Local

Artistas brasileiros são vozes solitárias na luta antirracista nos Estados Unidos

Falta de apoio da comunidade brasileira branca nos EUA é um fator marcante

Isaura Oliveira durante participação no movimento Black Lives Matter, organizado pelo grupo Sistahs of the Calabash, em Boston, MA (Foto: Sussen Gazel)
Isaura Oliveira durante participação no movimento Black Lives Matter, organizado pelo grupo Sistahs of the Calabash, em Boston, MA (Foto: Sussen Gazel)

DA REDAÇÃO – Os protestos antirracistas que eclodiram por todo o país pedindo o fim da violência policial contra os negros, motivados pela morte de George Floyd, se mostram tão diversificados quanto a própria causa negra. De protestos violentos entre manifestantes e policiais até pintura de murais e ruas do Black Lives Matter. Artistas de todas as vertentes tentam mostrar que a arte também é uma arma poderosa na promoção de mudanças estruturais.

No entanto, enquanto os protestos por todo o país se intensificam ganhando contornos de guerra campal com a surpreendente participação dos brancos na luta ao lado dos negros, um aspecto chama a atenção: a ausência de apoio à causa negra pela comunidade brasileira branca nos EUA. Se podemos dizer que algum apoio ocorreu, este se limitou a manifestações pontuais no mundo digital. Um engajamento permanente pela causa continua limitado às vozes do movimento negro.

A quase inexistência de grupos organizados só é amenizada pelas iniciativas individuais e descentralizadas de artistas brasileiros como Isaura Oliveira, 61, que através da dança, do teatro e da espiritualidade, busca a conscientização e a integração das diversas culturas. Na cidade de Boston onde mora, Oliveira ganhou destaque pela sua atuação nas causas das minorias.

No dia 4 de julho, dia da independência dos Estados Unidos, Oliveira participou de um evento promovido pelo grupo de mulheres afro-descendentes Sistahs of the Calabash em apoio ao Black Lives Matter que homenageou mulheres negras mortas pela polícia. A pedido de Oliveira, duas mulheres indígenas assassinadas no Brasil foram incluídas nas homenagens.

Com as aulas de dança, que agora são ministradas ao ar livre nos parques da cidade, Oliveira iniciou uma campanha de arrecadação de fundos para ajudar duas comunidades no Brasil, uma quilombolas e outra indígena. “Muitos indígenas e quilombolas estão sofrendo com a pandemia. O dinheiro arrecadado irá ajudar na compra de materiais e alimentos”, explica. Além da arrecadação ela também doa 50 por cento da renda das aulas para estas instituições.

Quanto a ausência dos brasileiros nas manifestações, Oliveira acredita que a herança escravocrata explica parcialmente este fenômeno. “Nós ainda vivemos com os efeitos do colonialismo que ainda influencia a nossa coragem, nosso medo e a nossa capacidade de ir adiante. A maioria não faz aqui diferente do que fazia no Brasil”, acredita.

O mineiro Nilson Coelho replica a observação feita por Oliveira. “O processo de branqueamento na qual o Brasil passou, onde desde pequeno fomos expostos a livros que mostravam os heróis todos brancos de olhos azuis, contribuiu para afastar os brancos e até mesmo alguns negros dos movimentos de luta racial”, diz ele que participou da formação da Orcamajes, o único grupo brasileiro voltado para a luta racial no estado de Connecticut em 2006, hoje extinto.

Coelho acredita que os brasileiros mostram resistência a aceitarem que o racismo existe. Ele reconhecendo, entretanto, que hoje a conscientização é maior, mas que nos Estados Unidos grande parte dos brasileiros segue passivo diante dos atuais movimentos de apoio à causa negra.

A norte-americana Maxine Margolis, professora emérita da Universidade da Flórida e pesquisadora do Instituto de Estudos da América Latina da Universidade Columbia, escreveu seis livros sobre os brasileiros nos Estados Unidos. De Nova York, onde conversou por telefone com o AcheiUSA, ela explica que a pequena participação dos brasileiros pode estar relacionado ao fato dos afro-brasileiros constituem uma parcela muito pequena dos imigrantes nos Estados Unidos, algo em torno de 10 por cento segundo ela.

Margolis oferece outra pista do motivo da comunidade brasileira ter pouco envolvimento com as causas negras. “Aqui nos Estados Unidos existe o que chamamos de one drop rule (regra de uma gota). Segundo esta regra, se a pessoa tem pelo menos um familiar ou ancestral negro, ou pardo, ela já não pode ser considerada branca, independente da cor de sua pele, mas no Brasil muitas pessoas por serem pardas, não se consideram pessoas de cor”, explica.

Marcus Santos, 43, concorda que os brasileiros estão agindo pouco neste sentido, provavelmente devido à pandemia na qual o país atravessa. Em sua visão, a prioridade é a sobrevivência em primeiro lugar. Santos, que é professor de percussão do New England Conservatory of Music e da Middlesex Community College em Massachusetts, acredita que existem outras formas de luta. Ele criou o grupo de percussão Groovesity em 2006, para levar através da música afro-descendente, que se originou na Bahia onde ele nasceu, a mensagem da diversidade cultural e racial.

O percussionista Marcus Santos acredita na força a educação e integração entre as diversas culturas para promover mudanças

“Desde o começo do grupo nós já estávamos usando a música, que nasceu com a luta dos direitos de igualdade racial no Brasil nos anos 1970, para uma maior integração entre as comunidades”, diz Santos reconhecendo que a luta é mais educativa do que de confronto. “A única maneira de mudar a atual situação é através da educação”, diz ele completando que a mudança acontece lentamente e que é preciso se juntar às vozes atuantes para que no futuro algo de fato se transforme.

Mudança pela educação é o que tenta fazer o músico Eduardo Mendonça, residente da cidade de Seattle, Washington. Motivado por um sentimento de inquietação e revolta, depois da morte de George Floyd, Mendonça começou a promover uma conversa semanal com diversos convidados, transmitida ao vivo pelo Instagram, intitulada “Racismo. Presente, Passado e Futuros”. Nos debates, ele levanta o tema racial e discute formas de lidar com o problema. Para Mendonça é necessário aumentar a presença dos afro-descendentes em cargos de poder para que as mudanças de fato ocorram. “Nós precisamos de uma maior representação de pessoas negras nas posições de liderança. Quando você olha para Brasília e também para Washington, D.C., não se vê muitos negros assumindo cargos de liderança”, diz ele lembrando que é preciso apoiar e votar em pessoas de cor. “A partir deste ponto, teremos um mundo mais justo e inclusivo. Falar não é suficiente”, finaliza.

Compartilhar Post:

Baixe nosso aplicativo

Exit mobile version