‘A vida tem sido muito generosa comigo’

Viviane Spinelli, uma das fundadoras do Brazilian Film Festival, fala sobre cultura, amor e sincronicidade

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Vivi e um de seus filhos, a gatinha Samantha
Vivi e um de seus filhos, a gatinha Samantha

O acaso não existe, diz-se muito no meio espírita. E, como admiradora da doutrina de Kardec, Viviane Bressane Spinelli acredita que os acontecimentos são frutos de nossas escolhas. Produtora cultural, diretora da Inffinito e uma das fundadoras do Festival Brasileiro de Cinema de Miami, esta mato-grossense de Cuiabá até chegou a flertar com um propósito totalmente diferente – imaginou que seria arquiteta, fez planos para morar na Califórnia e resistiu o quanto pôde quando um grande amor bateu à porta. Mas, aos 50 anos recém-completados, ela está muito tranquila e feliz com as opções que fez ao longo desta trajetória, tanto no aspecto pessoal quanto profissional. “A vida tem sido muito generosa comigo”, atestou Vivi, durante um bate-papo em sua aconchegante casa em Miami Beach.

Tanira e Viviane, juntas há mais de 12 anos
Tanira e Viviane, juntas há mais de 12 anos

A conversa, por sinal, foi muito emotiva. Também pudera! Naquele mesmo dia, estava sendo enterrado no Rio de Janeiro o homem a quem Viviane sempre considerou um segundo pai: José Ruy Dutra, pai das suas sócias na Inffinito, Adriana e Cláudia. “Gostaria de estar lá”, revelou com os olhos marejados pela despedida à distância. As lágrimas também reapareceram em outros momentos da entrevista, principalmente pelo orgulho de ser uma das principais embaixadoras da cultura brasileira nos Estados Unidos. Tanto é verdade que ela recebeu recentemente a comenda da Ordem do Rio Branco, a mais alta condecoração oferecida pelo governo brasileiro fora do nosso país. “Trata-se de um reconhecimento pelo incansável trabalho que realizamos há mais de duas décadas para divulgar o que temos de melhor, a nossa cultura”, resumiu Viviane. Ela disse que tão importante quanto a homenagem em si foi proporcionar esta alegria para sua família no Mato Grosso.   

Viviane comemorando os 50 anos em família no Brasil
Viviane comemorando os 50 anos em família no Brasil

E pensar que ela poderia estar ainda em Cuiabá, à frente da firma de arquitetura e construção criada em sociedade com um primo no início dos anos 90. No entanto, Viviane sempre teve o desejo de explorar o mundo. Sua primeira grande aventura foi a mudança para San Diego, na Califórnia, para aprender inglês. Bastou um Spring Break em South Beach para perceber que sua casa nos Estados Unidos seria em outro local. “A diversidade de Miami me encantou demais e a identificação foi imediata. Eu vim para passar uma semana e já se vão mais de 25 anos”, brinca a única das meninas da Inffinito que mora no sul da Flórida até hoje.

A diversidade de Miami me encantou demais e a identificação foi imediata. Eu vim
para passar uma semana e já se vão mais de 25 anos”

— Viviane Spinelli

Na busca do sonho americano. Viviane trabalhou como guia de turismo e organizou festas brasileiras. Com as parceiras Adriana e Cláudia Dutra, criou a Inffinito Promotions, e as três tiveram a sensibilidade de perceber o enorme vácuo para quem buscava manifestações culturais brasileiras no exterior. “Só se falava em futebol e carnaval. O cinema ‘Made in Brazil’, então, era discriminado demais, fruto ainda da memória da pornochanchada. A gente, porém, sabia do produto que tinha em mãos”, lembra Vivi. O resto é história.

O primeiro Brazilian Film Festival (BRAFF), em 1997, coincidiu com o momento especial da retomada do cinema brasileiro, depois da crise que culminou com a extinção da Embrafilme. Com o fim da censura e a evolução tecnológica, uma indústria até então decadente ganhou fôlego novo e viabilidade, e as meninas da Inffinito souberam aproveitar a onda. “O universo conspirou e já no festival de estreia apresentamos produções que representaram bem essa fase de volta por cima do cinema brasileiro, como Carlota Joaquina, Pequeno Dicionário Amoroso, Terra Estrangeira e O Quatrilho”, recorda Vivi. Mais uma vez, elas estavam no lugar certo, na hora exata.

Não pense o leitor que tem sido fácil. “Trabalhar com cultura é muito complicado, ainda mais depois que perdemos todo o aporte financeiro vindo do Brasil. O Festival de Miami só acontece graças aos subsídios de governos municipais (Miami e Miami Beach) e estadual da Flórida e aos patrocínios e apoio institucional da American Airlines, da E! Television, Piola e Consulado Geral do Brasil em Miami”, revela Viviane. Mas a matemática no vermelho não desanima a produtora, que conta com apoio de pessoas como a brasileira Liliana Kawase, curadora do BRAFF, uma fomentadora de doações direcionadas à cultura entre de filantropos conterrâneos.

Justamente nesses momentos de maior adversidade é que Vivi busca forças para continuar a escrever sua história. “Esta é minha missão, promover o cinema brasileiro no exterior. Assim como meus bichos de estimação, o BRAFF também é um filho para mim”, comparou. Uma cria que chega agora à sua 23ª edição consecutiva e vai se mostrar ao público entre os dias 14 e 21 de setembro, em especial no Regal South Beach 18, na Mostra Competitiva pelo prêmio Lente de Cristal.

Outros projetos de curto prazo incluem a realização do festival em Orlando, já com avançadas negociações para estreia ainda em 2019, e o lançamento da mais recente produção da Inffinito, a série “Opção América”, que deve ser comercializada também aqui nos EUA. “É um documentário em sete episódios, dirigido pela Adriana Dutra, no qual eu assino a direção de produção, sobre a saga de sete famílias latino-americanas que migraram para a América, especificamente Miami”, descreve Viviane, acrescentando que outras novidades também estão a caminho.

Ao falar do plano pessoal, a vista de Viviane volta a embaçar. Afinal, são 12 anos de relacionamento com a médica Tanira Belloc, com quem oficializou o casamento em 2013, em pleno Central Park de Nova York. A amizade que virou amor depois de muitos anos quase não engrena. Lembra do início do texto? Nada é por acaso. “Havia alguns problemas externos e eu também achava que éramos polos opostos. Nossa ligação é mesmo de almas, e foi acontecendo naturalmente. Hoje percebo que completamos uma à outra, e mesmo as diferenças foram se harmonizando”, diz Vivi.

Mas há um ponto em comum muito forte entre as duas, que é a vontade de viajar e conhecer lugares interessantes: Como bem ressaltou Viviane, “estamos sempre de olho no próximo destino”. Por isso, o papo precisou ser interrompido para que elas pudessem seguir para Punta Cana, na República Dominicana, onde iriam passar alguns dias para celebrar o aniversário de Tanira e renovar as energias – uma delas com vários livros na bagagem e a outra sonhando com as ondas perfeitas para o surfe.

Cinco perguntas para Viviane:

1. Local preferido em Miami?

Minha casa.

2. O que mais sente falta do Brasil?

Família e alguns amigos especiais.

3. Pessoa que admira?

Chico Xavier

4. Que filme gostaria de ter feito/produzido?

Uma obra de ficção/drama (só consegui produzir o documentário) baseada no livro ‘Pioneiros’, escrito pela minha tia italiana Pepita Spinelli di Tarsia. Conta a história do meu avô Mario e irmãos, que sairam da Itália para o Brasil e desbravaram Mato Grosso.

5. Qual o primeiro item da sua ‘bucket list’?

Há poucos dias seria a reforma da minha casa, mas está tudo encaminhado. Então agora é conhecer Fernando de Noronha. Quem sabe pode rolar até uma mostra de filmes por lá…