O plaza que fica na Federal Highway, quase esquina de Sample Road, em Pompano Beach, era o mais movimentado dos brasileiros na virada do século. Havia de tudo: supermercado, agências de viagens, de remessas de dinheiro, advogado de imigração, loja de celulares, de revistas e cds, contadores, e até igreja evangélica.
Mas o coração do shopping center era o restaurante Brasil Original, na época comandado pelo seu saudoso proprietário, o popular Gil. Lotado no café da manhã, na hora do almoço e depois das cinco da tarde, era por lá que ficávamos sabendo das novidades e fofocas da comunidade.
Nos meus primeiros tempos de empreendedor, uma lixeira estrategicamente instalada na frente do Brasil Original, daquelas altas de ferro com um topo que servia de mesinha e aberturas na lateral, funcionou como meu escritório improvisado. Ali, entre cigarros e cafezinhos, fechava negócios, apurava notícias, sabia das fofocas e conversava fiado com quem passava. Quem quisesse ser visto e conhecido tinha que passar pelo plaza da Federal.
Durante um almoço percebi pela janela do restaurante uma movimentação diferente lá fora. Um sujeito sorridente, alto e corpulento, fazia mágicas para um aglomerado, transformando notas de real em dólar, sumindo com moedas, relógios de pulso e mandando outros truques. Acompanhava cada performance com uma risadinha e um sotaque estranho, como o daqueles padres italianados do interior do Brasil, apesar de moreno e com uma legítima cara de baiano. Carismático, tinha todo o pacote do mágico profissional, reforçado pela gravatinha borboleta e o colete vermelho.
Era o Magic Shock, como ele se apresentou. Como todo bom mágico, apareceu do nada e foi logo um sucesso. Contou que trabalhou por muitos anos em programas de TV infantis no Brasil, que o sotaque era esquisito porque morou muito tempo na Itália e que rodou o mundo fazendo mágicas. Nunca revelou o verdadeiro nome e nem porque apareceu por ali.
O Magic Shock virou atração obrigatória nos eventos da comunidade. Não havia festa, quermesse, churrasco, jogo de futebol, casamento ou o que fosse em que ele não aparecesse. O povo adorava o Magic Shock e seus truques e ele estava feliz com seus novos fãs brazucas de Pompano Beach e adjacências.
Mas as mágicas começaram a ficar meio manjadas, e ele teve que ser criativo para manter o encanto. Um dia chamou João Justino, o melhor carpinteiro da comunidade, e mostrou em segredo o plano de uma caixa de madeira para ele montar. Ela possuía compartimentos secretos, que davam a impressão de que fazia desaparecer partes do corpo de quem entrasse nela, depois de alguma manipulação.
– Mágica, é claro – dizia o Magic Shock, com uma risadinha e seu sotaque exótico.
Dito e feito. A caixa mágica foi construída e ele recrutou uma garçonete do Brasil Original como assistente. Ela entraria na caixa, o Magic Shock diria umas palavras mágicas, rodaria aqui e ali e partes do corpo da moça desapareceriam num passe de mágica dentro da caixa.
Depois de muito ensaio, foi marcada a estreia do novo truque. Shock escolheu abrir com ele a apresentação de uma dupla sertaneja do segundo escalão, que faria um pocket show numa casa local.
– Vai ser um sucesso – previu o mágico.
O dia de estreia da caixa mágica chegou. A casa estava lotada. Magic Shock chamou ao palco a assistente, uma moça magrinha e flexível. A perfomance ia bem – pernas, braços e cabeça apareciam em diferentes aberturas da caixa, conforme Shock a manipulava e dizia as palavras mágicas. O povo adorou o novo truque.
Então deu-se a desgraça. Mesmo sendo o melhor carpinteiro da comunidade, João Justino não tinha a técnica adequada para o reforço da caixa mágica onde ela mais precisava. Depois da última manipulação, um gran finale que faria sumir a cabeça da assistente, a caixa se desmanchou em pedaços, revelando as entranhas e o truque à plateia – a maior tragédia que pode acontecer a um mágico. A assistente saiu correndo e o Magic Shock, como bom entertainer, rapidamente tentou desviar a atenção do povo com um truque cheio de pombos. Tarde demais. O fiasco desmoralizou o pobre Shock e virou piada na comunidade.
Pouco tempo depois, assim como apareceu, o Magic Shock sumiu. Como todo bom mágico.