Você consegue viver sem “curtidas” dos amigos?

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Leonardo Sakamoto*

Muitos validam cada ato do cotidiano através de sua rede de amigos, conhecidos e desconhecidos.

A realização pessoal e a satisfação estão diretamente relacionadas à quantidade de “likes”, retuítes e compartilhamentos que se obtém.

Faz parte do mesmo comportamento postar fotos de tudo o que se come, de provas do Enem (mesmo que proibido), de tudo o que se faz, de todos que encontramos.

De mostrar, nas redes sociais, que a vida é interessante, fascinante, alegre, criativa, desafiadora, sensacional, supimpa, tchap-tchura, sempre em movimento, sempre para melhor.

E, quando aparecem momentos desafiadores, postamos para ter apoio coletivo na rede social.

As redes sociais não são ferramentas de descrição da realidade, mas sim de construção e reconstrução desta. Quando a pessoa está atuando através de uma dessas redes, não reporta simplesmente. Inventa, articula, muda. Vive.

Considere-se que, para uma grande maioria de jovens, a frase “sai já dessa internet e vem jantar!” não faz mais sentido.

Pois ele vive suas relações sociais de forma tão intensa e real em plataformas digitais quanto nas tradicionais. Não existe lá e aqui, pois lá e aqui são a mesma coisa.

Nesse sentido, perde-se a percepção de que é necessário dar mais atenção a uma das camadas de sua realidade. O silêncio em algumas mesas de bar rodeadas por smartphones que o diga.

Será que as pessoas que visitam exposições fotografando compulsivamente tudo o que aparece pela frente, ziguezagueando feito uma barata que cheirou uma carreira de coca, realmente se lembram do que viram um mês depois? Ou conseguiram dialogar com o artista?

Será que ao menos elas estavam lá?

Em muitos casos, a visita tem um sentido diferente: é uma caça ao tesouro, cujo prêmio é poder mostrar, orgulhoso, ao colega de trabalho após as férias ” tá vendo esse borrão disforme e irreconhecível? É daquele pintor que cortou a própria orelha for a”. A tecnologia aliada ao fetichismo vai nos deixando malucos.

Um sábio amigo me lembrou que pior do que sair fotografando obras de arte de forma alucinada é gravar shows inteiros de música no celular. “O cara perde o show e depois tem um arquivo tosco para colocar no Youtube e ninguém (ele incluído) ver nunca mais”, desabafou.

Enfim, capturar, postar e esperar alguém validar é mais importante que sentir em um mundo em que ter é mais relevante que ser.
A impressão é que a memória vai sendo transferida, paulatinamente, da cabeça para cartões SD, tornando-nos cada vez mais dependentes deles para recriar nossas vivências.

Quantos são os que têm coragem de dizer não e fugir da manada? Quantos conseguem alterar a programação a qual foram submetidos por anos?

Não quero ser bedel de ninguém. Estamos reconstruindo a noção de individualidade e sociabilidade após a revolução digital e é muito cedo para entender o que vai emergir daí.

Mas, vale lembrar, que o silêncio, a reflexão individual e uma certa dose de solidão são partes importantes de nossa existência.

E, mesmo com toda a tecnologia e apesar de um zilhão de amigos em sua rede pessoal, em certas horas, você estará sozinho ou sozinha.
E terá que sentir-se completo, contando consigo mesmo para o que for preciso. Para tomar uma decisão. Para deixar de toma-la. Sem a rede validar, por eleição de likes, a sua escolha.

Assustador, não?

*Jornalista. Publicado originalmente no Blog do Sakamoto do portal UOL (blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br).