
Fã incondicional da música instrumental, Italiano sempre cultivou a
pureza da música bem executada ao violão. Por isto, ele admirou – e
admira – instrumentistas talentosos como Baden Powell (“Fiquei
emocionado ao encontrá-lo em Miami”, comentou), Henrique Annes e Turíbio
Santos.
Apesar da formação clássica, Italiano não discrimina nenhum tipo de
gênero musical. “Para mim, o que importa é a linha melódica. Toco de
tudo: samba-canção, xaxado, bolero, baião, samba. E música instrumental
não tem fronteiras. Por isto, executo canções americanas, portuguesa,
francesas, latino-americanas, italianas. O importante é ter um ouvido
universal e a mente aberta para absorver todas as influências musicais”,
ensina o violonista.
Instrutor de auto-escola – Depois da quebra do Banco Econômico,
Italiano achou que era o momento de tentar a sorte em outro país. Aí,
fez contato com um amigo aqui nos Estados Unidos e desembarcou no
Aeroporto de Miami no dia 1º de maio de 1991.
O começo foi chocante. As mãos que estavam habituadas a dedilhar violões
e segurar canetas foram castigadas durante quatro dias. Italiano arrumou
emprego para trabalhar na construção, mas a dureza do trabalho logo o
desanimou. Por isto, ele trocou a atividade pela de lavador de pratos no
Weston Hill Nightclub, em Fort Lauderdale.
Depois de um ano e meio de trabalho duro, ele começou a comprar
equipamentos e a fazer contatos com os músicos da noite. Italiano conta
um fato interessante: “Ganhava entre US$ 30 e US$ 40 por dia para lavar
pratos. Um dia fui tocar num mall, no centro de Miami, para os
freqüentadores da Churrascaria Pororoca. Fiquei durante quatro horas
tocando violão sentado num banquinho e, no final, o dono me pagou US$
70. A partir daí, resolvi voltar a tocar profissionalmente”.
Paralelamente enquanto tocava em várias casas brasileiras, como o Via
Brasil (antes de Joe Menezes), ele começou a dar aulas de direção na
Silvio’s Driving School. Em 1994, decidiu abrir sua própria escola,
batizada de Latin Driving School. No entanto, os ataques de 11 de
Setembro e o aperto das leis americanas para coibir indocumentados de
tirar carteiras de motorista inviabilizaram seu negócio.
Diretor musical em South Dakota – Quem é músico nunca perde a
habilidade. E Italiano percebeu que era o momento certo para retomar sua
carreira em 2001. Entretanto, ele não ficou restrito apenas aos bares e
restaurantes brasileiros. Passou a mostrar sua arte em várias casas no
Sul da Flórida, mas fixou-se no Deville Grill, um restaurante americano
de Fort Lauderdale, onde se apresentava às segundas, terças e
quartas-feiras. “O repertório era basicamente música internacional, com
clássicos americanos, italianos, franceses, latinos e, claro,
brasileiros, sobretudo bossa nova, que o pessoal adora”, comenta o
instrumentista.
Agora, um novo desafio se coloca para Francisco Italiano. Convidado por
Wilson Asfora, médico e diretor do Hospital Geral e da Universidade de
Sioux Falls, em South Dakota, ele está assumindo o cargo de diretor
artístico da rede de churrascarias Carnaval Brazilian Grill, cuja
primeira casa abre agora em setembro.
O interessante é que a amizade com o médico-empresário surgiu através da
música, pois Asfora também é violonista clássico. E por coincidência
pernambucano. Italiano, aliás, terá de se entender com a esposa do
conterrâneo, a americana-canadense Rose, porque o médico é um homem
muito ocupado e não tem tempo para cuidar do restaurante.
Além de ser um dos artistas a integrar a programação da casa, Italiano
está levando um grupo de brasileiros que mostrarão a arte de nossa
música e dança naquele estado do norte dos Estados Unidos. “O grupo é
formado por Marcos, que toca cavaquinho, pela cantora Martha Cardoso e
pelas dançarinas Tamara e Daniela e comigo no violão”, revela o diretor
artístico.
Se o projeto der certo, todos sentirão falta do bom humor de Italiano em
Broward, mas já sabem onde encontrá-lo. Apesar de estar ocupado, ele
pensa em compor músicas para fazer um CD de canções próprias. Por
enquanto, tem somente uma canção pronta, composta em 2003. “Compus o
choro-baião intitulado ‘Showrinho’, inspirado na obra do violonista
cearense Nonato Luiz. Estou pensando em gravar, mas gostaria que alguém
colocasse letra, de preferência um compositor nordestino, que tem
intimidade com o gênero musical”, sonha Italiano.
E os artistas que conhecem Francisco Italiano podem entrar em contato
com o diretor artístico que precisa montar a programação do restaurante.
“Começaremos com shows simples e à medida que for aumentando o movimento
levarei atrações especiais. Penso também em algo sofisticado como o Duo
Assad (irmãos violonistas muito talentosos) e meu mestre Henrique Annes.
Portanto, haverá espetáculos para todos os gostos”, promete.
Apenas uma coisa incomoda Francisco Italiano: “Detesto frio. Para mim,
trocar o calor da Flórida pelo clima gelado de South Dakota não será
fácil. Mas a experiência vale a pena”.
Pelo menos, os brasileiros que farão os shows no restaurante aquecerão o
ambiente com a ginga e o calor humano: marcas registradas de nossa gente.
Antonio Tozzi
- AcheiUSA
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