Valets: os reis dos 'carrões'
Eles
não queriam estar lá. Eles são advogados, engenheiros, arquitetos,
pilotos de avião, publicitários, e certamente preferiam estar exercendo
suas profissões. Mas diante dessa impossibilidade ganham a vida correndo
mais que maratonista e acabam realizando um grando sonho masculino:
dirigir carrões importados. Eles são os 'meninos' que trabalham como
valet parking, profissão também monopolizada por brasileiros em Broward.
O salário nem é tão relevante mas o trabalho guarda uma aura de
encantamento e glamour. E entre um carrão e outro eles vão colecionando
histórias incríveis, a exemplo do dia em que dirigiu o carro de Michael
Jackson. Ou ainda da noite que encontraram 1kg de maconha em um veículo;
e teve também o caso de um cliente 'generoso' que chegou a dar 240
dólares de gorjeta.
Michael jackson vai ao cinema
Para conferir histórias como essas a equipe AcheiUsa foi até o Muvico
Palace 20, em Boca Raton, onde trabalham 21 jovens - 70% são
brasileiros- para sentir como eles se "viram" nessa profissão. O dia
escolhido não podia ter sido melhor: sexta-feira, terceiro dia de
exibição de Matrix Reloaded, e dia em que o special guest foi ao cinema.
O special guest em questão é Michael Jackson, que entra e sai do cinema
pelas portas dos fundos. Ele fica em um setor VIP e os clientes nem
chegam a saber que o cantor está na sala.
E essa não foi a primeira vez que o pop star esteve no local. "Ele
sempre vem, num carro comum e com discrição; entra e sai pelos fundos",
explica o brasileiro Eduardo Biasi, 28, que sempre é chamado pelo
segurança do cantor para estacionar e trazer o carro. Dentro do carro de
Michael poucas coisas são anormais, com exceção de potes de maquiagem e
máscaras, em nada difere de um cliente comum. O astro, pessoalmente, nem
Eduardo chegou a ver, embora um outro colega, também valet, tenha
conseguido uma foto do artista quando saía de um restaurante. E outros
famosos já passaram pelo valet do Palace 20, a exemplo de Shaquill
O'neal, Ricardo Teixeira, Zezé di Camargo, Pelé, etc.
Dirigindo uma Ferrari
Mas caçar artista não é atração para esses meninos que se deixam
inebriar mesmo é por uma bela Ferrari. "Esse é o carro mais disputado.
Todos querem dirigir", diz Pablo Bouquet, argentino mas que morou no
Brasil por muitos anos, e hoje gerencia os meninos do Palace 20. Ele,
pessoalmente, não gosta dos carros esportivos mas reconhece que todo
valet se encanta quando vê um deles chegando. Também são apreciados
Lamborguinis, porsche, os conversíveis, e qualquer importado.
Porém eles não têm tanto de tempo de aproveitar os carrões, já que têm a
obrigação de levar e trazer o carro o mais rápido possível. É pegar a
chave, dirigir o carro, e voltar correndo para a portaria onde deixam as
chaves; e geralmente já há outros carros esperando para serem
estacionados. Daí a correria em que vivem. "A gente na verdade fica aqui
treinando para ser maratonista", brinca Claudio Tassis, 22, técnico em
informática que nos EUA corre, literalmente, para sobreviver. Eles
chegam a correr 3km por dia, entre idas e vindas ao estacionamento, que
fica a cerca de 200 metros da portaria. Com isso acabam também
desenvolvendo problemas no joelho, a doença mais comum entre os que
exercem essa profissão.
Outro fator que os proíbe de aproveitar o momento em que estão dentro
dos carrões é a responsabilidade. Eles têm como regra "não tocar no
rádio, não mover a cadeira e nem abrir a janela". "Esses são os
preceitos da profissão; ninguém pode tocar em nada", explica Pablo.
Acusações de roubo
Apesar dos preceitos, uma vez ou outra um deles sai da regra, embora não
gostem de admitir. Já houve uma vez em que alguém -eles não revelam
quem- encontrou 1kg de maconha no banco e pegou um pouquinho para
consumo próprio. E numa outra ocasião um deles foi acusado, dessa vez
injustamente, de fumar o cigarro de maconha que estava no carro. Pablo
sugeriu chamar a polícia e a jovem, uma brasileira, preferiu não prestar
queixa, por razões óbvias.
Mas numa outra ocasião em que o valet foi acusado de roubar 500 dólares
de dentro do automóvel, a história foi diferente. A jovem americana
sustentou a queixa. Na ocasião, policiais que trabalham no local foram
chamados e o final foi surpreendente. A polícia encontrou, dentro do
carro da jovem, ecstasy e maconha, e descobriram que sua carteira estava
suspensa por DUI- por dirigir sob influência de drogas. A jovem foi
imediatamente detida. Outra jovem sustentou que seu celular havia sido
roubado. Eduardo propôs ligar para o aparelho, que poderia estar
escondido no carro, e o ouviu sonar embaixo do banco do carro. À jovem
só restou se desculpar.
Gorjeta de $240 dólares
Quando o assunto é aborrecimento
tem também os clássicos casos de troca de chaves. Um dia uma Explorer
foi entregue por engano. O dono só descobriu que o carro não era seu
quando chegou em casa. Também já aconteceu de alguém bater o carro.
Nesses casos a companhia se encarrega de pagar os prejuízos mas o fato
pesa no currículo do valet.
Nem em situações como essas, porém, os meninos perdem a esportiva. Se há
quem acuse e reclame, há também quem reconheça o trabalho dos rapazes. E
o reconhecimento vem em forma de gordas gorjetas. É assim com o Eduardo,
que de clientes como Michael Jackson ganha 50 dólares. E foi assim com
Pablo, que numa noite dirigiu o carro de um cliente bêbado, até sua
casa. O cliente foi de táxi mas, chegando em casa, se engalfinhou com o
motorista do táxi discutindo por um motivo qualquer. Pablo contornou a
situação e como gratidão ganhou do cliente todo o dinheiro que ele tinha
no bolso. Foi contar e viu que tinha recebido uma gorjeta de 240
dólares.
Se ocorresse hoje ele provavelmente teria que abrir mão da gorjeta, já
que no Palace 20 as gorjetas não ficam com os valets. Eles recebem 8
dólares por hora e têm que colocar o tip em uma caixinha, que vai para a
companhia Coastline Valet, para a qual trabalham. Ainda assim é possível
ganhar de 150 a 200 dólares por final de semana (para os part time
workers).
Apesar das chateações e restrições, vale a pena ser valet parking? A
maioria diz que sim. E é visível enquanto trabalham que a profissão não
é das mais estressantes. "O bom é que aqui a gente lida com gente que
veio se divertir; eles estão sempre felizes", opina Eduardo, que já
trabalhou em hospitais e não gostava de ver o clima de pesar nos rostos
dos clientes.
Já no cinema, se não chover - os dias de chuva sempre são mais
tumultuados e precedem tempestade de reclamações de clientes por atraso,
bancos molhados, etc.- e se não houver um grande lançamento - durante
Lord of the Rings - Two Towers eles estacionaram mais de 1.200 carros;
foi o recorde- trabalhar como valet é prazeroso.
Sobra tempo para dar uma olhada nas meninas que desembarcam de luxuosos
carros, assim como têm mais possibilidade de desfrutar dos carrões. "E o
melhor é que aqui a gente assiste aos filmes de graça", conclui Claudio.
Vanuza Ramos-AcheiUsa