Conexão UF | Alunos da Universidade da Flórida praticam slacklining

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Highlining em Chattanooga, Tennessee
Highlining em Chattanooga, Tennessee

A primeira vez que eu vi slacklining foi no Brasil, uma linha entre dois postes de madeira na praia de Itajaí, Santa Catarina. Foi uma competição, e vários caras se revezavam pulando e girando na linha como se fosse um trampolim e não uma tira de poliéster de cinco centímetros. Pensei “Que massa! Quero tentar essa coisa,” mas demorou para este pensamento se concretizar. Foi mais de um ano depois, no Natal de 2016, que minha tia me enviou o melhor presente (físico) que já recebi na minha vida, um slackline. 

Mas o que é slacklining? É só gente saltando na praia? Na verdade, é um esporte ou atividade de lazer popular no Brasil e no mundo inteiro. Consiste em se equilibrar sobre uma fita elástica esticada entre dois pontos fixos, normalmente entre duas árvores. Seguindo a lenda popular (e também wikipédia), o esporte começou no Vale de Yosemite nos E.U.A. com alpinistas se divertindo enquanto não estavam subindo os penhascos íngremes de granito. Posso confirmar que estes grupos, escaladores e slackliners, têm muita sobreposição. Pessoalmente, não comecei em Yosemite, mas entre duas palmeiras perto do meu dormitório na Universidade da Flórida. A primeira vez não consegui ficar em pé por um instante, mas depois de algumas horas pude dar um passo. Foi assim que aprendi. Cada vez que eu subi na linha, melhorei, até poder andar facilmente entre as palmeiras. Tornou-se um jeito de meditar, para me acalmar depois de palestras confusas e dias cansativos. 

Na faculdade, os alunos sempre buscam novas experiências e novas amizades. Por isso, um slackline no campus sempre atrai muitas pessoas. Às noites, os bêbados ao voltar das festas tentam e sempre caem – já fica complicado andar na linha e o álcool certamente não ajuda. Durante o dia, os verdadeiros corajosos se aventuram, e muitos caem, mas outros me surpreendem, fazendo muito bem para a primeira vez. Para os que ultimamente gostaram, eu sempre recomendei que eles comprassem uma linha de slackline. É barato na internet, apenas $20 dólares. Foi uma boa maneira de fazer amizades e encontrar alunos com interesses semelhantes. Também encontrei outros slackliners que me ensinaram muito mais sobre meu novo passatempo. Eu continuei praticando, e depois de ser capaz de andar, aprendi a pular, lembrando as manobras que vi naquela praia no Brasil. Foi um processo de aprendizagem lento, mas finalmente consegui. 

Este tipo de slacklining dedicado às manobras é chamado tricklining e foi o que vi na competição no Brasil. Meus amigos de slackline me mostraram um outro tipo chamado longlining (linha longa). Esta variedade é praticada em uma linha com a metade da largura (2,5 cm) e bem mais longa – normalmente 20 a 100 metros. Por causa da física associada com linhas longas, a maneira de se equilibrar é muito diferente e, na minha opinião, mais difícil. Linhas assim não são tão bem apertadas como linhas curtas. Esta frouxidão combinada com a distância da linha faz com que cada movimento seu seja transferido e amplificado pela linha, enquanto linhas curtas e apertadas permanecem mais fixas. Muito similar à variedade de longlining é highlining (linha alta). Highlining é o mesmo que longlining, porém tem que ser feito em grandes alturas, por exemplo desfiladeiros ou montanhas. Basicamente, cada vez que eu praticava longlining com meus amigos, eles mencionavam highlining, sutilmente prenunciando a minha experiência o fim de semana passado. Ao ouvir as histórias de highlining dos meus amigos em lugares espetaculares e ver as fotos incríveis, pensei novamente “que massa!” 

O dia finalmente chegou, este fim de semana um estudante de pós-graduação, um ex-aluno e eu viajamos a Chattanooga, Tennessee para encontrar com highliners do sudeste dos E.U.A. e praticar highlining. A jornada foi razoável; 6 horas e meia no carro é muito, mas quando o destino especial, o tempo passa mais rápido. Chegamos sexta-feira à noite bem tarde e a linha já foi montada pelos que moram em Chattanooga. Montamos nossas barracas de camping e dormimos, animados para o dia seguinte. Depois de um café da manhã de aveia e maçã, o espetáculo começou. O grupo de praticantes foi diverso em níveis de habilidade: pessoas basicamente profissionais e conhecidas na comunidade até pessoas como eu, que nunca subiram numa linha assim. Esta linha foi a mais longa que eu experimentei, 67 metros. Consigo andar relativamente bem em linhas de 35 metros, mas esta linha foi fora da minha zona de conforto (50 metros acima do solo!) Por causa disso, minhas expectativas foram baixas. Queria só tentar ficar em pé. Um dos meus amigos conseguiu atravessar a linha inteira e os dois semiprofissionais andaram facilmente. Daí foi a minha vez. Sentei-me na beira do penhasco e amarrei o nó conectando meu cinto à linha. Convoquei toda minha coragem e coloquei uma das minhas pernas por cima da linha. Agora eu estava montado na linha como um cavalo, minhas pernas penduradas sobre o nada, minhas mãos segurando firmemente a linha, comecei a me mexer, indo pouco a pouco mais longe no abismo. 

Sabia que ia ser difícil, e pensava até impossível, por causa do comprimento da linha, mas eu subestimei o impacto da altura. É seguro, você usa um cinto que está conectado à linha; assim, quando você cai, a corda te segura e você simplesmente fica suspenso por baixo da linha, pronto para subir de novo. Porém, quando você está a 50 metros sobre a terra, a parte racional da sua cabeça não está em controle. A sensação de olhar para baixo e ver 50 metros de ar antes da terra e só uma linha pequena para te segurar é uma loucura. Eu estava aproximadamente três metros do penhasco e todo meu corpo estava gritando para eu voltar.  Então voltei, me movendo pouco a pouco na direção contrária. Quando toquei a pedra novamente foi um grande alívio. Eu só queria tentar ficar em pé na linha, mas meu medo não permitia.

Felizmente, não foi minha última chance. Mais tarde, eu amarrei meu nó e tentei de novo. Esta vez foi melhor. Eu ainda estava muito nervoso; a ideia de pôr meus pés em cima da linha parecia inviável. Eu queria estar o mais estável possível. Mas desta vez larguei a linha e me pendurei embaixo usando a corda. Voltei para o penhasco de novo, mas desta vez me sentia melhor, ainda aterrorizado, mas um pouco mais confortável. Terminamos o sábado com jantar de bom miojo e todos estávamos mais próximos por causa da experiência que compartilhamos. Fui dormir mais ansioso que a noite anterior porque agora eu sabia exatamente o que viria amanhã.

A noite foi fria e a manhã fresca, mas eu estava preparado para tentar subir mais uma vez, sabendo que eu cairia. Depois que o sol esquentou o ar frio, começamos novamente. Os talentosos atravessaram a linha e até fizeram truques. Quando chegou a minha vez, eu arrumei meu nó pela última vez e saí na linha. Mais confiante com minha experiência do dia anterior, preparei-me para montar a linha, coloquei os dois pés nela, comecei a me levantar e imediatamente caí para o lado. A corda me segurou, e eu me sentei lá embaixo da linha. Tentei mais uma vez, graças ao incentivo dos meus amigos, e caí de novo. Voltei para o penhasco feliz por tentar, mesmo caindo.

Foi uma experiência única. Até agora não acredito que eu estava naquela linha. Tenho muita gratidão aos highliners experientes pela ajuda nesse processo. Mesmo que não eu tenha conseguido ficar em pé desta vez, percebi que é possível e estou motivado a praticar para a próxima. 

Texto produzido por John Hutton (University of Florida) –, com supervisão da Professora Andréa Ferreira e da redação.