Brasileiro estampa murais e prédios do sul da Flórida com sua arte urbana

Fábio Onrack expandiu suas fronteiras para levar os traços brasileiros às ruas dos EUA

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Mural da escola Virginia Shuman Young Elementary em Fort Lauderdale (Foto: Arquivo pessoal)
Mural da escola Virginia Shuman Young Elementary em Fort Lauderdale (Foto: Arquivo pessoal)

No último dia 18 de outubro, a Virginia Shuman Young Elementary School localizada na 26 North em Fort Lauderdale, inaugurou o maior mural artístico em uma escola no sul da Flórida. O projeto transformou os inexpressivos muros brancos –tanto do lado de dentro quanto de fora da escola– em uma gigantesca obra de arte a céu aberto.

“Nossos alunos se juntaram a nós no campus e eles tinham uma expressão de admiração em seus olhos ao ver a arte estampada nas paredes. Foi absolutamente incrível,” disse a diretora da escola, Cindy Felton, que participou da inauguração do mural ao lado do prefeito de Broward, Dean Trantalis.

O trabalho foi executado por três artistas:  os americanos Aaron Bodden e Eric Karbeling, e o brasileiro Fábio Onrack.

A Fábio coube a tarefa de pintar a maior parte do muro, que cobre toda a área externa de frente para a Broward Boulevard.

O enorme desenho realista mostra uma menina e um menino, um branco e outro negro, ambos sorrindo e utilizando copos vazios para se comunicar, em referência a antiga brincadeira de telefone sem fio.

“Tentei criar algo que representasse a diversidade e a nossa necessidade de conexão, de aprender a fazer um novo mundo”, disse Fábio ao AcheiUSA. 

Ele contou que o mais difícil no projeto que demorou cerca de três meses para ser concluído foi encontrar o sorriso perfeito. “Fiz centenas de ‘photoshoots’, passei dois meses fotografando e não estava capturando o sorriso espontâneo que eu queria. Então fui buscar onde eu cresci” contou.

Com a ajuda de um amigo, eles encontraram em São Paulo as duas crianças que representam a espontaneidade agora estampada nos muros da escola em Fort Lauderdale.

Os dois brasileirinhos foram pintados sobre cores vibrantes a partir de técnicas que envolvem spray e pintura à mão.

Novo país, nova arte

Fábio Onrack, 31, mudou-se de São Paulo (SP) para os EUA há cinco anos tendo morado nos estados da Philadelphia, New Jersey e então Flórida, onde fixou residencia há cerca de um ano.

Desde que chegou na América, ele já deixou sua marca em pelo menos 25 painéis espalhados pelo país, 12 deles no sul da Flórida – Hollywood, Lake Worth, Fort Lauderdale, Delray Beach e Hallandale. 

Um dos seus trabalhos mais famosos no Sunshine State são os retratos realistas pintados em preto e branco na entrada de Hollywood, em Broward, que traz os renomados artistas Salvador Dali, Frida Kahlo e Jean-Michel Basquiat.

Essas três personalidades, segundo Fábio, não foram escolhidas por acaso, mas pela contribuição involuntária que deram no processo de transformação pessoal e artística que o brasileiro atravessa.

“A história desses artistas faz com que eu me sinta bem, eles me influenciam pelo modo como lidam com a arte. “Eu quero olhar para minha arte e saber que tem uma história por trás”, disse.

Como quase todo imigrante recém-chegado aos EUA sem autorização de trabalho, sem o domínio do inglês e com pouquíssimos conhecidos, ele foi trabalhar com limpeza de restaurantes, construção e pintura, até chegar o momento em que viveria do seu talento.  “A vida de um imigrante tem muitas dificuldades, eu amadureci 1000%”, analisou.

O processos de mudança de país e adaptação a uma nova realidade provocou transformações profundas na forma de encarar a vida, e também na concepção artística do jovem. 

Hoje, com sua arte ressignificada, Fábio prepara uma coleção de telas que será apresentada na Art Basel, em Miami, assim que o festival for remarcado. Os quadros terão custo estimado entre $12 mil e $25 mil.

O artista Fábio Onrack

“Despertar do artista”

A relação de Fábio Onrack com a pintura começou, literalmente, após ele despertar de um sono. Em 2006, com então 14 anos, ele sofreu um grave acidente de moto e passou três meses em uma UTI em São Paulo (SP). Durante o processo de recuperação, ele teve um sonho em que pintava uma paisagem. 

“Acordei na manhã seguinte e imediatamente tentei recriar a imagem do meu sonho. Depois dessa experiência, meu interesse pela arte realmente disparou. Pratiquei diferentes técnicas, do acrílico à pintura a óleo, e experimentei todos os tipos de superfícies e materiais”, relatou.

Aos 17 anos, Fábio teve seu primeiro contato com a arte urbana. Dos 17 aos 26 anos foram mais de 400 murais em São Paulo. E agora, aos 31 anos, o artista está deixando sua marca por onde passa também nos Estados Unidos.