Jeanette Bezerra: A Artista da Comunidade
Ela era o que se pode chamar de uma mulher que valorizava a vida, os
amigos e sempre estava disposta a estender a mão para quem precisasse
Falar
sobre Jeanette Bezerra é algo prazeroso e, ao mesmo tempo, doloroso.
Prazeroso porque conviver com ela foi um privilégio. Doloroso porque ela já
não mais está entre nós.
Falar sobre Jeanette Bezerra, no entanto, é bom, porque ela foi uma pessoa
que partiu, mas deixou entre nós um sentimento de que na vida se é preciso
viver intensamente cada segundo, cada momento para não se arrepender depois.
Isto, aliás, é o que ela fazia.
E nada, nem ninguém a segurava. Mesmo doente, não perdia o gosto pela
independência. Dividia-se entre a Flórida e Nova York. Fazia questão de
caminhar, todos os dias, mesmo que fosse por pouco tempo...
Quando tinha de se internar, falava para os amigos que ia passar uns dias
fora. Não gostava de ser visitada na clínica ou hospital, locais que não
combinavam com sua alegria e alto astral. Preferia ficar só naqueles
momentos. E detestava a expressão de piedade das pessoas, quando falava da
doença. Por isso, falava do câncer como se estivesse com uma gripe, sem dar
demasiada importância ao fato.
E o câncer sorrateiramente levou Jeanette Bezerra, atriz e promotora
cultural brasileira, radicada nos Estados Unidos desde os anos 60, na noite
de 10 de agosto de 2007. Pioneira dos carnavais brasileiros no exterior, com
seu “Brazilian Follies”, Jeanette foi vítima deste câncer contra o qual
lutava há anos e que, no fim, a levou aos 69 anos. Ela deixou viúvo Frank
Moksel e Frank Jr., seu único filho. Ele, por sinal, estava ao lado da mãe e
de uma enfermeira e, de acordo com o desejo dela, o corpo foi doado à
Universidade de Miami para fins científicos. Como se vê, até na morte ela
teve uma atitude altruísta, como sempre foi de seu feitio.
Vivendo a “vida loca”
Em
vez de se queixar da doença, ela enfrentava tudo com bravura e denotava, às
vezes, um certo sentimento de autopunição. Era como se encarasse a doença
como uma punição divina pela vida louca que teve. Não que se se arrependesse,
mas admitia ter exagerado algumas vezes, até usando drogas nos “idos e
loucos anos 70”.
Após ter se casado, recebia artistas e autoridades brasileiras em sua casa
em Nova York. Ela gostava de frisar que, em sua casa, todos tinham de se
vestir elegantemente para jantar, almoçar ou até mesmo para o breakfast. Era
uma de suas extravagâncias. Cultivava o bom gosto, e sempre pensava nos
outros. Muitas vezes fez doações e eventos para ajudar a Casa dos Artistas,
no Brasil.
Apesar de estar sempre promovendo reuniões entre os membros da comunidade,
guardava um certo ressentimento. Ela sentia que não havia, por parte da
comunidade, o reconhecimento por quem ela era e por aquilo que ela fazia.
Achava que as pessoas não lhe davam a importância devida. Nem todos,
Jeanette, nem todos…
História de uma batalhadora da vida - Ela nasceu no interior de Pernambuco,
e não teve o que se pode chamar de uma infância feliz. Dizia ter pai
alcoólatra, que batia na mãe dela. Para poupar os filhos desta vida, a mãe
doou os filhos para que fossem criados por outras pessoas. Ela deixou a casa
dos pais muito pequena e só reencontrou o irmão, Francisco, depois de adulta.
Foi
para Recife, onde foi criada e fazia serviço de empregada doméstica. Contou
ter sido maltratada e abusada, por isto fugiu desta casa e ficou
perambulando pelo porto do Recife. Foi lá que conheceu uma mulher, que disse
ser o anjo de sua vida, a qual a levou para o Rio de Janeiro, onde descobriu
um mundo novo.
Lá, envolveu-se com uma turma que gostava da noite, e de paetês. Entrou para
o teatro, onde participou da peça “Gente Bem Champanhota”, de Colé, um
tremendo sucesso na época. Era a época de Virginia Lane, dos grandes
espetáculos de teatro de revista.
Num concurso de beleza, ganhou uma passagem para estudar inglês nos EUA, por
seis meses, na década de 60. Isto lhe abriu as portas para os EUA. Depois,
voltou ao Brasil, mas resolveu viver fora do Brasil e retornar para os EUA,
onde morou até sua morte.
Em Nova York viveu a época efervescente do Studio 54, onde conheceu o marido.
Naquela época, criou o Brazilian Folies, que rodou vários países e esteve em
quase todos os continentes com esse show. Algo raro para a época, mas quem
disse que Jeanette Bezerra era uma mulher comum?
Carinho dos amigos
Os que tiveram o privilégio de a conhecer guardam doces lembranças de
Jeanette Bezerra. Este é o caso de Maria Ravani, sua amiga de mais de 30
anos: “Ela foi um exemplo de mulher guerreira e vai deixar na nossa
lembrança uma imagem de alegria e positividade. Jeanette foi uma batalhadora,
e sempre colocou o Brasil em primeiro lugar em tudo que fez”.
“Expressar
com palavras o que passa por meu coração e minha mente ao falar de Jeanett
Bezerra? Estive com ela dias antes de sua passagem. Só consigo lembrar dos
olhinhos brilhantes, como um último rastro de vida latente, naquele nosso
último encontro. Agradeço a Deus pela oportunidade de tê-la conhecido e ter
podido desfrutar de momentos alegres, de sorrisos, gargalhadas,
confidências, carinho e generosidade ao lado dela. Generosidade é palavra
que mais me vem à cabeça ao lembrar dela. A vedete Jeanett, a amiga Jeanett,
a “perua mãe” Jeanett. Das pernas bonitas, do sorriso fácil, das histórias
picantes, da alegria constante. Seu desprendimento às coisas materiais fez
com que doasse em vida seus orgãos e todo seu corpo para a faculdade de
Medicina de Miami, para estudos. Não queria ninguém chorando por ela em
volta de um caixão. Sabia que o corpo físico é “escafandro do espírito”.
Agora é irmanar nosso pensamento e pedir a Deus que ela tenha o merecimento
de ser acompanhada, neste momento de transição, por uma falange de
espíritos amigos de amor e de luz, sob a proteção do Mestre Jesus. A carinha
dela está no meu site há anos (na parte de fotos dos amigos) e estará nas
minhas preces e no meu coração. De forma sincera. Para sempre...”
Rose Max
“Meu
primeiro contato com Jeanette ocorreu antes de sua mudança para a Flórida,
em 1991. Sabendo de sua trajetória, dos palcos da Cinelândia para o Carnaval
do Waldorf Astoria e a Broadway, sabia que seu desembarque na Flórida
significava notícia e a perspectiva de acontecimentos relevantes. Ficar
amigo de Jeanette foi fácil e rápido. Simples, alegre e permanentemente
interessada em promover os artistas brasileiros na América, nossa amizade se
tornou lógica e natural desde o primeiro encontro. Bela e comunicativa,
Jeanette se realizava no palco. Desejou, nos minutos finais, que fosse
lembrada pela alegria e pela vida. Nada mais lógico. Por que onde quer que a
luz de nossa vedete for, carregará consigo a alegria de viver, que foi a
marca de sua passagem por esta vida. Viva Jeanette Bezerra” Carlos
Borges
“Conheci
Jeanette em 1971, no baile de carnaval, black-tie, no Waldorf Astoria, em
Nova York. Assim que a vi, percebi que era uma figura simpática, bonita,
alto-astral e com um brilho e as pernas que só ela tinha. Nossa
identificação foi imediata e ficamos amigas de verdade, tanto que muita
gente dizia que nunca era possível encontrar uma sem a outra. Durante estes
mais de 35 anos de convivência, ela se mostrou uma mulher incrível, com um
amor enorme pelos amigos, pelo Brasil e pela sua arte. Não guardava rancor
de forma alguma, nem daqueles que lhe faziam mal. Estava acima disso. Antes
de nos deixar, mesmo sofrendo, jamais reclamou das dores e sempre se
mantinha positiva em relação à vida. Sabendo que estava sendo vencida pela
doença, disse que iria me levar no coração. E ela também vai estar no
coração de toda a comunidade brasileira aqui nos Estados Unidos, como a
nossa verdadeira estrela. Ela fará muita falta.” Maria Ravani
“Imagino
Jeanette chegando no outro plano de pau-de-arara. Porque a característica da
artista, que mais me chamava a atenção, era o orgulho da sua nordestinidade.
E a força em superar os empecilhos que fiquei facilmente fascinada com a
garra da pernambucana, que desde cedo ultrapassou barreiras geográficas e
culturais para demarcar seu espaço no mundo. Todas as conquistas dentro e
fora do Brasil pareciam apenas o desfecho natural para a “bichinha
arretada”(ela, às vezes, auto-referia-se assim). Eu sempre admirei a forma
como ela falava, com orgulho, da infância pobre e da fome vivida nas
calçadas de Recife, onde perambulava, quando criança, cantando e dançando.
Depois viriam as plumas e paetês e o mundo se curvando às suas empreitadas
culturais. Tudo parecia a premiação natural para uma guerreira incansável.
Até por isso é difícil entender porque seu ato final foi roteirizado de
forma tão dolosa. Gostaria de tê-la visto sair de cena sob milhares de
aplausos, cantando e dançando, em cima de um pau-de-arara e pronta para
levar sua folia para outros planos. Mas quis Deus que seu último ato fosse
silente. A nós, basta apenas lamentar a partida inoportuna. Na minha memória,
guardarei a imagem forte de Jeanette, lutando contra a doença traiçoeira e
lamentando-se, apenas, de não ser mais reconhecida pela comunidade. Queria
fazer uma biografia, sem censuras. Mas logo após começar as entrevistas,
teve que se ausentar para mais umas das suas ‘pequenas viagens’ (se referia
assim às internações). As últimas imagens que guardo dela são a da artista,
já debilitada, que me recebia para alguma conversa ou entrevista, e fazia
questão de cozinhar e caminhar pelos arredores do seu condomínio,
demonstrando sua independência e vontade de viver. Porque viver sem limites
era o seu maior compromisso na terra!” Vanuza Ramos