Fronteira do México - O tour sem volta
Parte III
A fome não chega a
incomodar. Não há tempo nem condições psicólogicas para lembrar dela, ou
de outras necessidades fisiológicas - como urinar e defecar. Só a sede
incomoda um pouco; mas até ela é esquecida quando o instinto de
sobrevivência avisa que é hora de correr e correr. Só o som de
helicópteros, carros e motos são audíveis na imensidão do deserto do Texas
e, ás vezes, a voz do coiote: "- é a imigração, é a imigração".
É assim para a maioria das pessoas que tentam a sorte pela fronteira. "Eu
tomei 16 buscopam para poder conseguir (andar sem comer, nem beber)",
lembra na sua simplicidade C.M., que após vários dias de encontros e
desencontros no México, conheceu uma realidade que nunca havia passado
pela sua mente.
Ele, no seu grupo de travessia, talvez fosse o que mais ignorasse o que
vinha pela frente. Logo na primeira noite teve que ficar a noite inteira,
na fronteira, esperando o momento de distração da troca de guarda para
atravessar uma serra. Começaram então a caminhada, que não foi tranquila.
Eles paravam durante o dia e andavam à noite. "Eu cheguei a ficar um dia
inteiro em um buraco do chão, sem comer e sem beber", lembra sem saudade.
O buraco em questão não era uma caverna mas uma cova rasa - uma pequena
depressão no solo que mal cobre um corpo.
À noite, caminhando, viria a primeira grande surpresa: a primeira
perseguição. Das 8PM até 1AM foram perseguidos por três policiais montados
em motos, com faroletes ligados. Apesar do aparato, a sorte ajudou a turma.
Durante a perseguição o grupo se jogou no chão. Um dos policiais passou
com a moto por cima da alça da mochila de C.M., no chão, e não percebeu a
sua presença. Mais algumas voltas de moto e os policiais ainda não
conseguiram vê-los. "Eu ficava rezando e foi incrível; eu via ele (o
policial) e ele não me via; parecia que eu tava invisível", relata ele
ainda incrédulo da sorte.
Caçada policial
Nessas horas os imigrantes não conseguem nem respirar; e os policiais,
apesar de bem treinados, só olham para cima. Com o tempo eles desisistiram
e se foram. Para os imigrantes a caminhada continuou e só parou durante o
dia; o segundo de travessia, ainda sem comer nem beber. Durante o dia
outra vez passariam pelo sufoco de quase serem descobertos pela imigração,
que desta vez os caçava com helicópteros - como é rotina na região. Veio a
terceira noite e outro dia, e outra noite."O coiote tinha se perdido e a
gente tava só dando voltas", lembra. Isso não é incomum. Às vezes, depois
de várias perseguições, os coiotes perdem o rumo.
Caminhando de ré.
"A gente tinha previsão de andar uma noite, mas toda vez que a gente
perguntava para o coiote quanto tempo faltava ele dizia: -só mais uma hora.
Eu acho que ela estava perdido", conta D.B., que quanto mais via o tempo
passar mais se preocupava. "O guia não tinha mais que 13 anos; era muito
novo", lembra D., para explicar a inexperiência e inabilidade do coiote.
Como o comércio de tráfico de imigrantes é a maior opção de renda familiar
no México, cada vez mais os homens estão entrando mais cedo no mercado; o
mais comum, ultimamente, são jovens de 13 a 18 anos trabalhando na
fronteira, como atravessadores - e às vezes, mas bem raramente, mulheres
também.
Já há um dia sem comer nem beber, eles D.B. e seu grupo se viram no
paraíso quando encontraram uma poça d'agua, numa pedra. A água suja, quase
preta, refrescou a turma. "O pior era o corpo cansado; teve uma hora que
eu 'travei'; minhas pernas não andavam", relata ele, que durante uma parte
da travessia teve que andar de costas para deixar as marcas de pé ao
contrário e confundir o rastreamento da polícia.
Mais outro dia de caminhada, sem a certeza de estar indo no caminho certo,
eles encontraram uma fazenda, onde puderam tomar água de verdade. A partir
daí a pior parte da história já havia terminado. Mais algum tempo andando,
também sem comer, eles completaram duas noites e um dia de sufoco mas
encontrariam, então, a estrada onde entraram em um carro e foram para
Phoenix. "Parecia coisa de cinema. A gente ficou embaixo do asfalto,
escondido, e quando o carro chegou a gente nem podia pensar; eles abriram
a porta, sem parar o carro, e a gente correu e entrou. Tudo em velocidade",
recorda.
Começava então o sonho americano, 10 mil dólares e 41 dias depois de ter
saído do Brasil, e terminava o medo de ver algum companheiro ficando para
trás; ou até mesmo morrendo diante da pressão física e psicológica.
Cadáver pelo caminho
O medo não era infundado. Entre os que atravessam pelo México é comum o
relato de detritos encontrados pelo caminho, o que remonta no campo
psicológico de cada um a possibilidade de não chegar ao destino. A cada
roupa, sapato e outros objetos pessoais encontrados pelo deserto, é
impossível não imaginar o que teria acontecido com essas pessoas. "Eu não
vi, mas enquanto estava preso no presídio da imigração (leia detalhes na
próxima edição) ouvi histórias de pessoas que diziam terem encontrado
cadáver pelo caminho. Também ouvi a história de uma mexicana que havia
sido estuprada por 15 homens, na frente do marido. A gente fica impotente
diante de coisas como essa", destaca J.V., que até hoje se revolta quando
lembra da nulidade que têm que assumir no deserto.
"Quando eu pisei no deserto senti que alguma coisa ia acontecer. E não
demos cinquenta passos quando surgiram dois caras, armados com pistola
automática, e nos roubaram. Os coiotes sentaram e ficaram rindo", relembra.
O jovem chegou a ter as calcas rasgadas pelos bandidos. "Quando eles
pegaram uma faca eu senti o pior", diz. Mas o pior não veio. Ele só rasgou
as calças do jovem para roubar um dinheiro que estava escondido e depois
se foi.
Cinco numa mala de carro
Tão revoltante quanto ter seu dinheiro roubado é ter que abrir mão dos
seus bens pessoais. "Nós só tínhamos nossa mochila e tivemos que jogá-la
fora", contam os irmãos I.S. e F.S., que antes da caminhada receberam
comida enlatada e água para consumo.
Saíram do México em uma Van, onde andaram duas horas até chegar no deserto.
Caminharam 40 minutos até chegar a outros carros -"4 ou 5 camionetes; a
gente foi que nem pau-de-arara"-, nos quais andaram mais quarenta minutos
antes de começarem a caminhada. Eram 7AM de uma sexta-feira e só no sábado,
às 4PM, chegariam ao destino. "A gente parava a cada duas horas para
descansar, por dez minutos. De longe dava para ouvir barulho de avião, de
helicóptero...os aviões eram 'invisíveis'", contam os jovens, querendo
dizer que não conseguiam ver os veículos.
O grupo era de 35 pessoas, que já haviam dado voltas e voltas pelo deserto.
Não tiveram experiência de perseguição mas amargaram a dura experiência de
serem encaixotados em uma mala de carro - um Cherokee- com outras três
pessoas. "Nesse momento a gente teve que jogar fora as mochilas", recordam
entristecidos. Não havia nada muito valioso na bolsa. "Mas eram coisas de
valor sentimental; roupas e objetos pessoais", relatam os meninos que
tiveram dificuldade de se desfazer dos pertences.
"A gente pensa que está psicologicamente preparado mas nunca está", contam
os irmãos que após vários dias de extorsão no México e da exaustiva
travessia tiveram que esperar vários dias, já nos Estados Unidos, pela
liberação que dependia do dinheiro extra pedido aos parentes da dupla. O
valor combinado era de 4 mil dólares pelos dois, mas devido a um problema
com o coiote, que foi preso, tiveram que ser guiados por outra pessoa -
até hoje não há evidência da veracidade do motivo alegado já que o contato
dos parentes com o coiote foi sempre por telefone. Esse outro coiote,
porém, exigiu 4,500 dólares por cada um, o que os parentes deles, na
Flórida, só tiveram dois dias para providenciar. Um detalhe: para
mexicanos e guatematecos o preço pedido era de 1.800 a 2.000 dólares.
De uma segunda até a quinta-feira tiveram que ficar em uma casa, no
Texas,m esperando pela liberação, sem desconfiar que os parentes estavam
sendo pressionados a pagarem mais. E com a irmã só tinha o direito de
falar alguns minutos; aqui na Flórida, entretanto, os parentes aflitos já
pensavam que o pior podia acontecer. Na quinta-feira os meninos
embarcariam para a Flórida onde hoje engrossam a fila dos sub-empregados
ilegais.
Vanuza Ramos-AcheiUsa
Parte I
Parte
II
Parte
III
Parte
Final
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