Entre tacos, carros
e pincéis
Valter Morais, que catou latinhas para
sobreviver nos EUA e já possuiu 45 carros, divide sua atenção entre os
pincéis e suas paixões por sinuca e automóveis
A pequena estatura esconde uma personalidade de grandes ambições
artísticas. Foi com essa ambição que ele chegou no país em 1988 e teve até
que catar latinhas nas ruas para chegar onde queria. Mas chegou! É hoje um
artista reconhecido, sobrevive só da sua arte - o que é quase impossível
no Brasil- e ainda tem tempo para exercitar suas paixões e hobbies, a
exemplo de jogar sinuca, dirigir bons e diferentes carros e se apaixonar
todo dia.
"Essa é uma das minhas excentricidades. Eu me apaixono todo dia por uma
pessoa diferente", diz Valter Morais, 55 anos, recém-divorciado de um
casamento de 20 anos. Mas se apaixonar todo dia já é quase um hábito
masculino e não pode ser considerado excentricidade. Se é para falar de
personalidade excêntrica o certo é citar a mania de não pentear os cabelos
e a paixão por carros - "já possuí 45 carros e estou me preparando para
comprar um BMW', diz-, e pela sinuca. São duas das atividades que
mobilizam o interesse do paulistano, nascido em São José dos Campos.
As paixões talvez sejam uma forma de compensar a frustração por não ter
sido jogador de futebol. "Eu queria ser goleiro mas fui cortado do time
onde jogava [em São José] porque não tinha altura", lembra ele, que jogou
com Leão quando tinha 15 anos.
O talento com rabiscos o levou para um caminho onde a estatura não tem
importância e não delimita a grandeza de uma carreira: as artes plásticas.
Em 81 começava a se profissionalizar após concluir Belas Artes na
faculdade de Mogi das Cruzes. Lá também foi professor por seis anos mas,
em 88, buscando conquistar o mercado internacional, veio recomeçar sua
vida nos Estados Unidos e, como todo imigrante, passou também por 'maus
pedaços'.
O reinício foi em Oxbridge (Massachussetts), onde foi morar com sua
esposa. Dois meses depois, sem trabalho, descobriu que poderia ganhar 5
centavos por uma latinha e passou a catar latas nas ruas para sobreviver.
Foi o que tirou do sufoco o então novo imigrante dos Estados Unidos.
Depois trabalhou com landscape e para uma empersa de remessa de dinheiro
para a qual criou uma logomarca. Nessa época já estava conhecido através
das páginas do Brazilian Times, onde escrevia sobre humor e arte.
Pouco tempo depois Valter resolveu voltar a pintar. Os quadros produzidos
vendia nas ruas de Marlboro e aí começava, de verdade, a carreira
internacional. Dos quadros em estilo clássico acadêmico - retratando cenas
comuns do cotidiano- que vendia a 50 dólares na rua, guarda apenas a
lembrança e uma cópia do primeiro pintado por ele, que niguém quis
comprar. "Esse é um quadro sem preço para mim. Já me ofereceram 5,000
dólares e eu recusei", conta.
Ele chegava a vender seis quadros por dia para sobreviver, sem imaginar
que tempos depois teria seus trabalhos cotados entre 5 mil e 20 mil
dólares.
Nesse tempo Valter já contava com um vasto currículo do Brasil. Havia
ganhando um concurso da ONU pelo Ano Internacional da Paz (1986) e ficado
famoso por pintar o retrato da princesa Anne - irmã do Príncipe Charles- a
quem entregou pessoalmente no Brasil.
Na década de 90 veio para Flórida, o paraíso dos artistas plásticos
brasileiros. "Aqui é muito mais fácil ser artista", concorda Valter, que
teve sua carreira deslanchada após entrar no estilo pop art, uma forte
influência floridiana, e o qual gerou uma batalha entre ele o também
brasileiro Romero Brito. "Eu comecei a pintar antes dele e nosso trabalho
tem muitas diferenças", esclarece o pintor embora, à primeira vista, não
se note muita diferença. A obra da discórdia foi uma garrafa de vodca que
teve o rótulo pintado por Romero. Um ano depois a empresa contratou Valter
para também pintar um rótulo, aproveitando a semelhança do trabalho dos
dois pintores.
Depois viria uma vaca da discórdia, exposta na mostra Cow Parade NY 2000.
" 500 artistas foram convidados e da Flórida foram chamados apenas eu e
Romero para participar", declara orgulhoso o artista, sem incentivar
animosidade entre ele e Brito.
Ele confessa, aliás, que é no estilo pop art que ele se sente mais
confortável e prefere não dar atenção para as críticas sobre as
semelhanças com Brito. "Eu gosto muito de cores e movimentos, que são
elementos que ponho nos meus quadros", explica ele, que conta com um
quadro já bem famoso, O Tango, onde paixão e sensualidade insurgem.
Quando é incentivado a soltar a imaginação é mais provável que os traços
dessa pop art surjam na sua tela. O estilo é bem aceito pelo público
também. Uma vez, conta Valter, um empresário pediu que ele levasse todos
os quadros que tinha para sua casa. Eram 10. O empresário gostou tanto que
comprou todos por 20 mil dólares.
Quando o assunto é produzir para sobreviver, porém, clássicas paisagens
são as mais solicitadas, às quais ele vem dedicando mais tempo. "As
galerias que vendem meus trabalhos solicitam mais esse estilo e eu tenho
que atender à demanda", afirma Morais, que está trabalhando ultimamente em
uma dessas paisagens na parede da sua casa. A inspiração mais comum são os
mares caribenhos mas para sua nova leva de trabalho ele pretende ir a Cuba
em busca de novas paisagens. Ele geralmente fotografa praias e ilhas, que
transporta para as telas depois, acrescido de toques pessoais. "O pintor
pinta o que vê; o artista cria. E eu quero ser um pouco de cada", se
explica.
No meio da sua incursão artística pelos Estados Unidos também conheceu a
sinuca, esporte pelo qual se apaixonou nos anos 90. Começou a pintar para
alguns jogadores e foi acompanhando algumas competições e aprendendo o
esporte, que se tornou uma das suas manias. Dessa época também produziu
muitas obras de artes sobre o tema. Como jogador teve seus momentos de
sucesso conseguindo um 8º lugar em um campeonato estadual norte-americano
e vencido três campeonatos brasileiros no bar O Boteco, que já não existe
mais. Mas hoje mantém apenas como um hobby.
Outro entretenimento são os carros. Seu mais novo brinquedo é um Gordini
65, que ele mesmo está pintando. Quem quiser ver seu trabalho - ou
solicitar uma pintura especial- pode encontrá-lo na oficina Top Stop onde
vem fazendo pinturas especiais com air brush -difícil técnica onde um
spray é usado como o pincel e na qual Valter vem se especializando,
usando-a inclusive em telas . Ele deve passar as próximas semanas
entretido na sua nova aquisição, para a qual promete "um desenho muito
especial". Quando não está na Top Stop ele está em casa produzindo os mais
de 20 quadros que tem encomendados por uma galeria.
Com tantas atividades quase não sobra tempo para outras atividades. Ainda
assim ele encontra espaço na agenda para comer "a melhor torta de limão da
Flórida" em Key West e se encontrar com os amigos em alguma casa de
sinuca, como qualquer simples mortal. Aliás, Morais faz questão de não
posar de famoso e quando questionado sobre qual a distância entre um
artista bem sucedido e um artista famoso, ele diz que não sabe dizer e que
"o melhor é ser um artista satisfeito e feliz. Não importa ser famoso",
encerra.
Os trabalhos de Valter Morais podem ser encontrados à venda nos sites
www.watersandcolors.com, www.artprintoncanvas.com e www.art4sale.com.
Vanusa Ramos - AcheiUsa
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