Brasil poderá bater recorde mundial de mortes diárias por covid-19, dizem especialistas

Pesquisadores das universidades de Duke e de Washington alertam que país está se tornando uma “Fukushima biológica’ prestes a explodir

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Sobrecarga nos cemitérios tem feito com que enterros sejam realizados até à noite na Vila Formosa, em São Paulo (REUTERS/Amanda Perobelli/Arquivo)

REUTERS / ACHEIUSA – Um aumento brutal no número de casos fatais de covid-19 no Brasil pode levar o país a ultrapassar o recorde alcançado nos Estados Unidos em janeiro, é a previsão de pesquisadores de universidades americanas. Foram mais de 4 mil mortes no Brasil somente na terça-feira (6), com o surto sobrecarregando perigosamente os hospitais. O país já contabiliza quase 337 mil mortes, atrás apenas dos Estados Unidos, segundo dados do ministério da Saúde brasileiro. Nos EUA, mais de 550 mil pessoas já morreram em consequência da covid-19.

O sistema de saúde está à beira do colapso, e o país pode até mesmo ultrapassar os EUA em número total de vítimas fatais da pandemia, apesar de ter uma população um terço menor que a americana, segundo disseram especialistas à Reuters. “É um reator nuclear com uma reação em cadeia fora de controle. É uma Fukushima biológica”, disse Miguel Nicoelis, médico brasileiro professor na Duke University, que acompanha de perto a evolução do vírus.

Na terça, o ministério da Saúde contabilizou 4,915 mortes por covid-19 nas 24 horas precedentes, número bem acima do recorde anterior. O recorde vem sendo batido semanalmente desde fins de fevereiro, quando o aparecimento de variantes mais contagiosas e medidas lenientes de distanciamento social e confinamento trouxeram força ao surto. Com a vacinação adiantada nos Estados Unidos, o Brasil agora é o epicentro da pandemia, contribuindo com uma em cada quatro mortes por dia em todo mundo, segundo análise da Reuters.

O presidente Jair Bolsonaro tem sido contra as medidas de uso de máscara, distanciamento social e confinamento recomendadas pelos especialistas como prevenção ao vírus. O Brasil foi um dos últimos países a acelerar a vacinação em massa.

Apesar do surto, o governo insiste na necessidade do país voltar a uma condição mais próxima possível do normal. “Julgamos que em dois, três ou quatro meses as coisas possam voltar a funcionar normalmente”, disse o ministro da Economia, Paulo Guedes, durante um evento online na terça-feira. “É claro que provavelmente a atividade econômica sofrerá uma diminuição, mas será muito, muito menor que as quedas sofridas no ano passado … e por muito menos tempo”.

Bolsonaro reagiu às pressões políticas com uma ampla reforma ministerial, colocando aliados próximos em ministérios-chave, em preparação para a dura campanha pela reeleição no próximo ano, que poderá ter o ex-presidente Lula na cédula de votação como adversário.

Embora o presidente tenha moderado o tom com respeito à imunização, as vacinas continuam sendo desprezadas, e o ex-capitão do Exército luta nos tribunais contra as restrições às atividades econômicas impostas por governos estaduais e municipais.

Nicoelis e Christovam Barcellos, pesquisador da Fiocruz, preveem que o Brasil poderá em breve ultrapassar os Estados Unidos tanto em número de mortes quanto na méida geral de óbitos por dia.

Já na próxima semana o Brasil deverá bater o recorde de média semanal de mortes por covid-19, segundo um modelo do Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME) da University of Washington. O pico da média diária nos EUA foi de 3,285 óbitos em janeiro.

(REUTERS – Reportagem de Pedro Fonseca; reportagem adicional de Jamie McGeever; texto de Jake Spring; tradução AcheiUSA)