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Nadia Nardini: Uma
Artista de Dois Mundos
Se
você perguntar a Nadia Nardini qual é sua atividade artística ela poderá
responder:
– Sou coreógrafa; ou então:
– Sou bailarina. Pensando melhor, ela dirá:
– Sou atriz.
Qualquer uma das respostas está correta para definir a carioca Nadia
Nardini, que vive na Flórida há 13 anos – descontando-se o curto período
em que retornou ao Brasil. Aliás, Nardini nem é o seu verdadeiro
sobrenome. Ela o adotou quando foi sindicalizar-se e lhe perguntaram
qual era o seu nome artístico. Foi, então, que Nadia Silva (seu nome de
batismo) transformou-se em Nadia Nardini, seguindo sugestão de um amigo.
E Nardini passou a ser o sobrenome artístico de toda a família.
Nadia sempre foi determinada. Começou a dançar com apenas quatro anos de
idade e aos 23 anos já era dona de uma escola de dança no bairro da
Gávea, no Rio de Janeiro. Em seguida, associou-se ao arquiteto e
cenógrafo José Carlos Ripper (já falecido) para fundar um Centro de
Artes em Botafogo. “Nosso objetivo era reunir todas as formas de
manifestações artísticas em um só lugar”, comentou a bailarina.
Desponta a coreógrafa e a atriz – Aos 23 anos de idade, ela
estava no elenco do show de Lenny Dale, um dos mais famosos bailarinos
americanos, cujo espetáculo foi montado no Rio. Demonstrando sua
versatilidade, Nadia foi convidada para fazer a coreografia para uma
peça infantil de Lauro Corona e Bia Nunes: “História de Copélia”.
No momento de estréia da peça, a atriz que deveria fazer o segundo papel
feminino na peça simplesmente desapareceu. O diretor e os atores
sugeriram – melhor seria dizer exigiram – que Nadia assumisse o papel
para a peça não ter sua estréia adiada. Ela tentou argumentar que não
era atriz e não havia ensaiado, mas eles não aceitaram desculpas. Para
sua surpresa, ela não só saiu-se bem como foi indicada para o Troféu
Mambembe, que premia os melhores profissionais de teatro da temporada.
Embora satisfeita com o desempenho, Nadia creditou a indicação ao fator
sorte. “Não poderia ser outra coisa, pensei. Nunca havia feito curso de
atriz, entrei de improviso e ainda obtive críticas favoráveis. Tudo isto
me estimulou a aceitar outro papel – desta vez de protagonista – na peça
infantil ‘Chapeuzinho Quase Vermelho’. E fui novamente indicada para o
Troféu Mambembe”, conta a artista. Ela sentiu que de fato tinha talento
para a arte dramática
Daí, para o teatro adulto foi um pulo. Participou do elenco do Teatro
Musical Brasileiro, dirigido por Luiz Antonio Martinez Correa. Depois, a
convite de Jorge Fernando, fez a peça “A Divina Chanchada”. Descobriu-se
comediante e integrou o elenco da peça “Chorus Line”, montada em São
Paulo (Teatro Sérgio Cardoso) e no Rio (Teatro Teresa Raquel), onde
interpretou o papel de Val.
Paralelamente, montou a Companhia Bandança de Teatro Musical, com 12
integrantes, inclusive seus irmãos Tony e Tania. Nesta companhia, pôde
reunir a dança, a arte dramática e música.
E o trabalho de coreógrafa também não foi esquecido. Convidada por Jorge
Fernando, fez coreografia para várias novelas da TV Globo e participou
como atriz na teledramaturgia da emissora. Coreografou, entre outras,
“Que Rei Sou Eu?” e atuou em “Corpo Santo”. Mas seu talento como
coreógrafa foi sendo cada vez mais reconhecido. E ela confessa ter
coreografado a maioria dos artistas no Rio de Janeiro: “Coreografei até
mesmo Ana Botafogo (na época, a principal bailarina brasileira), num
espetáculo dirigido por mim.”
Momento da virada – Certo dia, recebeu um telefonema de uma
produtora de shows. Ela pediu a Nadia que recomendasse uma dançarina
para participar de espetáculos em navios de turismo que viajavam pelo
Caribe. Para surpresa da moça, chamada Simone, a própria Nadia se
candidatou ao cargo. Simone ainda alertou que ela era muito talentosa
para a vaga e poderia ficar aborrecida com a rotina dos shows para
turistas que lotam navios de cruzeiros.
Nadia, porém, estava mesma decidida a mudar de ares. E em três dias
arrumou as malas e desembarcou em Miami. Durante sete anos, integrou o
elenco de companhias artísticas que se apresentaram em navios de grandes
empresas como Royal Caribbean, Celebrity e Costa.
Para ela, foram anos bem divertidos. Até o momento em que se apaixonou
pelo homem com quem viria a casar e trocou o mar pela terra. “Fiquei dez
anos casada e durante este período me afastei da carreira artística.
Depois da separação, resolvi voltar para o Brasil porque achava que meu
lugar não era aqui nos Estados Unidos. No entanto, tive de retornar para
cá por causa da minha cidadania. E o que deveria durar dois a três meses
demorou mais de seis meses”, disse Nadia.
Redescoberta da carreira artística – No início, ela ficou
altamente irritada com a official de imigração que lhe pediu uma série
de documentos para dar andamento a seu processo de cidadania. Mas hoje
até agradece a intransigência da mulher. Graças a ela, Nadia pôde
organizar sua vida e teve tempo de repensar sobre o retorno à carreira
artística.
Adepta do budismo, ela fez uma auto-reavaliação e descobriu que seu
problema não estava no Brasil ou nos Estados Unidos, mas, sim, em seu
interior. Decidiu, então, retomar a carreira, interrompida durante os
anos de casamento, aqui mesmo nos EUA. “Atualizei meu curriculum e
mandei para três agências de casting. Fui chamada pelas três. O
interessante é que mandei um curriculum e fotografias como se pede no
Brasil, que é bem diferente das exigências americanas. Hoje, sou
contratada das três”, contou, orgulhosa, Nadia, que foi chamada para
fazer comerciais para uma agência de viagem, uma companhia de TV a cabo,
uma rede de drogarias e para o Wal Mart.
Encantada com a boa receptividade, ela decidiu sonhar alto. Queria mesmo
era participar de um filme. Em janeiro deste ano, ficou sabendo que um
professor de cinema daria cursos para formação de atores. Quando foi
inscrever-se informaram-lhe que as vagas já estavam preenchidas.
Confiante, Nadia disse: “Pode pôr meu nome na lista de espera. Aí,
alguém desistiu, e fui chamada”.
No Brasil, Nadia caracterizou-se por ser comediante, mas nos EUA,
durante o curso do professor, interpretou alguns papéis dramáticos.
Ganhou elogios dele, que a incentivou a seguir na carreira artística,
porque é muito talentosa.
Persistência e confiança – Depois de orar pedindo que surgisse a
chance de fazer um filme, alguém lhe enviou um roteiro três dias depois.
O papel era sobre uma mulher, mãe do protagonista (Matt MacGrath), que
sofre de mal de Alzheimer. Ela leu o papel, se preparou e foi para o
teste. Ao chegar ao local, foi descartada pelo diretor de elenco, que a
achou muito jovem para o papel. Nadia tem 51 anos e aparenta bem menos,
enquanto a personagem é uma mulher de 65 anos. Tirou a maquiagem e,
novamente, foi dispensada pelo diretor. No momento das filmagens, ela de
novo apareceu diante do diretor, que já demonstrava irritação com tanta
insistência. Depois de tanto pedir, ele concordou em fazer apenas uma
cena com Nadia para que ela voltasse para casa.
No íntimo, sabia que não seria chamada, mas deu o melhor de si naquela
cena. Para sua surpresa, recebeu um telefonema três dias depois lhe
informando que havia ganho o papel. Outra surpresa agradável foi
descobrir que a roteirista Xandra Castleton falava português, por ser
uma americana, filha de pais brasileiros, que adorou seu trabalho. Tanto
que já prometeu escrever um papel para Nadia no seu próximo filme.
Ela agora está ansiosa para ver o lançamento de “The Full Grown Men”,
dirigido por David Munro, que está sendo submetido à comissão do
Sundance Film Festival. Ela adorou a experiência e o profissionalismo da
equipe e curtiu o fato de ter até mesmo um trailer à sua disposição. “O
papel é pequeno, mas sinto que me abriu o caminho para o universo”,
revelou.
Agora, seus planos incluem um papel no filme baseado no livro de
Guilherme Fiúza, “Meu Nome Não É Johnny”. Depois de ter lido o livro e
se apaixonado pela história, Nadia quer integrar o elenco do filme que
será rodado no Brasil. A atriz já falou com o próprio Fiúza e mandou um
e-mail para a produtora. Além disto, pretende se mandar para a
Califórnia, em abril do próximo ano, a fim de tentar definitivamente
entrar no cenário artístico americano.
Com fé no budismo e confiança em seu trabalho, Nadia promete: “Serei a
primeira atriz brasileira a ganhar um Oscar!”. E quem se atreve a
duvidar?
Antonio Tozzi
- AcheiUSA Newspaper
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