A herança da Rio 2016

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Agora que a Rio 2016 fica na lembrança de muitas pessoas no mundo todo é hora de fazer uma avaliação sobre o que o evento representou para o Brasil e particularmente para o Rio de Janeiro ter sido sede de um evento deste porte. Muito já se discutiu e acredito que no geral o Rio foi aprovado neste duro teste. Digamos que ficou com uma nota B+, bem superior àquilo que os mais pessimistas previam. Após a bela festa de abertura, o encerramento foi mais modesto. Os organizadores da festa trocaram o preciosismo pelo ambiente festivo de despedida, que agradou a todos. Os atletas misturaram-se aos performers e entraram no clima de confraternização. Aliás, o bom humor dos cariocas e o espírito acolhedor dos brasileiros conquistaram os jornalistas, turistas e atletas estrangeiros. Muitos jornalistas comentaram ter ficado encantados com a receptividade e amizade dos brasileiros para com os visitantes. Ou seja, pode-se dizer que a Rio 2016 foi aprovada com louvor no quesito simpatia.

O objetivo olímpico

O Brasil ficou aquém do objetivo traçado pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB) que seria figurar no Top 10 dos países com mais medalhas conquistadas. Na verdade, não chegou a decepcionar tanto, pois terminou em 13º lugar, atrás apenas de países com mais tradição esportiva e, de quebra, teve sua melhor participação em uma Olimpíada – com 7 medalhas de ouro, 6 de prata e 6 de bronze. O país decepcionou em algumas modalidades e surpreendeu em outras. A primeira medalha conquistada foi a de Felipe Wu, que faturou medalha de prata no Tiro, modalidade que havia dado a primeira medalha olímpica do Brasil há 96 anos. Embora fosse um dos favoritos ao ouro, Wu não entrou pressionado, pois pouca gente acompanha esta modalidade esportiva. O Judô fez sua parte, com destaque para Rafaela Silva que faturou o ouro, enquanto Mayra Aguiar e Rafael Silva ficaram com bronze. Também a Vela marcou presença com o ouro da dupla Martine Grael e Kahena Kunze. Mais uma vez o Vôlei cumpriu sua missão com ouros no Vôlei de Quadra e no Vôlei de Praia com a dupla Allison Cerrutti e Bruno Schmidt. Agatha e Bárbara asseguraram a prata no Vôlei de Praia. As boas surpresas foram o ouro no Pugilismo com Robson Conceição e no Salto com Vara com Thiago Braz, além do excelente desempenho de Isaquias Queiroz na Canoagem, primeiro atleta brasileiro a conquistar três medalhas em uma mesma Olimpíada – duas de prata e uma de bronze. A Ginástica Olímpica Masculina fez bonito com as medalhas de prata de Diego Hypolito e Arthur Zanetti e com o bronze de Arthur Nori. Poliana Okamoto ficou com o bronze na Maratona Aquática enquanto o Taekwondo ficou com bronze, graças à Maicon Siqueira. Por fim, o Futebol Masculino acabou de vez com a sina do Brasil nunca ter conquistado a medalha de ouro. O time dirigido pelo técnico Rogério Micale foi comandado em campo por Neymar, que mostrou todo seu talento e cumpriu seu objetivo. As decepções foram o Futebol Feminino, a Natação e o Atletismo, que negaram fogo.

A mentira olímpica

Ryan Lochte chegou cheio de badalação e voltou aos Estados Unidos com o rabo entre as pernas. Pior, em razão de ter mentido para ocultar sua bebedeira e sua escapulida, um dos nadadores mais respeitados do país jogou sua credibilidade e sua carreira na lama. Como resultado de ter sido desmascarado pela polícia carioca, foi obrigado a se retratar e vem sentindo no bolso as consequências de sua irresponsabilidade. Quatro empresas que patrocinavam Lochte já romperam seus contratos com o atleta que agora ficou numa situação bastante desconfortável. Ele tem 32 anos e já pensa em se aposentar das piscinas, até porque com esta idade o nadador já é considerado “velho” para competições de alto nível. Ao contrário de seu conterrâneo Michael Phelps que extasiou os torcedores e saiu do Rio de Janeiro consagrado, Lochte terá de repensar seu futuro. Um rapaz bonito que poderia fazer carreira em outra atividade, talvez como ator, colocou tudo a perder por causa de um comportamento inapropriado e piorou tudo ao inventar a história do assalto. Tivesse contado a verdade talvez tudo teria sido perdoado. Ou seja, o problema não foi a bobagem que ele e seus companheiros fizeram, mas, sim, a fanfarronice e a tentativa de manchar a imagem do Rio e do Brasil, quiçá imaginando estar em um paiseco de Terceiro Mundo. Se deu mal e está pagando caro por isto. Acredito, no entanto, que o tempo se encarregará de eliminar sua má imagem. Entretanto, terá de ser bastante humilde, adjetivo que parece não constar de seu dicionário.

O resgate olímpico

O brasileiro parece odiar aqueles que fazem sucesso. É estranho este desprezo por Neymar. O fato de ele ser um dos melhores jogadores de futebol do planeta incomoda muita gente. Claro que seu staff, sobretudo seu pai, Neymar Sr., contribui para atrair esta antipatia. Afinal, a transferência do Santos para o Barcelona foi cercada de jogadas contábeis, enganações e transações nebulosas. Critica-se Neymar porque ele promove festas. Ora, o sujeito está de férias, é rico, jovem e badalado. Tem direito de fazer o que bem quiser. Apenas acho que ele dá bobeira ao colocar isto nas redes sociais, pois atrai indignação dos falsos moralistas. Desaprovo, ainda, o uso da bandana com a mensagem “Sou 100% Jesus”. Ora, praça esportiva não é local para pregação religiosa. Critico também muitos torcedores por usarem camisetas e mensagens “Fora Temer”. Ora, praça esportiva não é local para discussão política. E estou à vontade para criticar esse disparate porque também fui contra as vaias dirigidas à Dilma Rousseff na abertura da Copa do Mundo de 2014. Goste-se ou não de Dilma ou de Temer, eles estão representando o país, portanto, os torcedores deveriam refrear seus sentimentos. Porém, voltando a Neymar, é inegável que ele possui uma capacidade de jogar futebol acima da média – e demonstrou isto durante a disputa do Futebol Olímpico. Os idiotas da obviedade falaram. “Ah, o Brasil jogou contra adversários fracos”. É verdade, entretanto, soube impor seu futebol, mesmo com exibições fracas contra África do Sul e Iraque, e conquistou o almejado ouro olímpico. Enquanto isto, a Seleção Brasileira de Futebol Feminino decepcionou e sequer conquistou uma medalha de bronze. Os idiotas da obviedade falaram. “Ah, mas as meninas não têm apoio como os rapazes”. É evidente que não. Basta comparar a importância do futebol masculino com o feminino no cenário futebolístico mundial. Àqueles que me criticarem por ser sexista, faço uma pergunta: Qual partida você prefere assistir? Brasil x Argentina com Neymar de um lado e Messi do outro ou um Brasil x Argentina com Marta de um lado e Fabiana Vallejos de outro. A verdade é que futebol não combina com mulheres, assim como basquete. Assistir uma final de basquete da WNBA é como tomar cerveja quente depois de ver partidas eletrizantes nas finais da NBA. Isto sem falar do espetáculo grotesco da MMA entre mulheres. Ou seja, esportes que exigem choque não emocionam quando as mulheres são protagonistas. Não acho que as mulheres só devem praticar ginástica e ginástica rítmica, além de saltos ornamentais, elas se destacam no vôlei e no tênis. Entretanto, também nestes casos, os jogos entre os homens é bem mais bonito de se ver. Portanto, declaro o fim desta perseguição a Neymar. Vamos esquecer o que ele faz nas redes sociais e curtir sua arte nos gramados.

O legado olímpico

Como previa, as notícias negativas sobre o Rio desapareceriam após o início das competições. Não deu outra. Houve despedida olímpica de dois fenômenos – Michael Phelps na Natação e Usain Bolt no Atletismo -, quebras de recordes, vaias impróprias de torcedores brasileiros contra atletas de diversos países e outras coisas. Os mais críticos fazem contas para mostrar que cada medalha olímpica custou uma fortuna e, portanto, foi uma irresponsabilidade o Rio de Janeiro sediar um evento tão importante. Admito que não apoiei a ideia de uma cidade brasileira sediar os Jogos Olímpicos de Verão, entretanto, é inegável que ficará, sim, um legado para a cidade. Além da maquiagem na cidade, como esconder mendigos, represar a sujeira na Baía da Guanabara e na lagoa Rodrigo de Freitas e reforçar a segurança pública, o Rio de Janeiro teve ganhos indiscutíveis. Houve uma melhoria na mobilidade urbana, um complexo esportivo de primeiro mundo e o resgate da imagem da cidade e consequentemente do país que deve atrair mais turistas e, com isto, levar mais dólares e aumentar o faturamento com turismo no Brasil. Ou seja, o saldo pode ser considerado positivo. O problema mesmo será a fatura que chegará para os cariocas e os brasileiros em geral. Após a disputa das Paralimpíadas, a cidade voltará ao normal. Se alguém saiu bem na fita foi o prefeito Eduardo Paes. Por falar inglês muito bem, conquistou os jornalistas estrangeiros. Como o saldo foi positivo, ele pode perfeitamente eleger o contestado Pedro Paulo – acusado de ser espancador de mulheres – como seu sucessor. Por enquanto, porém, os candidatos da Igreja Universal do Reino de Deus estão na frente, tanto no Rio com Marcelo Crivella como em São Paulo com Celso Russomano. Como não é uma coluna de política, abstenho-me de comentar os resultados das pesquisas.