Conexão UF: Cuidar de nossos idosos é cuidar de nós mesmos

Alunos da Universidade da Flórida mostram um pouco do trabalho voluntário que desenvolvem em hospitais e casas de repouso em Gainesville

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Dona Wanda e sua família no Brasil me despertaram o interesse pelo trabalho voluntário com idosos na FL
Dona Wanda e sua família no Brasil me despertaram o interesse pelo trabalho voluntário com idosos na FL

A Universidade da Flórida tem muitos alunos que querem atuar na de área saúde – como enfermeiros, médicos, paramédicos entre outros. Por essa razão, muitos estudantes trabalham como voluntários em hospitais, clínicas psiquiátricas e casas de repouso para ter experiência em atendimento ao paciente. Para mostrar como é comum este trabalho voluntário, escrevi uma parte desta coluna no Serviço de Radiologia enquanto esperava por pacientes.

A Flórida é o estado onde a maioria dos americanos se aposenta, graças ao clima favorável, muitas praias e, talvez mais importante, sem impostos de renda para esses aposentados. Vemos isso na comunidade chamada “The Villages”, a maior comunidade de aposentados dos Estados Unidos. Há mais de 125,000 pessoas que moram lá. 

Nesse período letivo, comecei a ser voluntário no hospital, mas pelos últimos dois anos venho trabalhando com moradores da Oak Hammock, uma casa de repouso aqui em Gainesville, com um grupo de estudantes chamado Just Older Youth. Este grupo interage com os moradores jogando baralho, montando quebra-cabeças e andando ao ar livre. Tudo para tornar essa comunidade mais ativa, física e mentalmente. Minha atividade favorita é o ‘vôlei’ de balões de gás. Todos se sentam em uma mesa longa e empurram os balões, passando-os entre si e tentando mantê-los fora do chão. Fico em pé ao lado da mesa como “juiz”, pegando os balões que caem da mesa e garantindo que todos joguem.  É importante manter todos ativos, mas acima de tudo, é bom ver a felicidade nos rostos de todos. 

Comecei a ser voluntário na comunidade geriátrica em Gainesville, em parte, por causa da minha interação com Dona Vanda no Brasil. Ela era a matriarca da minha terceira família anfitriã e morava conosco. Quando cheguei a morar com essa família depois de cinco meses no país, uma das primeiras atividades que fizemos juntos foi uma viagem a um pequeno sítio, onde celebramos o aniversário de 88 anos de Dona Vanda.

O que mais me marcou mais foi o tamanho do amor que todos seus filhos e netos tinham por ela. Todos reunidos para cantar parabéns, comer bolo e aproveitar o ar fresco. Lembro da caminhada entre os milharais e as cataratas, onde nos banhamos na água fria que caía suavemente nas grandes pedras cinzentas. 

Mas Dona Vanda tinha Alzheimer. Apesar de desfrutar aqueles bons momentos infelizmente sofria deste mal. As suas frases não faziam muito sentido para mim, não só por causa do meu português limitado, que nesse ponto era mais razoável. Com mais tempo, comecei a decifrar suas palavras; que gestos significavam sede e que palavras indicavam fome. Em pouco tempo, ficava cuidando dela, tendo conversas aleatórias e a ajudando a comer. Eu morava com a família da filha por mais de cinco meses, e ainda é difícil descrever a sensação de ser como um filho para uma família que não me criou.

Acho que minha experiência com as comunidades geriátricas (idosas) no Brasil e nos EUA refletem uma diferença importante. Nos Estados Unidos, grandes comunidades geriátricas são a norma. No Brasil, é muito raro. Menos de um 1% da população idosa mora em asilos, e estes asilos são pequenos, com menos que 30 pessoas. 

Dona Vanda morreu este ano, mas ela permanece viva na memória da sua família, dos amigos e de todos que a conheciam. Penso nela quando interajo com meus pais, avó, e claro, cada vez que eu entro na Oak Hammock. Eu vejo este mesmo esquecimento na ala de Alzheimer na casa de repouso. 

Texto produzido por John Hutton (University of Florida) e editado por Lorena Reis–, com supervisão da Professora Andréa Ferreira e da redação do AcheiUSA.