Brazil News, o início de tudo

Primeiro jornal comunitário brasileiro nos Estados Unidos foi fundado há exatos 40 anos

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Alvaro Raimundo de Sousa, um dos fundadores do 'Brazil News'

Existem mais de 100 mídias brasileiras voltadas à comunidade brasileira nos Estados Unidos. Todas elas seguem o caminho aberto por um periódico de doze páginas em português lançado em setembro de 1969 na chamada ‘Tri-State Area’ (os estados de New York, New Jersey e Connecticut) – o Brazil News, o primeiro jornal comunitário com foco nos nossos conterrâneos que viviam na América. O feito pioneiro e histórico do jornalista Álvaro Raimundo de Sousa, mais conhecido como Al Sousa, idealizador do Brazil News, acaba de completar 40 anos.

Os mais jovens, acostumados à profusão de informações na Internet e à instantaneidade do mundo moderno, talvez não entendam a importância da iniciativa. Mas basta dizer que para alguém que vivia nos EUA no final da década de 60 a melhor maneira de saber notícias do Brasil era através de cartas enviadas pelo correio convencional por amigos ou parentes ou, em casos raros, de ligações telefônicas que custavam uma fortuna. Daí o frisson (para usar uma expressão da época) causado pela chegada do primeiro número do Brazil News aos pontos brasileiros de Manhattan, Newark e adjacências, exatamente no dia 7 de setembro.

‘Caminho da paz só com ajuda aos subdesenvolvidos’, trazia a manchete da capa da edição 1, referente a uma matéria sobre a política externa do então governo militar brasileiro. O futebol, paixão nacional, também veio com destaque na primeira página e com uma foto do goleador Tostão, durante uma partida entre as seleções do Brasil e da Venezuela, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo do México. “Não era fácil fazer aquele jornal”, recorda Al Sousa, que para aprontar o produto final trabalhava lado a lado com o linotipista de uma gráfica de New Jersey para montar as caixas de textos, letra por letra, para posterior impressão. E com um detalhe: o serviço ainda exigia esforço extra, pois as máquinas de escrever não possuíam os acentos do idioma.

O conteúdo do jornal, por sua vez, chegava via aérea: como funcionário da Varig, ele tinha acesso a jornais e revistas brasileiras nos voos com destino a New York – e ainda recebia pelo serviço de carga da empresa os recortes de notícias mandados pelo cunhado, Jorge Milton Moreira Nunes, do Rio de Janeiro. Jornalista de mão cheia, com passagens pelos principais veículos de comunicação do país, Al dava o seu toque pessoal para tornar os textos mais atraentes aos imigrantes.

Mas como um bom jornal comunitário, o Brazil News também trazia informações úteis para o dia a dia dos brasileiros da região. Por isso, nas páginas do jornal era comum encontrar dicas de beleza, horóscopo, receitas culinárias e matérias locais – como a campanha de doação de livros em português para a biblioteca do Centro Brasileiro de New Jersey. Ou ainda, a mudança de endereço de um médico brasileiro que atendia em um consultório em Long Island. Enfim, um jornal completo.

Os mil exemplares eram distribuídos pelo próprio Al Sousa, com a ajuda do motorista de uma agência de turismo de Manhattan, de propriedade de Abraão Utler, que tornou-se sócio do empreendimento. “Só existiam alguns poucos restaurantes brasileiros, outras poucas lojas de produtos nacionais e dava para contar nos dedos de uma mão as organizações voltadas para a comunidade. Portanto, deixava muitos jornais em cada um destes estabelecimentos, mas sempre carregava comigo alguns exemplares”, lembra o jornalista, que é conselheiro honorário do AcheiUSA, um das muitas crias do Brazil News.

O jornal de Al Sousa não durou mais do que cinco edições, o suficiente para fazer história – e entrar para a história. E hoje, 40 anos depois, todos nós que trabalhamos e/ou dependemos das mídias comunitárias nos Estados Unidos somos gratos ao espírito empreendedor do jornalista, que deu o primeiro passo para que fosse estabelecida uma conexão mais forte com o nosso país.

O pioneiro Al Sousa

Mineiro de Uberlândia, mas – como ele gosta de dizer – de “espírito carioca”, até porque sua família se mudou para a Cidade Maravilhosa quando ele tinha poucos anos de vida, Al Sousa sempre soube que queria ser jornalista, mas o primeiro contato com uma redação de notícias veio quase que por acaso. Um vizinho era proprietário de um pequeno periódico, chamado ‘O Mundo’, e ele foi chamado, aos 17 anos de idade, para ajudar a apurar informações pelo telefone junto às delegacias de polícia, o que no jargão jornalístico chama-se de ‘ronda’. Como filho de um jornalista e escritor, não foi difícil para que Al se encantasse com a profissão.

Daí em diante, ele passou pelos principais veículos de comunicação do país, incluindo aí os jornais ‘Diário de Notícias’, ‘Luta Democrática’, ‘O Fluminense’ e ‘A Noite’; a ‘Rádio Nacional’, onde atuou como produtor do consagrado Repórter Esso, e até televisão, na ‘TV Tupi’, apresentando um programa ao vivo de variedades. No entanto, com a chegada do regime militar ao poder, Al Sousa optou em 1968 pelo que chamou de “exílio voluntário” nos Estados Unidos. “Muitos amigos meus estavam sendo presos e fui aconselhado a tirar licença sem vencimentos do emprego público que exercia como técnico em Comunicação Social num órgão ligado ao Diário Oficial. Vendi tudo e vim com mulher e filho para a América”, conta Al.

Como correspondente do Diário de Notícias, ele ainda chegou a enviar por telex algumas matérias para o jornal do Rio de Janeiro, mas os pedidos da redação foram rareando. O que lhe garantiu o ganha-pão foi o emprego na Varig, no setor de relações públicas da companhia no aeroporto. No entanto, a volta ao jornalismo jamais lhe saiu da cabeça… e o sonho foi concretizado mais de um ano depois de estabilizado em New York.

Hoje, morando em Miami Beach, Al Sousa resistiu à ideia de uma matéria especial, com entrevista, sobre os 40 anos do Brazil News. “Ninguém quer saber de história”, disse, modesto.

Como você vê a importância do Brazil News para os imigrantes brasileiros nos EUA?
– Estamos falando de uma época que não existia Internet e ninguém tinha acesso às informações. Por isso, foi fundamental para os brasileiros que um veículo trouxesse essas notícias. O jornal acompanhou o início do crescimento dos brasileiros na América e acho que teve sua parcela de contribuição para aglutinar a comunidade.

O seu jornal pode ser considerado o pai de todas as mídias comunitárias. O que você acha do serviço praticado pelos meios de comunicação em português em terra estrangeira?
– Fundamental. Mesmo com todas a disponibilidade de informação, a mídia comunitária nunca vai perder seu lugar pois os imigrantes querem um link com o país natal e precisam saber de assuntos que as grandes mídias não publicam.

Você sente saudades de escrever artigos e matérias?
Eventualmente publico minha coluna, ‘Periscópio’, no AcheiUSA, que são drops e comentários sobre o que está acontecendo no Brasil e no mundo, Mas já fico satisfeito de acompanhar o trabalho de Jorge Nunes, meu sobrinho, à frente do jornal. Estou vendo a história se repetir, na mesma família. Mas acho também que ninguém quer mais ler o que eu tenho a escrever.


1969, um ano nada ordinário

Ao falar do lançamento do primeiro jornal comunitário brasileiros nos Estados Unidos, é importante situar o fato num cotexto histórico. E costuma-se dizer que 1969 foi o ano que mudou o mundo. Senão vejamos: em julho, cerca de um bilhão de pessoas acompanharam pela televisão, atônitas, uma das cenas mais emocionantes proporcionadas pela ciência em todos os tempos – o pouso da Apollo 11 na Lua e a caminhada de Neil Armstrong e Edwin Aldrin em solo lunar. Poucas semanas depois, aconteceu outra passagem igualmente importante da história, que foi o Festival de Woodstock, quando mais de 400 mil pessoas se reuniram para ouvir artistas como The Who, Janis Joplin, Jimmi Hendrix, Santana e Joe Cocker, mas principalmente para pedir paz num mundo cheio de guerras e dividido pela Guerra Fria entre Estados Unidos e a então União Soviética.

No Brasil, o período militar iniciado cinco anos antes, endureceu e 1969 marcou o início dos “anos de chumbo”, com a perseguição a milhares de brasileiros que denunciaram a barbárie promovida pelo governo Médici. No meio de tudo isso, Pelé fazia seu milésimo gol, numa partida entre o Santos e o Vasco da Gama, no Maracanã. Neste período também nasceram outros dois veículos fundamentais para a imprensa brasileira: chegava às bancas ‘O Pasquim’, jornal de crítica e oposição ao regime, e também foi realizada a primeira transmissão do Jornal Nacional, da TV Globo. Vale destacar ainda que foi em 1969 a primeira mensagem enviada pela arpanet, que pode ser classificada como a precursora da internet.


DEPOIMENTOS

Só agora depois de 40 anos é que podemos perceber a verdadeira perspectiva do pioneirismo de Sousa. O Brazil News foi o primeiro periódico editado em  português nos EUA, o que representa um verdadeiro marco não só para o jornalismo brasileiro, mas também para a história da cultura brasileira, já que a missão de um jornal vai além de simplesmente transmitir a notícia – ele é, também, um disseminador de cultura, um preservador e propagador da língua. Al Sousa foi pioneiro nessa tarefa, e nós do AcheiUSA, como herdeiros diretos do legado do Brazil News, sentimo-nos muito honrados em prosseguir pelo caminho aberto por ele.

Jorge Moreira Nunes, presidente do AcheiUSA, sobrinho de Al Sousa e filho de Jorge Milton Moreira Nunes, pioneiros do Brazil News

Al Sousa é um visionário. Fundar um jornal nesse país quando os leitores ainda eram escassos foi de um arrojo digno de louvor. Ele pavimentou o caminho para todos nós que sobrevivemos da notícia, deixando o caminho aberto para as futuras gerações de brasileiros que viriam a se instalar por aqui.
Fui apresentado a ele durante o Focus de 2007 e me emocionei bastante. Apertei a sua mão e agradeci pelo exemplo que nos deu e pela trilha que abriu, e tive a certeza de que naquele dia, ganhei um novo amigo. Sua iniciativa pioneira criou uma nova era para a colônia brasileira nos Estados Unidos. Se hoje o imigrante brasileiro tem acesso à notícia, tudo começou com ele, há exatos 40 anos.
Saúdo-o pelo marco tão importante na história da imigração brasileira neste país. E agradecerei, sinceramente, tantas quantas foram as vezes que ele cruzar o meu caminho pela vida.

Roberto Lima, editor do Brazilian Voice, de New Jersey, e presidente da Associação Brasileira de Imprensa Internacional (ABI-Inter)

Todas as vezes que eu me aproximava do balcão da Varig, no Aeroporto de Miami, e via o Al Sousa, associava (imediatamente) a imagem dele a alguma coisa relacionada a jornal. Desde os tempos em que eu trabalhava no Globo, no Florida Review ou em qualquer outro veíCulo, sempre falei com o Sousa com muito respeito e admiração.
É o que os americanos chamam de “seniority” – alguma coisa como tradição…tipo, antes de falar, “pedir a bênção”. A tradução ao pé da letra diz: Seniority is the concept of a person or group of people being in charge or in command of another person or group. This control is often granted to the senior person(s) due to experience or length of service in a given position.
Muito bem, o tempo passou e ele nunca mostrou pra ninguém os exemplares do Brazil News. Quando as pessoas começaram a dizer que outro jornal havia sido o primeiro veículo criado nos Estados Unidos, aí ele tirou do baú a prova: lá estava, amarelado (como deveria ser), com as datas nos lugares certos… Sem truques.
Para o criador do Brazil News, o primeiro jornal em português dos Estados Unidos, peço mais uma vez a bênção, desejando muitos anos de muitas histórias que ainda vão surgir nesta cabeça tão privilegiada e nesta alma tão bondosa.
Obrigado por tudo, Sousa!

Chico Moura, jornalista e escritor