Das calçadas do
Piauí às paredes da Casa Branca
Naza deu a volta no mundo para provar seu
talento
Hora
marcada para entrevistá-la e nos primeiros contatos ela já dá uma
demonstração da personalidade dispersa: não consegue me fornecer seu
endereço corretamente. “Eu não sei se é 1245 ou 1425!”, diz Naza, ao
telefone. Mas essa é uma daquelas esquisitices que só os privilegiados de
talento podem ostentar. E esse direito ela conquistou. “Eu sou muito
bagunçada”, se declara sem necessidade Maria Nazaré Maia Rufino, 48 anos,
que recebeu a reportagem AcheiUSA em seu ateliê, em Deerfield Beach.
A “bagunça” é interior e já faz parte da vida da artista, conhecida como
Naza. Ela tem dificuldade de organizar algumas informações na cabeça e
coisas comuns como lembrar seu endereço, dias de compromisso e onde
estacionou o carro, ou executar trabalhos domésticos, se tornam um
martírio. Ela é capaz até de esquecer o dia e hora de uma vernissage,
porém não esquece, até hoje, a origem humilde e os passos que teve que
percorrer para chegar até o que é hoje: uma artista brasileira que já teve
quadro pendurado nas paredes da Casa Branca, na casa de personalidades
como Ivana Trump e Ayrton Senna, e conta com o privilégio de ser uma das
artistas brasileiras que mais vende nos Estados Unidos. “A chance de
Picasso se tornar ‘o Picasso’ eram maiores do que as de Maria Nazareth se
tornar Naza”, diz a artista, lembrando a infância pobre em Santa Cruz do
Piauí, em cujas calçadas deixou seus primeiros rabiscos a carvão. “Picasso
estava na Europa, onde os movimentos culturais estavam acontecendo. Eu
estava em Santa Cruz do Piauí, uma cidade onde passava carro uma vez por
ano”, conta meio divertida.
Rabiscos nas calçadas do Piauí
Na época dos rabiscos em calçada ela ainda não tinha consciência do seu
talento. Gostava de desenhar, e da irmã Maria das Dores recebia dicas de
ângulos e rostos. “Ela era melhor do que eu mas nunca quis seguir a
carreira”, diz. Seu talento começou a ser notado ao desenhar Jaqueline
Kennedy e Nelson Rockfeller, ainda aos 11 anos e sem qualquer conhecimento
sobre técnicas. Naquela época pediu ao pai para enviar seu trabalho para o
programa Voz da América, o preferido do seu pai, e que era transmitido
para o Brasil direto dos Estados Unidos, no que já parecia uma certa
vontade de conquistar terras distantes.
Na adolescência foi estudar em outro estado, o Ceará, e continuou fazendo
alguns trabalhos, mas sem pretensão. A vontade de ser profissional só
surgiu mesmo em 1974, em Brasília, quando ela teve o primeiro contato com
pincéis e tintas. Obstinada, resolveu "viver da arte" em Recife, para onde
se mudou. Todos diziam que "artista morria de fome", então ela resolveu
ter uma profissão segura. Conseguiu alguns empregos para sustento. Até
então já havia recebido uma menção honrosa em Brasília, em 1976, em sua
primeira exposição coletiva.
Carreira em paralelo
A carreira foi mantida em paralelo e começaria a mudar em 1983, quando
conheceu o marido, o americano Stuart McFarren, que a tirou de Picos, no
Piauí, e a levou para outro mundo, em 1985.
Foi nesse mundo, os Estados Unidos, que ela pôde dar vazão ao seu talento.
Como esposa de militar, vivendo no Panamá, tempo não lhe faltava. Começou
a circular entre personalidades e autoridades, e uma delas, o ditador
Alberto Noriega, foi pintado por Naza.
Seria apenas o primeiro dos mais importantes retratos que já pintou.
Sempre se infiltrando em meios sociais restritos a pintora também teve a
oportunidade de pintar Ayrton Senna, Roberto Carlos, além das socialites
Ivana Trump, a brasileira Vera Loyola, a francesa Briggite Bardot etc.
Os retratos foram o princípio, mas a vertente de Naza estava mesmo voltada
para o abstrato e o figurativo, que passou a desenvolver nos Estados
Unidos, especialmente na década de 1990.
Foram anos fáceis, até 95. Naza mantinha clientes no Brasil, dos quais
pintava retratos, e com a receita desses trabalhos investia na carreira
nos EUA. "Tudo que eu ganhava eu gastava com a minha carreira. Quantos
eventos de 300 dólares por prato eu não fui para conhecer as pessoas?
Quantos releases de eventos meus eu não mandei para os jornais americanos
e eles nem publicavam nada?", diz a artista explicando porque não é rica e
como conheceu personalidades como Ivana Trump, em um desses jantares
beneficentes. Ela acredita que tenha investido, em sua carreira, pelo
menos 300 mil dólares.
Depressão e crise
Depois dessa fase de investimento foi que vieram os dias difíceis, quando
ocorreu a desvalorizção do Real, entre 1993 e 1998. Os trabalhos no Brasil
foram ficando escassos e a vida dela começou "a virar uma bagunça", como
lembra.
Cinco anos após ter iniciado sua boa fase na Flórida, ela se viu sem
dinheiro, tendo que se desfazer do caro estúdio que mantinha, e tendo que
buscar novos rumos para sua vida. Só que ela não havia se preparado para
tempos de crises e começou a entrar em depressão. "Eu fui ao poço. Por
quase um ano fiquei em depressão. Eu não conseguia focalizar minha atenção
numa saída para o meu problema", lembra.
A solução veio através de remédios para aliviar a depressão química,
descoberta na época do divórcio, no final dos anos 80. "É uma disfunção
química que eu tenho; não depende de situações tristes para me deixar em
crise e me deixa sem capacidade de organizar minhas idéias", explica.
Vencida a depressão química, ela conseguiu se reorganizar. Passou a dar
atenção exclusiva ao mercado norte-americano e descobriu que tinha muito
campo para explorar. Pintando em casa, promovendo seu trabalho aqui e ali,
foi conquistando espaço e fãs. Fez várias exposições locais, e em outro
estados. Dos jantares beneficentes consequiu não só o convite para pintar
Ivana, mas também contato como muitas socialites que conheceram e
compraram seus trabalhos.
Livre dos retratos também teve mais tempo para se concentrar no abstrato,
seu lado estilístico mais notável. As dores da vida real passou para as
telas. "Eu sofro muito pintando. Cada tela, para mim, é dolorida, porque
eu chegou em frente à tela, em branco, sem saber o que fazer. Vou só
deixando fluir", diz.
Doação a Clinton
Dessa forma surgiram quadros especiais, como a águia que pintou para
comemorar a autorização do governo norte-americano de dupla cidadania para
brasileiros. O presidente, na época, era Bill Clinton, que recebeu o
quadro e, segundo a confidência de um fotógrafo amigo dela, manteve
pendurado em sua sala na Casa Branca. O quadro agora está no acervo
pessoal de Clinton.
Também pintou Ayrton Senna, ao presenciar no Brasil a comoção que sua
morte causou no país. Doou o quadro para a Fundação Ayrton Senna e foi
surprendida, depois, com um telefonema da mãe de Ayrton, que se tornou sua
fã e cliente cativa também.
Mas não é só na "alta roda" que ela mantém seus clientes. Ela se orgulha
de ter entre seus admiradores e clientes cativos um "mestre-de-obras" da
Carolina do Norte, que já chegou a vender um mobile home para comprar um
quadro. "Ele tem, atualmente, vários quadros meus e já determinou no seu
testamento que os filhos não podem herdar meus quadros. Eles terão que ser
doados para um museu", revela.
Para ela, mais importante do que vender é ver seu trabalho sendo
valorizado por quem o compra. Ela gosta de afirmar que quanto mais rico,
menos sensível ao seu trabalho é o cliente. "Quem tem mansões é mais frio
em relação à arte. Os meus compradores não têm móveis caros; eles têm arte
na parede", resume orgulhosa.
Prêmios
Para coroar feitos como esses também recebeu distinção em instituições
como MASP - Museu de Arte de São Paulo e na Academia de Artes e
Literatura, de Paris - nesta última ganhou o prêmio Croix D'Argent pela
"contribuição para o melhoramento da raça humana", com seu trabalho.
Ganhou ainda diversos outros prêmios, que nunca parou para contar, e tem
obras suas nos acervos do Museu of Hispanic and Latin American Art
(Miami), Fayetteville Museum of Art (North Caroline).
Tantos trabalhos bem sucedidos lhe deram o status de artista de primeiro
porte, o que ela admite. "Ninguém pode mais desvalorizar meus quadros",
afirma, sem pedantismo. O sucesso encara com naturalidade e sem
estrelismo, e faz questão de afirmar que não está rica, mesmo tendo seus
quadros valorizados, custando entre 3.000 e 8.000 dólares. "O sucesso do
artista não se mede pelo quanto ele ganha mas quanto é respeitado", afirma
ela, que mantém um emprego cotidiano para pagar suas contas. O dinheiro
que ganha com sua arte reinveste na arte, e guarda um pouco. "Prefiro
viver humilde e saber que vou poder pagar minhas contas no final do mês",
diz Naza.
Questionada sobre como encara o sucesso que conseguiu na sua carreira, ela
define com uma palavra: orgulho. "Tenho orgulho do que fiz. Meu passado é
como se fossem várias vidas e quando eu olho para essas vidas vejo que fiz
algo importante. Sair de onde eu saí e chegar aqui...", deixa o pensamento
em reticência, como que pedindo para o público, que conhece seu trabalho,
completar.
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