Julinho Spicacci, voz e
violão
Foto: Wayne Previdelli
Ele
veio sem muita conversa, sem muito explicar. Só sei que que queria cantar
e tocar violão. Os versos de Chico Buarque resumem com exatidão o sonho e
a vida de Julinho Spicacci, paulista de nascimento e goiano de adoção, que
fez da voz e violão o seu jeito de ganhar a vida.
A vocação musical de Julinho despertou bem cedo. Influenciado pelo irmão
mais velho (autor de jingles e hoje engenheiro de segurança), acordava
entre 4 e 4h30 da manhã para dedilhar o violão. Detalhe: tinha apenas oito
anos de idade. A partir daí, o garoto passou a dividir seu tempo entre
escola e música.
O caminho natural passou a ser tocar na noite. Assim, aos 15 anos de idade,
tornou-se o mais novo artista profissional da noite de Goiânia. “Ganhava
na época três milhões de cruzeiros”, lembra Julinho. Moeda que a maioria
dos jovens brasileiros nem sabem que existiu um dia.
O menino passou a ser tratado como “irmão caçula” do pessoal. Ele lembra
que havia uma turma boa naquela época, como o baixista Bororó, o
tecladista Ricardo Leão e João Caetano, compositor, que já teve músicas
gravadas por Ivan Lins e outros astros da MPB. O problema dele era evitar
que o pai soubesse que se tornara um boêmio. “Quando cheguei com o
pagamento, meu pai me fez ir junto com ele até o bar para ver se eu não
tinha roubado o dinheiro”, conta. O pai, aliás, nunca foi assistir a uma
apresentação ao vivo de Julinho. Para compensar, ele não perdia um show de
Julinho nas TVs locais.
De repente, Europa. A vida de músico da noite ia de vento em popa. Tão bem
que ele nem mesmo pensou em seguir outra carreira. Na verdade, tentou
tornar-se advogado – “sempre quis ser delegado federal ou juiz de direito”
-, mas não foi aprovado no vestibular de Direito. Conseguiu entrar no
curso de Administração de Empresas, e freqüentou apenas três semanas de
aulas. “Aí não dava mesmo. Estava totalmente comprometido com a música”,
confessa Julinho.
E foi sua habilidade musical que lhe abriu as portas para Europa.
Recém-casado, recebeu um convite para tocar na banda de um amigo que
morava na Bélgica. O jovem casal programou, então, uma viagem de turismo
por alguns países europeus antes de integrar-se ao grupo. No roteiro,
estavam França, Espanha, Itália e Portugal.
Em Portugal, porém, sua vida tomou outro rumo. Logo arrumou emprego em um
bar chamado Gafieira, e resolveu ficar em Lisboa mesmo. “Naquele momento,
as músicas brasileiras faziam bastante sucesso em Portugal, por causa das
novelas da TV Globo. E eles não tinham músicos brasileiros. Aí fiz o maior
sucesso tocando e cantando em português, com sotaque brasileiro. Além do
mais, me senti mais seguro ficando por lá, onde já dominava o idioma e não
fazia tanto frio”, relembra Julinho.
Sua fase portuguesa durou uns cinco anos, tempo em que se apresentou na
maioria dos restaurantes do país. Participou até mesmo de um programa
realizado pela Disney de Portugal, onde interpretou a composição de Renato
Teixeira “Romaria”, grande sucesso na voz de Elis Regina, e “Fogo e Paixão”,
de Wando, música que estourou na parada e adorada pela maioria dos
ouvintes. O problema é que Julinho Spicacci nunca identificou-se com o
trabalho de Wando. Teve, então, de esconder suas preferências musicais e
dar o melhor de si na interpretação do sucesso de Wando. Nesse meio tempo,
ele surgiu em um Globo Repórter sobre os brasileiros que viviam em
Portugal, em uma reportagem de Pedro Bial.
Chegou, porém, o momento de aventurar-se por outros países. E Julinho pôs
o violão nas costas para tocar na Bélgica, na Itália e na Espanha,
particularmente em Palma de Mallorca, Ibiza e Tenerife. Ele juntou-se a um
grupo de folclore brasileiro, com show de mulatas, samba e coisas do
gênero. “Apresentávamo-nos em hotéis para turistas”, diz o violonista, que
era também o único que tocava instrumentos de cordas. Insatisfeito com o
rumo de sua carreira, Julinho decidiu retornar a Portugal, mas já não
encontrou a mesma receptividade de antes.
Volta ao Brasil. Depois de ter ficado cinco anos sem ter voltado ao Brasil,
ele e a esposa resolveram regressar a Goiânia. No início, foi bom porque
voltou com experiência de músico internacional e todos se lembravam de sua
entrevista no Globo Repórter. Aí, a capital de Goiás teve de volta um
músico agora mais vivido do que aquele que partira.
Entretanto, a ligação com Portugal continuou presente em sua vida. Além de
tocar no circuito noturno de Goiânia, o conhecimento sobre a pátria-mãe
abriu-lhe as portas para outra atividade: guia turístico para idosos que
queriam visitar Portugal. Se a vida profissional estava envolvente, a
pessoal enfrentava percalços. O casamento de dez anos acabou-se, deixando
como fruto Amanda, uma menina de 11 anos de idade que é a paixão de
Julinho Spicacci. “Ela é a minha maior fã”, conta o orgulhoso papai, que
não vê a hora de recebê-la nos Estados Unidos.
Além de tocar na noite, Julinho começou a trabalhar com representação
comercial de produtos para a região Centro-Oeste. Dava um duro danado, mas
admite que chegou a ganhar um bom dinheiro. Aliás, ele mesmo confessa que
seu problema nunca foi exatamente ganhar dinheiro, mas, sim, saber investi-lo
com sabedoria.
Nos Estados Unidos. Como já possuía licença de guia turístico, surgiu a
oportunidade de viajar com um grupo de adolescentes para os Estados Unidos,
em 1999. Ele topou a empreitada, apesar de não dominar o inglês. Mas teve
uma carreira meteórica. “Quando desembarquei em Miami, não consegui
segurar a barra. Aí liguei para a agência e pedi que enviassem o guia
turístico reserva. Estava acostumado com a tranqüilidade dos velhinhos e
fiquei maluco com a desobediência dos adolescentes”, relembra.
Para não perder a viagem, ligou para um amigo que vivia em Miami e ficou
na casa dele durante 13 dias. A amizade com Romário logo rendeu um convite
de trabalho, para atuar na área de reforma e decoração de interiores de
aviões. Foi ainda a oportunidade de reencontrar sua vocação musical, pois
passou a acompanhar Simone, mulher de Romário e cantora.
A fim de fazer a vida nos Estados Unidos, Julinho já fez de tudo um pouco,
como trabalhar em restaurantes e na construção, mas nunca abandonou sua
paixão pela música. Agora, divide seu tempo entre vendas e instalação de
pisos laminados de madeira e apresentações em casas noturnas do Sul da
Flórida, como o Feijão com Arroz, onde toca todos os sábados à noite.
“Posso dizer que é uma das experiências mais gratificantes que tenho tido”,
garante o músico.
Depois de ter lançado um CD em fevereiro deste ano, com apoio do AcheiUSA
Newspaper, Julinho já está com a cabeça voltada para outros projetos:
“Estou pensando em gravar um disco com uma coletânea de músicos goianos ou,
então, um tributo a Chico Buarque de Hollanda”. Chico é para ele
simplesmente o melhor de todos. Julinho possui todos os discos, letras e
partituras do compositor carioca. Um sonho? Acompanhar Chico em uma
apresentação ao vivo.
A vida sempre nos reserva surpresas. Quem sabe seu sonho não se torne
realidade...
Antonio Tozzi - AcheiUSA
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