Apesar de continuarem na mesa de negociações para tentar reduzir a tensão provocada pelo “tarifaço” americano sobre produtos brasileiros, Brasil e Estados Unidos dificilmente chegarão a um acordo definitivo antes do processo eleitoral nos dois países em 2026. Afinal, com eleições majoritárias (em outubro) e de meio de mandato (em novembro), nenhum dos dois governos teria interesse em assumir compromissos de longo prazo sem saber qual será o cenário político de 2027. Essa é a visão de especialistas reunidos no evento “Tarifas e Comércio Exterior: Impactos, Desafios e Oportunidades”, organizado pela Association of Brazilian Professionals in Logistics (ABPL) e pelo Ouribank, com apoio institucional do Consulado-Geral do Brasil em Miami. O debate marcou também o 10º aniversário da ABPL e o anúncio do Ouribank quanto à ampliação de até 50% nos prazos de financiamento de frete marítimo e aéreo, como parte do processo de internacionalização da instituição financeira.
“É claro que o recente contato telefônico entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump ajudou a reduzir a temperatura da crise e possibilitou a retomada das negociações, mas as decisões mais importantes terão de esperar”, avaliou Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior e integrante de articulações da delegação brasileira que vem mantendo interlocução com autoridades americanas. Ele revelou que os dois líderes ainda deverão se encontrar durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York.
O problema é que a pauta americana vai muito além da discussão sobre percentuais tarifários. Barral afirmou que Washington demonstra interesse em áreas como minerais críticos, mercados digitais e transição energética, temas que podem exigir mudanças regulatórias ou aprovação do Congresso brasileiro. Isso torna a negociação mais complexa e aumenta a possibilidade de que questões estruturais sejam deixadas para o próximo governo brasileiro e para o ambiente político que emergirá das eleições americanas. “Há muito em jogo, então realmente acredito que as duas partes vão se acertar a partir de 2027, resumiu Barral.
Se, por um lado, o calendário eleitoral é de fato um dos principais motivos para a cautela nas negociações, Leonardo Capra, presidente da DRACO Freight Logistics, apresentou uma visão menos otimista sobre o futuro das tarifas. Ele não acreditar que a questão tarifária sofrerá grandes mudanças, mesmo depois do pleito. Na sua avaliação, governos gostam de arrecadar e as tarifas podem ser uma ferramenta politicamente mais conveniente do que aumentar impostos diretamente. A percepção é importante porque coloca em dúvida a ideia de que uma eventual mudança de governo necessariamente significará o fim das barreiras comerciais. A política tarifária americana, aliás, não se limita ao Brasil. O governo Trump vem utilizando tarifas como instrumento de política comercial e industrial em diferentes frentes.
Por isso, para o comércio exterior, a palavra que melhor define o momento talvez seja incerteza. “Vivemos a era da imprevisibilidade”, afirmou Thiago Covre, diretor da Maersk para a América Latina. Para ele, o segredo para atuar com sucesso no comércio internacional é a capacidade de adaptação às mudanças. A afirmação resume um dos principais desafios impostos pelo atual cenário: empresas não podem esperar que governos definam todos os caminhos antes de tomar suas próprias decisões. Precisam rever fornecedores, mercados, rotas, custos e estratégias de financiamento enquanto as negociações diplomáticas continuam.
E tem sido assim desde a crise de 2008, mas principalmente nos últimos cinco ou seis anos, com a pandemia da Covid, as guerras entre Rússia e Ucrânia e os conflitos no Oriente Médio. Nesse ponto, o professor João Granato, membro do Conselho da ABPL, usou o futebol como metáfora para explicar o atual cenário. “As equipes precisam se acostumar ao novo campo, pois não há perspectiva de mudança nos próximos sete anos”, disse Granato.
Enquanto Brasília e Washington discutem os termos de uma eventual solução, o setor privado começa a criar mecanismos para enfrentar o período de incerteza. Durante o evento, o Ouribank anunciou a ampliação de até 50% nos prazos de financiamento de frete marítimo e aéreo. A iniciativa atende importadores e exportadores de cerca de 120 empresas associadas à ABPL, que, juntas, movimentam aproximadamente R$ 60 bilhões por ano em fretes de contêineres e R$ 300 bilhões em mercadorias.
O objetivo é aliviar a pressão sobre o fluxo de caixa provocada pelo aumento dos custos logísticos, liberando capital de giro para que as empresas possam operar diante do atual cenário tarifário. O diretor comercial do banco, Izzy Politi, explicou que a iniciativa faz parte de um processo mais amplo de internacionalização da instituição. Segundo ele, inovação e relações sólidas com parceiros estão no DNA do banco, e a nova medida procura justamente fortalecer esse elo com empresas do comércio exterior.
Izzy ponderou, porém, que a falta de crédito não está entre as principais dores do setor neste momento. A iniciativa tem também um caráter estratégico: aproximar o banco de empresas que atuam no comércio internacional e apresentar a esse público outros produtos e serviços financeiros da instituição. A importância da logística para esse ecossistema pode ser medida pelo volume de operações. Dados mostram que o Brasil movimentou aproximadamente 9,66 milhões de TEUs — unidades equivalentes a contêineres de 20 pés — nos principais portos em 2025.
O embaixador Marco Farani, do Consulado-Geral do Brasil em Miami, e a prefeita de Doral, Christi Fraga, também participaram do debate, em que foi destacada a importância da parceria entre o sul da Flórida e o nosso país, tanto pela presença de uma grande comunidade quanto pela forte participação de empresas brasileiras na economia local. “Precisamos construir mais “pontes” entre os dois países para ampliar oportunidades de investimentos, turismo e relacionamento empresarial”, afirmou Fraga, destacando que eventos como aquele são fundamentais para esta sinergia. O diplomata ressaltou ainda que o intercâmbio comercial entre as duas nações atingiu a marca histórica de US$ 80,9 bilhões, sendo que a Flórida foi o principal parceiro, com US$ 27,5 bilhões em negócios.
A excelente notícia é que este foi apenas o primeiro de muitas iniciativas para analisar o cenário atual em termos de relações comerciais. Erika Bachiega, representante comercial do Ouribank nos EUA e responsável pela organização do encontro, garantiu que o objetivo é fomentar o diálogo e disseminar informações importantes para que o mercado possa superar os obstáculos atuais: “Reunir num mesmo espaço especialistas, empresários e profissionais para discutir oportunidades é fundamental para compreender as mudanças e buscar caminhos concretos para enfrentar os obstáculos. E outros eventos virão, com certeza”, finalizou Erika.
