Ecos da Rio 2016

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A Rio 2016 vem mostrando duas faces. Dentro da Vila Olímpica e nos complexos esportivos reina um clima de alta competitividade e confraternização entre os atletas, um comportamento questionável dos torcedores brasileiros (falarei disto mais à frente) e alto astral com elogios às praças esportivas. Fora da concha, porém, atletas, jornalistas e turistas estrangeiros estão sendo vítimas de assaltos e roubos, apesar da segurança reforçada adotada pelo governo para este mega evento.

A abertura dos Jogos Olímpicos de Verão foi bem criativa, com alguns deslizes, é claro, mas no geral mereceu aprovação dos brasileiros e estrangeiros. E gastou apenas 10% da verba usada na abertura da Olimpíada disputada em Londres quatro anos antes. A nota negativa ficou por conta dos torcedores brasileiros que vaiaram algumas delegações, como as dos EUA e sobretudo a da Argentina e aplaudiram demasiadamente outras como Portugal e Palestina. Ora, Olimpíada não se resume a futebol e como país anfitrião é obrigação dos brasileiros receber bem os atletas e torcedores de outros países.

Os americanos conseguiram virar o jogo, tanto que muitos brasileiros acabaram até torcendo por Michael Phelps, mas os atletas argentinos vêm sofrendo com esta perseguição implacável e estúpida. E justamente com um país vizinho e parceiro que até deveria merecer um carinho especial por parte dos brasileiros. Não se pode deixar de enfatizar, ainda, que muitos brasileiros guardam na memória as gozações sofridas por parte de alguns torcedores argentinos maleducados após a humilhante eliminação do Brasil pela Alemanha na Copa do Mundo de 2014. Entretanto, volto a enfatizar, este é o clima do futebol que infelizmente atrai pessoas desrespeitosas e sem educação. A animosidade chegou a tal ponto que cogitou-se na partida entre Brasil e Argentina pelo basquete masculino que as equipes  entrassem com as bandeiras trocadas.

Como se previa, Estados Unidos e China dominam o quadro de medalhas enquanto o Brasil havia conquistado apenas duas medalhas – ouro com Rafaela Silva e prata com Felipe Wu – até o momento em que o texto foi redigido. Certamente o quadro deverá ser alterado e a delegação brasileira ganhará mais medalhas. O objetivo do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) é que o país encerre sua participação no Top 10 – ou seja, fique entre os dez países com mais medalhas conquistadas.

Rafaela Silva e Felipe, destaques militares

Na primeira semana dos Jogos Olímpicos de Verão os destaques brasileiros ficaram com Felipe Wu, medalha de prata na competição de Pistola com Ar, e Rafaela Silva, medalha de ouro no Judô. É preciso realçar que ambos são militares. Wu é tenente do Exército enquanto Rafaela é sargento na Marinha. Ou seja, eles integram o Programa de Atletas das Forças Armadas, que existe desde 1983. Como se vê, o programa para atletas de alta performance foi criado ainda na época da ditadura militar e vem rendendo frutos para os atletas olímpicos brasileiros.

Politização das medalhas

Os jornais enfatizam muito o fato de Rafaela ter vindo da Cidade de Deus, uma das favelas do Rio de Janeiro, mas omitem que ela é integrante das Forças Armadas do Brasil. Alguns afirmam que ela conseguiu isto graças ao Bolsa Atleta criado por Dilma Rousseff, algo que não corresponde à verdade. Claro que o governo brasileiro liberou verbas para um programa de aperfeiçoamento para atletas de alta performance, entretanto, ela deve a conquista de sua medalha ao seu esforço, sua dedicação e de sua equipe, além do programa implantado pelo ex-judoca Flavio Canto. Essa informação, por si só, deve colocar um ponto final nesta ridícula discussão política sobre Rafaela Silva. Só enfatizam que a moça é pobre, preta (na verdade, ela é multiracial), lésbica e ex-favelada. Fizeram até a moça gravar um vídeo em apoio à Dilma, algo totalmente inapropriado. Até porque os petistas vibrarão apenas com as conquistas de atletas simpáticos à Dilma e os antipetistas comemorarão medalhas ganhas por atletas pró-Temer? Somos todos brasileiros e o momento é de torcer por nossos atletas em vez de politizar a competição. Já basta a inoportuna foto de Caetano Veloso segurando um pedaço de papel dizendo “Fora Temer”, mas aceitando o pagamento de R$ 250.000 pagos pelo “governo golpista”. Hipocrisia pura.

Ingrid e Giovanna, dupla sem sincronia

Ingrid de Oliveira e Giovanna Pedroso formaram a dupla de saltadoras na competição de Saltos Ornamentais, modalidade que exige uma sincronia próxima da perfeição para produzir bons resultados. Ingrid, aliás, havia se tornado musa recentemente por causa de fotos publicadas enaltecendo seu belo corpo e sua beleza. Muito se falou sobre isto e pouco de sua qualidade como atleta olímpica. Indignada, a carioca disse nas redes sociais que nem queria a torcida daqueles que apenas valorizavam seus atributos físicos em vez de seu desempenho como atleta. E não é que a garota se desmoralizou como atleta? Ao se apaixonar por Pedro Henrique Carvalho Lima (atleta de canoagem), ela o levou para seu quarto na Vila Olímpica e desalojou sua parceira de saltos e companheira de saltos. Giovanna ficou indignada e denunciou a atitude de sua “amiga” e a direção do COB optou por abafar o caso e evitar o vazamento da informação, algo impossível nestes tempos de mídia instantânea. A partir daí, um grupo ficou ao lado de Giovanna enquanto outros defenderam Ingrid. Na verdade, o erro foi mesmo de Ingrid. Não pelo fato de fazer sexo na Vila Olímpica, coisa normal em todos Jogos Olímpicos, mas, sim, por praticar seu ato às vésperas da competição onde as meninas enfrentaram as melhores duplas de Saltos Ornamentais do mundo. O resultado não poderia ser outro: elas ficaram em último lugar e romperam amizade. Ingrid admite reatar amizade com Giovanna e critica interferência das pessoas em sua vida pessoal. Não é bem assim. Na Vila Olímpica, ela era uma atleta representando o Brasil em sua cidade natal e recebeu verbas do COB para treinar, ou seja, frustrou os torcedores que foram incentivá-las. Não se trata de ser patrulheiro moral, porém, ela deveria ter sido mais cuidadosa. Depois de encerrada sua participação na competição, estaria livre para fazer o que quisesse e aí, sim, ninguém teria nada a ver com isto. Agora resta saber como será seu comportamento na disputa de Plataforma de Saltos Individual, marcada para 17 de agosto.  Muita gente até defendeu seu desligamento da delegação, entretanto, o COB optou pela manutenção dela. O duro é que ela terá de segurar seu ímpeto sexual até o final da Olimpíada…

Marta x Neymar, a polêmica

Outra polêmica foi estabelecida pelos torcedores entre Marta e Neymar, os camisas 10 das seleções brasileiras de futebol feminino e masculino respectivamente. Todos adoram derreter-se em elogios à Marta e esculhambar Neymar, chamando-o de mascarado, mercenário e outros epítetos pouco elogiáveis. As pessoas se esquecem que Neymar nem precisaria estar na Seleção Olímpica. Como titular absoluto da Seleção Brasileira principal, ele poderia perfeitamente ter integrado a equipe na Copa América Centenário. No entanto, preferiu negociar com o Barcelona sua liberação da pré-temporada para integrar o time que busca uma inédita medalha de ouro olímpica no futebol masculina – única conquista que falta ao vitorioso futebol brasileiro. Marta, por sua vez, também continua sua luta para obter a medalha de ouro na Rio 2016, algo que seria fantástico para as meninas do Brasil e um justo prêmio à geração de Marta, Formiga e Cristiane, as mais experientes da seleção. Antipatia à Neymar provocou até mesmo uma reação da própria Marta que pediu aos torcedores apoio ao ex-craque do Santos.

Futebol feminino x futebol masculino, a hipocrisia

Na verdade, esta torcida exagerada pela Seleção Brasileira de Futebol Feminino em detrimento da Seleção Brasileira de Futebol Masculino não passa de hipocrisia. A tão exaltada Marta teve de se mudar para a Suécia para continuar jogando futebol profissionalmente porque no Brasil nunca houve apoio à esta modalidade. E, sejamos honestos, a CBF até tentou montar um torneio de futebol feminino, porém, a total falta de interesse dos torcedores inviabilizou o projeto. O Santos Futebol Clube foi o clube grande que mais investiu na formação de uma equipe de futebol feminino, entretanto, as “Sereias da Vila” literalmente morreram na praia. Ninguém se animava a pagar ingressos para assistir aos jogos de futebol feminino. Cá para nós, se te oferecessem um par de ingressos para assistir à partida entre Brasil e Argentina no futebol feminino e no futebol masculino, qual você escolheria?

Seleção Brasileira dá a volta por cima

Após duas partidas decepcionantes contra as fraquíssimas seleções olímpicas da África do Sul e do Iraque, a Seleção Brasileira de Futebol Masculino mostrou um futebol convincente contra a Dinamarca e aplicou uma goleada de 4 a 0 – com dois gols de Gabriel Barbosa, um de Gabriel Jesus e um de Luan. O técnico Rogério Micale partiu para o tudo ou nada e sacou Felipe Anderson para entrada de Luan, o atacante do Grêmio. O sistema implantado permitiu uma variação tática, conforme explicou Micale: “É um 4-2-4 em alguns momentos, porque se transforma invariavelmente em 4-2-3-1. Eles tinham um lado direito muito forte, onde o jogador deles dava amplitude ao campo, e o Gabriel Jesus tem essa condição de acompanhar o jogador e voltar nas costas dele para fazer superioridade numérica. O Neymar, como vinha sendo muito marcado nos dois jogos anteriores no posicionamento de origem do Barcelona, tentamos sair dessa situação, porque os adversários já estão prevendo isso e para permitir rotatividade do ataque”.

Alguns fatores contribuíram para a melhoria do futebol brasileiro. Além da mudança tática, o gramado do Estádio Fonte Nova, em Salvador, é bem melhor do que do Estádio Mané Garrincha, em Brasília, onde o Brasil havia jogado as duas primeiras partidas. E também aproximação das linhas teve um papel fundamental. Nos primeiros jogos, constatou-se compartimentos estanques entre defesa, meio campo e ataque. Agora, houve uma compactação das linhas, o que permitiu o jogo mais fluido dos jogadores brasileiros.

Falta de raça, jogadores milionários, mascarados…

Realmente dá uma canseira ficar ouvindo comentários descabidos como o Brasil nunca mais vai vencer nada porque os jogadores brasileiros não têm raça, ficam milonários muito cedo e se tornam mascarados. Além disso, muita gente defende a convocação apenas de atletas que jogam no Brasil, “porque os outros não têm mais compromisso com a pátria”. Essas bobagens não fazem sentido por um simples motivo. Aqueles que se destacam são contratados pelos clubes estrangeiros e obviamente mudam de país. Ou seja, somente jogaríamos com jogadores de baixa qualidade porque os mais talentosos estariam fora. Além disso, craques de todos países atuam em clubes de outros países, portanto, este argumento não se sustenta.

Próximos compromissos

A Seleção Brasileira de Futebol Masculino enfrentará a Colômbia no próximo sábado pelas quartas de final do torneio. Se passar pelos colombianos, o Brasil enfrentará o vencedor da partida entre Coreia do Sul e Honduras. Na outra chave, os duelos serão entre Nigéria x Dinamarca e Portugal x Alemanha. A Seleção Brasileira de Futebol Feminino jogará contra Austrália neste sábado. Se vencer as australianas, as brasileiras enfrentarão as vencedoras do duelo entre Canadá e França. Na outra chave, estão programados os jogos Estados Unidos x Suécia e China x Alemanha.