Colunas Jorge Nunes

Dilúvio no Sul

Dos cinco filhos dos meus avós paternos, o major José Joaquim Nunes e dona Julieta Moreira Nunes, somente um, meu pai Jorge Milton, nasceu no Rio de Janeiro. Todos os meus tios e tias nasceram no Rio Grande do Sul. Meu avô era de Jaguarão, a chamada Cidade Heróica, na fronteira com o Uruguai, e minha avó de Santana do Livramento. Casaram-se em Dom Pedrito, ainda no século 19. Veterano das batalhas da Revolução Federalista de 1893, depois da guerra meu avô mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, onde serviu no Primeiro Batalhão da Guarda, em São Cristóvão, até ser reformado como major.

Sou casado com uma gaúcha descendente dos imigrantes alemães que chegaram ao Rio Grande em 1824. Lá ainda moram todos os seus parentes diretos, felizmente pouco afetados pelas enchentes deste mês.

Minha ligação com o estado, portanto, é profunda, e conheço vários dos lugares assolados pela enchente que já matou mais de cem pessoas e deixou desalojados outros tantos milhares. Agora é o momento de cuidar das vítimas, prestar-lhes toda a ajuda necessária com doações e carinho, para que possam recuperar-se o mais rápido possível da tragédia e recomeçar a vida.

É claro que não pode haver responsáveis diretos por uma rara configuração meteorológica que estacionou um dilúvio sobre o estado, mas também é claro que as mudanças climáticas pelas quais o mundo vem passando têm seus responsáveis nos que negam a situação e acabam contribuindo para essas mudanças com políticas de devastação e poluição do meio ambiente. O aquecimento global é um fato científico, não é uma crença. É amparado por medições matemáticas, observações de campo e comprovado pelos eventos climáticos radicais que vêm acontecendo nos anos recentes. Derretimento dos gelos polares, recorde de temperaturas e catástrofes como a do Rio Grande do Sul parecem ser apenas o começo de uma reação do planeta contra quem vai de encontro ao seu curso natural. Engana-se quem diz que o planeta está sofrendo com isso. Ele não dá a menor bola para o aquecimento global, apenas se adapta à nova condição e quem sofre as consequências somos nós e serão as gerações futuras. Se a humanidade continuar a perturbar o mundo, ele apenas dará uma leve sacudida para livrar-se do incômodo. E vida planetária que segue, sem a espécie parasita que o perturbava.

Mas há responsáveis diretos pelo agravamento das enchentes, que contribuíram com negligência e pouco caso para que elas fossem muito piores. Diques e muros de contenção construídos em Porto Alegre depois da enchente de 1941 ficaram décadas sem manutenção. Prefeitos e governadores do estado durante todo esse tempo desprezaram o perigo anunciado e deixaram praticamente abandonado o sistema de 68 quilômetros de diques, comportas e bombas e hidráulicas que protegeriam a cidade, mas que falharam por falta de cuidado.

O atual governador do estado, Eduardo Leite (PSDB), desrespeitou o Código Ambiental do Rio Grande do Sul, criado em 2000 com orientação de José Lutzemberger, uma das maiores autoridades ecológicas no Brasil, e alterou ou eliminou 480 pontos cruciais do código, favorecendo a exploração de áreas de preservação ambiental em nascentes e florestas, e ainda cedeu aos interesses dos empresários dos setores da pecuária e agroindústria, concedendo-lhes autonomia para decidir o que pode e o que não pode ser preservado. Tudo sob o pretexto de que as alterações serviriam para “um melhor equilíbrio entre proteção ambiental e desenvolvimento socioeconômico”. O que se viu, entretanto, foi um desequilíbrio ambiental histórico, que agravou a maior catástrofe da história do Rio Grande do Sul, e talvez do Brasil.

O pior de tudo isso é que é possível que a lição não tenha sido aprendida. Depois que baixarem as águas voltarão os discursos hipócritas e as justificativas mentirosas dos responsáveis pelo agravamento da tragédia. Os demagogos continuarão a dissimular a concessão de privilégios para poucos em nome de uma preocupação com o povo, que no fim é quem sempre paga a conta. Só o povo eleitor consciente de quem é que o engana de verdade poderá fazer com que a lição seja aprendida e que novas tragédias sejam evitadas.

Toda a solidadariedade ao povo do Rio Grande do Sul.

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