Coincidências, sincronicidades, intervenções divinas (para os crentes), ou puro acaso (para os céticos), certas coisas espantam pela sua improbabilidade.
Toda terça-feira pela manhã antes de sair recolho o latão de lixo da calçada, deixado lá na noite anterior para os homens da limpeza levarem a nossa sujeira. Na terça passada, por alguma razão coloquei a pasta com meu laptop no teto do carro antes da operação. Depois de cumprida a tarefa, entrei bem feliz no carro e parti com o laptop no lugar onde o deixei – no teto do carro.
Ao chegar no trabalho, cadê o laptop? Apavorado, lembrei do esquecimento e gelei. Além do incômodo de perder dados sensíveis, havia o prejuízo de uns bons dólares pela perda do nada barato MacBook Pro. Pelo menos o conteúdo estava teoricamente inacessível para quem não tivesse a senha de proteção, mas nunca se sabe. Era melhor até que ele já tivesse sido esmagado por um caminhão.
Resolvi voltar para casa, rezando para que ele tivesse caído na frente da garagem na hora que arranquei com o carro. A pasta do laptop é grossa e ele é bem resistente, não quebraria na queda. No meio do caminho de volta, Esterliz me liga da redação:
– Você perdeu seu laptop?
– Como é que você sabe? – respondi atônito.
– Uma homem ligou aqui dizendo que achou um laptop na rua que tinha o telefone da redação na pasta. E ele é brasileiro! O nome é André. Deixou o telefone, vou te mandar.
Que alguém parasse o carro para apanhar um pacote preto jogado no meio da rua movimentada já era improvável. Mas que esse alguém também fosse brasileiro era quase inacreditável. Há muitos brasileiros entre os 57 mil e poucos habitantes de Coconut Creek, mas ainda assim a proporção deve ser de um para trinta ou quarenta americanos, e olhe lá. O laptop não caiu imediatamente depois de eu arrancar com o carro na frente de casa. Ficou de carona no teto por um bom tempo, até resolver descer na via mais movimentada da cidade, caprichosamente no caminho do André.
Liguei para ele quase em lágrimas e combinei um encontro. Ele me contou que achou estranho o pacote preto jogado no meio da pista e resolveu parar o carro para ver o que era. Viu o número de telefone escrito em alguns papéis que estavam na pasta e ligou para avisar do achado. Combinamos para eu pegar o laptop na casa dele, num condomínio próximo.
Chegando no endereço fiquei meio perdido, vagando à deriva sem encontrar a casa, até que um carro parou do meu lado e a motorista me perguntou em inglês se podia ajudar. Eu disse o número da casa que eu procurava, e para meu espanto ela respondeu em português.
– É a minha casa – disse a moça.
Era a esposa do André, que não sabia de nada e estava chegando em casa bem nessa hora. Incrível coincidência.
Agradeci milhões de vezes aos dois, que me apresentaram a duas lindas filhinhas. André me entregou o computador e segui meio zonzo para a redação, onde escrevi esta crônica no laptop que pegou carona no teto do meu carro pelas ruas de Coconut Creek, até cair e ser recolhido por uma das criaturas mais decentes que já conheci nos Estados Unidos.
Obrigado mais uma vez, André e Karen. Vocês são uns anjos.